Mea culpa



Não lhe apetece escrever.
Não que tenha as ideias cansadas mas o corpo acha que a ponta dos dedos já não tem de comandar letras. O corpo vê que as palavras contraem sempre a mesma cor do fundo onde capitulam. A presença constante tornou-as áridas.
Agora, em vez de escrever, fica à janela a apreciar a paisagem através de um copo de água. Tudo fica mais bonito através de um copo de água, é como se o mundo inteiro se assumisse em mililitros.
O braço ainda se inspira para segurar no copo, os dedos ainda obedecem, o vidro é aderente, mas o que fazer quando a água ficar turva? A luz reflectida vai perder-se e misturar-se com a cor pálida da mão. Coloca o copo no parapeito da janela e vai buscar os pincéis com restos de guache para obrigá-los a largar tudo o que têm. Se é para ter um desgosto mais tarde, que seja agora, se é para ficar turva que seja pelo resto de várias tentativas de arte inacabada, se é para perder o mundo que seja pelo egoísmo de mais tarde dizer “a culpa foi minha”. Sim, não lhe apetece escrever e a culpa é sua.
Enquanto desce as escadas, o verniz do chão reflecte a luz artificial dos candeeiros enquanto a porta da rua deixa passar por debaixo a luz tímida da lua. Sai para a rua de óculos de sol só para ofender as estrelas enquanto sorri ao som dos pa-sso-s inc-e-r-tos. Não quer saber, no dia em que lhe ofereceram um sítio para escrever não lhe disseram que ia ser para sempre. Tal como no dia em que lhe ofereceram um sítio para pintar também não lhe disseram que a verdadeira inspiração estava três andares abaixo.
Amanhã vai comprar um violino e pensar que tudo fica mais bonito através de um arco.
No outro dia vai comprar uma máquina fotográfica e pensar que tudo fica mais bonito através da imobilização.
Ao terceiro dia vai criticar todos aqueles que não lhe disseram que a música precisa de ser escrita em pautas e que as fotografias precisam de cores. É angustiante pensar que não lhe apetece escrever e que não lhe apetece pintar. Fecha os olhos e aquilo que vê não faz o mundo ficar mais bonito mas, é como se o mundo inteiro se assumisse em palavras, escritas em arcos que projectam cores e que sorriem ao som dos passos cer-tos que sobem as escadas. Lá em cima está a janela. Hoje vai pintar estrelas nos vidros, esperar que elas se sintam compensadas por terem sido ofendidas, vai fotografa-las, escrever sobre a fotografia, beber muita água e quem sabe se não vai receber a visita da inspiração.
…Se não receber, é egoísta o suficiente para não ficar triste. Vai baralhar as letras todas porque tem medo que mais tarde, a meio da noite, lhe venham dizer que é inútil. De quem é a culpa?
É do dormir. Não vale a pena ser egoísta. Basta dormir e ter pesadelos.

Comentários

  1. Lá está, Inês...
    Será que é preciso eu dizer mais alguma coisa?
    Se isto não é escrever brilhantemente, não sei o que será...

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  2. Lá está, Inês...
    Será que é preciso eu dizer mais alguma coisa?
    Se isto não é escrever brilhantemente, não sei o que será...

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  3. Este é daqueles textos que vou ler uma e outra e outra vez...

    Obrigado Inês

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  4. Moods...
    é sempre um prazer ler-te e tentar associar o não escrito à tua pessoa. Mas primeiramente é um prazer ler-te. Hás-de pensar em compilar ou criar seguido para assumires a tua essência de escritora...

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