quarta-feira, 21 de março de 2012

O SALITRE DAS ARRIBAS

Nos reflexos na janela esborratada pelas mãos da criança perdida

Revelou-se o desenho da tua memória nunca antes invocada

Quem és? O regresso adiado das coisas imaginadas e feitas jamais

Quem foste? Os sonhos inatingidos e castrados à nascença pelos próprios pais

Quando te deitas em que pensas? Na tua vida na que imaginas e na que tens.

Nas promessas de um caminho pelo qual afinal não vens?

Despido de todas as aberrações e capas.

Ser simplesmente como se é

Um chá. Numa terrina de sopa. Percebes a ironia? Estarei louca?

Seria a mesma ao acordar? Preferias café?

No teu olhar vejo o mar. A saudade das causas vencidas e das horas mal passadas.

As tuas ondas são mais salgadas. Trazem a maresia e os ares da montanha.

Que completa e encaixa na planície da erosão

Evocando um mundo maior onde o criador foi peremptório

Em separar as águas com avidez tamanha

Que a bebeu toda e no seu lugar deixou o céu.

E o teu sorriso de menino perdido que esborrata desenhos no vidro partido

Corta-me em perfeitos cacos e deixa-me novamente de braço caído

E totalmente atenta aos sinais

Aquele trilho que cobiço. É também por aí que vais?

Ao fundo dos precipícios altos

Ao preto negro dos basaltos

À seiva das ervas claras cheias de viço

Ao calor do beijo anunciado

Que antes de mim

Será roubado por uma das tuas servas

Que resmunga e te excomunga entre os dentes

E te encomenda a morte a gigantes valentes?

Seria mesmo assim?

Apesar do final do trilho ser sempre incerto

A minha testa de menina perdida que corta os pulsos na pedra partida

Poderia parar no percurso e descansar no teu peito aberto

E no final o teu corpo marcado pelas silvas encostar-se-ia à minha garganta?

Se tu fosses demónio ancião, eu seria uma nova santa

E o salitre das arribas ficaria contrabalançado

P’ la humidade relativa das nossas almas em colisão.

MM’ 12 Março 2012

6 comentários:

  1. caminhos que (não) ousámos? cafés sem açucar que recusámos. frio pela aspereza da ausência.

    salitre das arribas ao som das palavras bailantes com que sorrimos à vida. vitória vencida? :-)

    magníficamente belo MM!

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    1. Obrigada! Os caminhos fora do trilho embora possivelmente mais perigosos, são sempre mais estimulantes. :)

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  2. Como já tive oportunidade de te dizer: Achei muito interessante o arrojo, com ênfase para o vocabulário que empregas ao longo da composição lírica. Admirável. Parabéns. :)

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  3. no trilho certo não encontramos incertezas. Que aborrecida seria assim a vida!

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