Cristal (Eternidade em III actos)

PS: recuperada de outros tempos..



Acto I: As Criaturas

Os primeiros dias de Novembro fustigavam a aldeia com chuvas fortes e ventos castigadores. Era o anúncio do Inverno, que deixava bem claras as suas intenções de ser longo e tenebroso. Era tempo das pessoas se recolherem nas suas casas, nos seus abrigos, longe das tormentas da estação. E longe dos olhares dele

Era uma criatura peculiar. Alguns diriam pacato e recatado, outros chamavam-lhe “avozinho dos bonecos”. E também havia aqueles que o olhavam com desconfiança... e medo, muito medo.

A loja era de facto extraordinária, uma delícia para os olhares curiosos, um passeio entre o maravilhoso e o macabro. Centenas de pequenos bonecos de cristal, todos diferentes uns dos outros. Muitos, a maioria, eram para venda. Dizia-se que uns vinham da Bohemia, outros eram recordações do Brasil colonial, enquanto que muitos eram italianos ou mesmo chineses. Vinham de todo o mundo, e desfilavam nas prateleiras de teixo antigo da loja do Mestre Fausto.

Mestre Fausto vivia naquela aldeia desde sempre, nem mesmo os mais velhos se lembram da chegada dele. Era um homem alto e magro, de feições vincadas e pele encortiçada, olhar fundo e encovado, e tanto era capaz do sorriso mais cordial como da expressão mais esfíngica. Tinha o dom de encantar as crianças com as histórias dos seus bonecos de cristal. Entre tantas que foram contadas, houve duas que ficaram particularmente famosas: a do Tigre e a da Traça Aqueronte, a Caveira-da-Morte. Ninguém sabe todos os pormenores, pois foram as duas contadas há muito tempo e a várias pessoas, que ouviram de maneira diferente. A cada um a música que lhe encanta o ouvido.


O Tigre

O Tigre veio da Índia, de onde mais ? Dizia-se que teria feito parte da colecção luxuosa de um rico capataz inglês, nos tempos em que a Índia era a jóia da coroa do Império Britânico.

Não tinha preço, era uma peça única, de detalhes fora do comum, um cristal deliciosamente fino e leve, sem uma única marca de entalhe, como se tivesse sido o próprio Shiva a esculpi-lo com o seu fogo.

Mas tanta beleza tinha o seu lado negro. Não era possível contemplar o Tigre demasiado tempo, não mais do que um ou dois minutos de cada vez. Quem deixasse o seu olhar perscrutar o valioso espécimen com demasiada demora caia num transe profundo, onde era visitado por pesadelos violentos e claustrofóbicos, em que imaginava ficar perdido na selva, sem saber para onde ir, e em que o Tigre o perseguia... até à morte! Se conseguisse sair do transe antes do Tigre o apanhar, ficava apenas marcado para o resto da sua vida com terrores nocturnos, mas se o Tigre o reclamasse, ficaria remetido a um estado vegetativo, com o corpo contorcido pelo pânico e a cara deformada com a máscara da morte.


A Aqueronte

Uma peça de classe incomparável. Uma enorme traça Aqueronte, mais vulgarmente conhecida por Caveira-da-Morte, dado o padrão que exibia no seu dorso, uma assustadora caveira de expressão fria e cativante. A Aqueronte era uma antiguidade que havia passado de geração em geração, sendo que o último dono, o Conde de Chambourcy, a deixou em legado ao Mestre Fausto, em honra da sua inigualável colecção de seres de cristal.

A lenda rezava que a Aqueronte vinha da Grécia dos heróis e dos deuses. Constava que a infame pertencia a Pitonisa que, no seu Templo de Delfos, o Oráculo de Apolo, adivinhava o futuro e via para além do tempo.

A Aqueronte era uma das suas duas companheiras, sendo a outra o Grifo Assírio, que se terá perdido numa das inúmeras trocas de dono ao longo dos séculos. Consta então que a Pitonisa ouvia o que a Aqueronte e o Grifo lhe diziam sobre o visitante que vinha à consulta do oráculo, e que eram portadores das vozes dos condenados, os esquecidos do reino profundo de Hades.

A Aqueronte seria a voz do barqueiro que levava os mortos para o submundo. Ela sabia sempre o que as pobres almas tinham para pagar neste mundo... e no próximo. O que o Mestre Fausto dizia era que nunca fizessem nenhuma pergunta à Aqueronte, a não ser que estivessem seguros que queriam mesmo saber a resposta. Não, o boneco de cristal não se iria mover e desatar a falar. A resposta viria mais tarde, após o segundo sono da noite. Por vezes, quem obtinha a resposta da Aqueronte durante o pesado repouso acordava insano, tresloucado, profundamente apático ou simplesmente suicidava-se em poucos dias.


Mas não lhe vou contar mais histórias de bonecos assustadores, ou de velhas lendas sem tempo. Vou-lhes contar a história de Ângela, e de como ela procurou descobrir o segredo de Mestre Fausto e dos Cristais malditos…

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