O mundo, teu

Sou um conjunto de ideias vomitadas,
Por uma boca nómada
Onde todas as filosofias estão radicadas.
Circundada pelo ócio,
Ensopada pela vontade,
Exsurge-se-me a vontade de tudo abecedar.

E fosse o mundo um quadrado não explanado
Desvanecendo-se na vontade de ser achado.
(Assim giraríamos em linhas rectas, tal eco, tal eternidade)
E fosse o mundo o vácuo, que eu me calava
Só para te ouvir com os olhos.
(Pascendo-me nos céus, tal beleza)
E fosse o mundo tu e eu, mais nada,
Onde nenhuma metafísica minha estivesse errada.
(Tal utopia, tal cegueira. Paixão, essa, por inteira)

Mas tudo o que escrevo estropia-se no espelho.

Como um tiro falhado,
Sou poeta errante,
Estatuado,
Com ar de navegante,
À espera que a minha bala penetre o peito
De quem me causa deleito.
Sentimento abinício revela-se um esquisso.
Exumo tudo o que penso
Escavacando ao paroxismo do desalento.
Ego abúlico revela-se ábio
E nidificando-se em ti
Quer vida.

Agora, pasmo,
Chora, escondido na sombra de te ter luarejado.
(Pena que seja lucífugo)

Fosse o mundo o meu vómito.
Quero crer-me nele
E abluir pensamento.
Quero descrer-me que o seu motor
É como o vento,
Ora contra, ora a favor do nosso movimento.


Emanuel Graça' , 14 de Março de 2012

Comentários

  1. Quando ganhares o Nobel, lembra-te do blog. :)

    Maria Soares

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  2. Muito bom Emanuel! Acho que já te tinha dito :)!

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    1. Uma vez mais: Muitíssimo obrigado, Mónica. :)

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  3. pasmo. absorvo. releio e enrosco-me neste poema, do lado de lá do espelho.
    belíssimo.

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    1. Lisonjeado pelo elogio, Ana. Foi com enorme apreço que li as suas palavras. :)

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  4. com graça, cresces entre líricas desgarradas. Gosto de te acompanhar

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    1. 'Com graça', gostei do trocadilho.

      Obrigado, Der Uberlende.

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