Terra dos doces



Era uma vez uma princesa sem nariz. Quando nasceu soltou-se dos braços da ama que, sem intenção, encontravam-se esticados para o lado de fora da janela da torre mais alta. Pela força do impacto a coroa cravou-se na tenra carne de cabeça-bebé e o nariz saiu decapitado. Uma vez que a coroa não se podia retirar, foram feitos dois buraquinhos no ouro liso para que a princesa pudesse ver, mais um buraquinho no sítio do nariz para o ar entrar e sair. O nariz, por sua vez, foi pisado por um cego que passou junto ao local no momento exacto em que o apetrecho da respiração se colocou entre o chão e a sola do sapato do homem em questão. Não nasceu cego, um dia estava ele ainda na idade do “já parece um homenzinho” quando adormeceu debaixo da máquina de costura da melhor costureira gaga do reino que, sem intenção, soltou duas agulhas em direcção aos olhos fechados, que fechados ficaram e fechados se mantêm e talvez fechados morram. A costureira nem sempre foi gaga, estava ela a tirar as medidas de umas calças para o coveiro sem um braço quando este, sem intenção, deixou o susto de morte sair da manga atada da sua camisa. O susto sem mais demoras entrou directamente para o espelho das provas da costureira e esta, cada vez que se mira nele fica com os pensamentos dobrados e repetidos. O coveiro, esse, ficou sem braço há pouco tempo e por uma questão de camaradagem, quando o seu amigo mudo pediu uma “mãozinha” para o ajudar na plantação de trigo. Assim sendo, como a plantação era muito grande, o amigo, sem intenção, deixou a foice cair um bocadinho mais acima da mão. Nada que se compare ao que sucedeu à língua do amigo mudo. Estava ele a pescar no rio da corrente solta, enquanto o seu gato sem cauda dormitava à espera do cheiro do peixe fresquinho. Como o dia correu mal, o gato, sem intenção, comeu a língua do dono e chamou-lhe um figo. Figo porque nunca gostou de carne. A história da cauda começou quando o gato se quis fazer amigo do ratinho sem orelhas. Esse ratinho morava com o rei da Rússia e esse rei fazia colecção de garrafas. Um dia, eram tantas as garrafas que o ratinho, sem rolhas e sem intenção, roeu a cauda do gato e assim conseguir tapar todas as garrafas. As orelhas do ratinho sempre foram de espiar através das portas, até que um dia o buraco da fechadura sem chave revoltou-se com o coscuvilheiro e, sem intenção, imitou uma chave e rodou cortando ambas as orelhas do ratinho. Quando a fechadura foi construída, foi-lhe concedida uma chave, mas numa noite aflita, um coração sem ama, trancou-se na torre mais alta do castelo e guardou, sem intenção, a chave no bolso das coronárias de sangue azul.

Comentários

  1. Não vou adjectivar porque tu já sabes. Dentro da melhor tradição da literatura oral pelo tom de história de lareira e chá quente e pela metáfora da vida: estamos irrevediavelmente ligados num grande círculo, todos perdemos parte de nós algures no nosso caminho e a maldade,tal como a culpa, nunca é assumida. Não sei se foi sem intenção, mas está perf...(oops, quase que adjectivava sem querer ;)....)

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