24, horas.




Por mais que tudo pareça igual,
Por mais que reconheça,
Apetecia-me voltar ao desconhecido.
Depois de ver o jardim,
De ver as horas a serem contadas nas folhas
Que movem-se em câmara lenta.
Depois de o chocolate derreter,
E ver uma colher a ir ao seu encontro,
“Queres um bocadinho?”
“Não, come tu.”
Apetecia-me mesmo voltar.
Irrita-me o facto de não conseguir voltar,
A chávena de café, o açúcar, o mexer…
As imagens dos grãos de café a serem triturados,
A serem colhidos,
A serem plantados,
A serem pó.
O livro na estante.
As folhas outra vez em câmara lenta,
E as letras a derreterem,
“Queres ler?”
“Não, lê tu.”
O som da madeira, o cheiro.
O risco do compasso.
O corte do formão.
O entalhar.
O relevo.
A mensagem.
A chuva que tem acidentes contra o vidro,
Que chora por isso, porque doeu, porque dói sempre.
O sol que teima em vir atrás e secar sem piedade a chuva.
Mas a marca da chuva é sempre mais teimosa,
“Já limpaste as janelas?”
“Não, limpa tu.”
O rodar perfeito da chave,
O conhecer de cor a fechadura,
Mas mesmo assim,
Sentir um arrepio de cada vez que a porta se abre,
Cada vez que os pés descalços pisam o tapete,
As cócegas,
O interruptor, a luz, o clique,
O sorriso, são horas de dormir,
Cheira a sonhos.
“Podes apagar a luz?”
“Não, apaga tu.”
O céu que embala,
As nuvens que desaparecem,
As estrelas que iniciam o turno,
O som das palavras,
Do silêncio que fica entre elas,
Do respirar que fica entre o silêncio,
Do pestanejar que fica ente o respirar,
Dos pensamentos que ficam entre o pestanejar,
Do sentir que fica entre os pensamentos,
Do doce que fica entre o sentir.
"Não dormes?"
"Não, dorme tu."

Comentários

  1. e ficava a ler te 24 sobre 24 h...bom Inês(zoca) muito bom!:)

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  2. Soberbo, como sempre. Acho que vou criar um movimento "Quero ter um livro da Inês" no Facebook.

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  3. Eu estou farta de dizer a mesma coisa, mas ninguém me liga... :D
    Este teu talento para dares poesia aos gestos mais quotidianos, aos detalhes mais pequenos, aos dias mais cinzentos... Lindissimo.

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  4. Li 3 vezes. Para me imbuir da doçura dos gestos, do perfume das imagens.

    "24, as horas do (desas)sossego das almas em corpos t(r)ocados.

    Se estivéssemos sempre junto dos que amamos, a que saberia a

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