O Regresso dos Heróis: Memórias de Batalhas Esquecidas, em 4 Actos

Quadro II: O Bom Soldado



- Doutor ajude-me, por favor. Não se vá embora, oiça-me, eu preciso de falar com alguém…


Está uma manhã magnífica de sol e frio, o ar gélido paralisa o olhar de quem procura o seu momento de paz, um instante no desenfrear violento do infinito devir das coisas, uma fatia de tempo para saborear, um minuto de silêncio em honra dos heróis do passado. Nas ruas não há almas, apenas pessoas atarefadas e absortas no seu dia-a-dia, nem um som para além do ruído infernal do caos tranquilo da vida nos subúrbios, tudo está em paz, à medida que o mundo desaba e a esperança de cada um colapsa como um castelo de areia fustigado pelas ondas violentas da maré da inquietude. Um dia como os outros que se passaram e tornarão a passar.


- Eu era apenas uma criança… sabe doutor, nestas coisas nunca sabemos como seria se fosse diferente. Eu queria que tivesse sido diferente, queria saber que eu poderia ter sido diferente. O doutor percebe-me, não percebe? Eu sei que percebe, eu sei que me perdoa, eu sei que se há alguém que veja para além desta face destruída pelo horror é o senhor.


Um carro passa por uma poça de água e salpica a criança que vai para a escola. O seu vestido fica sujo de lama, mas a menina não se importa, segue contente. Pois assim são as crianças, nada as suja, nada as polui, são puras aos olhos de Deus. Que a graça do Senhor te acompanhe minha menina e te proteja dos males deste mundo.


- Estão lá fora, não estão? Eu sei. Eu sei que me aguardam, sei que me vão levar e me lançarão nas trevas a pão e água. Mas sabe doutor, eu já estou nas trevas, eu sou as trevas, eu tornei-me a morte.




Casas alinhadas, já um pouco velhas mas sólidas, como o bairro que as agrupa e as pessoas que lá vivem. Solidários uns com os outros, os vizinhos revezam-se a vigiar o bairro, os olhos atentos das senhoras perscrutam os jovens rapazes que planeiam alguma ou as raparigas atrevidas que, entre risinhos, escolhem os namorados entre os mais rebeldes e ‘maus rapazes’, pois assim é a ordem das coisas. Os homens jogam-se entre vinho barato e cigarros, falam do vazio que os preenche com o desapego insalubre de quem vive, de quem se torna em cascas vazias e gastas.


- A guerra doutor começa em nós, grassa feroz pelos campos dos sonhos incumpridos e torna-nos predadores. O doutor sabe o que é um predador? É uma besta sanguinária e descontrolada, que não para até desfazer entre presas e garras a sua vítima. Que se banha no seu sangue e guarda troféus nas paredes de seu covil. O que o doutor não sabe é que os predadores não são o topo da cadeia alimentar, oh não. São joguetes doutor, meros joguetes…


Quando a chuva falta e a terra greta ergue-se o pó da desconfiança e paranóia. O vento sopra como um animal faminto e os nossos corações desfazem-se entre estilhaços de sangue e crueldade. Ninguém sobrevive neste mundo, estamos condenados. Abençoados dos ignorantes que nada sabem destas coisas, pois deles será o inferno dos céus.


- Quando nós voltamos as bandeiras e cartazes enfeitavam todas as portas. As mulheres acenavam, os homens brindavam, os sinos das igrejas retorquiam e havia alegria no ar. Mas durou tão pouco doutor, foi apenas uma efémera luz que connosco gozou, aludindo a uma possível saída, um fim do túnel. Agora, para mim, o túnel é a luz e apenas a escuridão no fim me aguarda.



O dia avança e aquece. Disparam os aspersores automáticos que saciam os verdes tapetes de ilusões e enganos que cobrem os quintais das casas. Negligente, um rapazinho atravessa a estrada sem olhar e quase que é atropelado por um carro da polícia. Sem uma preocupação no mundo, aquele menino ia a correr, sem prudência mas com a divina providência a cuidar dele. Estava seguro nas mãos dos anjos.


- Ei vi o que o homem é capaz de fazer ao seu irmão. Vi corpos desfeitos de soldados a serem devorados pelos abutres e não me chocou menos o facto de usarem um uniforme diferente do meu. Vi políticos e senhores da guerra sorrirem à mesa do pequeno-almoço, enquanto decidiam o nosso destino. Vi a morte sorrir e a convidar-nos a violar aquelas pobres mulheres que, sem nada mais que as protegesse, valiam-se de preces vãs, pois Deus estava demasiado ocupado para as livrar do mal que se abatia sobre os seus ventres. Eu vi aquelas crianças, negras de fome, brancas de desespero, azuis de agonia e cinzentas como o céu que nos encobria. Eu matei crianças doutor. Eu matei crianças...




Ao passar pela casa velha e decadente, uma vizinha mais diligente assomou por entre os farrapos da cortina e viu um vulto. Era o pobre homem, prestes a cometer uma terrível desgraça…


- Obrigado por me ouvir doutor. Sei que poderei sempre contar consigo, mas o meu momento chegou. Ir-me-ei juntar a meus irmãos. Juntos, como heróis, regressaremos para perto de Deus, a seu lado ficaremos sentados a contemplar o infinito, homens por fim, em paz. O soldado cumpriu o seu destino. Eu não posso escapar doutor, sabe porquê… eu matei crianças doutor, eu vi-as a correr para mim, em absoluto pânico e terror, a pedir guarida em meus braços, a gritar, a gritar em absoluto desespero, absoluto desespero… eu tive tanto medo, tanto medo… elas estavam em pânico, elas queriam ajuda, doutor, elas queriam ajuda… eu perdi a consciência e quando despertei, tinha despejado o cartucho de balas sobre elas… os seus corpos tombados sobre a terra suja e molhada de sangue, a inocência morreu nesse dia doutor, eu matei crianças… eu não aguento mais doutor, eu não aguento mais as noites de vigília, o horror que me consome, eu quero chorar doutor, mas não consigo, ajude-me a chorar…




Lá fora, a polícia anunciava ao ocupante que estava a cercar a casa, pedia para que baixasse a arma e saísse tranquilamente, que prometia ajudar, se ele baixasse a arma.


- Eram tão pequenas, talvez uns 5, 6 anitos, talvez irmãos e primos, talvez filhos e netos das mulheres e homens tombados em resultado do nosso raid sobre a aldeia. Talvez fossem os meus filhos, talvez fossemos nós que lá estávamos doutor, eu e o senhor, a correr para os braços de um desconhecido, uma criança grande com uma AK47 nas mãos… eram os meus meninos e meninas, filhos de Deus… eu matei crianças doutor…



Quando o negociador da polícia e os dois atiradores entraram na casa já era tarde demais. O bom soldado era agora uma carcaça, uma casca vazia, terminara sua missão com um disparo de caçadeira na boca. 

Com a cabeça deitada no seu colo, com olhos tristes de quem foi a testemunha final do martírio do herói, lá estava ele, o seu cão, o seu confessor, a sua única companhia nestes últimos anos, que ouviu e registou as últimas horas do seu dono neste mundo...

Comentários

  1. Muito, muito bom! Escrito com grande sensibilidade, trágico mas com uma pitada de surrealismo no final. Excelente; esta tua série de Batalhas promete.

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  2. Tão incrívelmente real. Mesmo que triste: belo.

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