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A mostrar mensagens de Julho, 2012

Através de ti (Parte II de III)

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Parte II – Sequência






“Mostra-me, mostra-me o que tens, do que te estas a esconder. Eu conheço-te, sei quem tu és, partilhamos o mesmo coração, o mesmo pensamento, o mesmo sonho. E quando tudo flui, tu vogas comigo, somos mar e navio, mastro e vela, maré e maresia, somos pedaços da mesma fantasia e delírio onírico do mesmo arquétipo adormecido. Mostra-te, vê dentro de ti, não tenho segredos para ti, não há palavras por dizer ou redigir, sou o livro que conta a tua história em parágrafos de existência intermitente e pontuação cuidada. Somos canto e estrofe, nascemos gémeos na garganta do poeta que um dia quis contar a história da luz, aquela pequena luz que nos comove e tem cativos, a luz dos teus olhos, por onde eu contemplo o horizonte perdido das horas em que não me sinto em ti. Não te martirizes, nada há para esconder, eu sei o que tens.”
Seria de esperar que estivesse assustada, apavorada pelo terrível sonho que a despertou a meio da madrugada. Mas Elianor simplesmente abriu os ol…

Par de botas

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Era uma vez um cordel de pião que servia como atacador na bota número 39. Tinha como rotina diária espartilhar o pé e aconchegar-se num laço perfeito, tão perfeito que só podia ser feito por alguém com um único pé para calçar. Mas os vícios são como as crianças na idade dos porquês e cada vez que o cordel pensava porque não tinha pião para girar a senhora era impulsionada num rodopio de calcâneo. Sucediam-se as náuseas e os vómitos e com um estômago prostrado a cama foi a melhor forma de suavizar os estragos. A cama e um chinelo. 
Na casa do bicho papão, a bota palmilhava palavras interrogadas ao cordel: "Não és feliz aqui?” O cordel desentrelaçava: "Não sei."  Um dia, e porque todas as estórias têm "um dia" a má circulação apaixonou-se pelo pé e a bota deixou de ser bota, foi promovida a técnica de cotão com part time em berço para o bebé do bicho papão. O cordel começou a servir de fio de pesca para meninos e meninas com ponta de narizes curiosos por "…

Através de ti (Parte I de III)

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Parte I – Elianor

Sempre que entra em casa ouve uma voz que a cumprimenta. Bem-vinda, por onde andaste? Elianor, de olhos firmemente cerrados, respiração presa, queixo encostado sob o ombro esquerdo, levanta o braço direito e estende a mão na escuridão que inunda a sala de entrada. Quase que o sente. Quase. Mas não o sente. Não se pode sentir o que não está lá. Respira fundo… a mesa de cerejeira, as cadeiras almofadadas, arrumadas, marcam a ausência.

Por onde andaste, Elianor? Que ruas foram essas em que vincaste os passos apressados, que luz te afagou a face branca, branca como um anjo de porcelana, de traços finos e olhar distante. Onde estiveste Elianor? Não, não estiveste à beira da água, a sentir a brisa fresca da manhã, a contemplar as crianças a brincar com as flores. Não ficaste sentada na paragem de autocarro, à espera do número que nunca mais vinha, fingindo aflição pelo atraso, quando tudo o que querias era que alguém te visse, mesmo que não desse pela tua presença.

Quem …