A Primária



Estou na primeira classe e tenho um grilo.
Mora numa caixa de fósforos com buraquinhos.
Mas porque os irmãos mais novos devem de sofrer de uma doença chamada “irmão-mais-velho”, e eles falam sempre demais, tive de devolver a caixa à cozinha da minha mãe.
Quem me dera ter nascido de uma macieira.
Hoje era uma maçã e teria como animal de estimação uma minhoca grande e gorda, dentro de uma caixa de folhas que teria ido buscar à cozinha da árvore.

Estou na segunda classe e tenho uma estrela-do-mar.
Mora numa caixa de morangos.
Mas porque os irmãos do meio devem de sofrer de uma doença chamada “irmã-mais-nova”, e elas estragam sempre demais, tive de devolver a estrela ao mar dos meus sonhos.
Quem me dera ter nascido de uma bicicleta.
Hoje era uns pedais e teria como animal de estimação uma estrada longa e magrinha, dentro de uma caixa de pedalar constante que teria ido buscar aos gémeos das minhas pernas.

Estou na terceira classe e tenho uma joaninha.
Mora numa caixa de bolachas.
Mas porque os irmãos mais velhos devem de sofrer de uma doença chamada “irmão-ainda-mais-novo”, e eles choram sempre demais, tive de fazer da caixa tambor e tornar-me cantor.
Quem me dera ter nascido de um rio.
Hoje era uma ondinha cor de céu brilhante e teria como animal de estimação um peixe saltador, dentro de uma caixa de conchas que teria ido buscar ao estuário do sol.

Estou na quarta classe e tenho um crocodilo.
Mora numa caixa de frigorífico.
Não há doença crónica que sobrevivia a bocas grandes e dentes afiados.
Quem me dera ter nascido de um cesto.
Hoje era um bolo de mel para a minha avozinha e teria como animal de estimação um caçador, dentro de uma caixa de chumbo que teria ido buscar à barriga do lobo mau.

Tenho saudades dos meus animais de estimação.

Comentários

  1. Aqui esta a borboleta completamente rendida a maravilha que é este texto!!Parabéns Inês(zoca)

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  2. Só uma palavra: maravilhoso! :) O mundo tem de te ler rapidamente.

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  3. Ternura explícita que nos leva á(s) nossa(s) infância(s).
    Lindo.

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  4. Como é que é possível eu não ter comentado este texto genial?
    E agora...?

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