quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Insectos (Parte II de IV)




parte II de IV

Sempre me fascinaram, pareciam jóias mágicas aladas, pequenos puzzles de refulgente rendilhado e organza, delicados seres que emergiam das águas escuras e pungentes dos pântanos… lembro-me de ser pequeno, de ser maior do que elas, mas de elas serem igualmente pequenas e, ao longe, tanto maiores quanto eu me sentia, por as ver a voas, cortar rectas entre tabuas e caniçais, pairar, como se o ar para elas fosse a janela do universo onde assomavam curiosas, ansiosas pelo espectáculo único que todos os dias acontece quando Apolo passa ligeiro pelos campos de Ceres.

Mas é aqui que está o truque, a ilusão, o engano. A beleza élfica, o enigma orgânico do metal vivo, do vitral pulsante, da jóia alada, como tudo o que é belo, orgânico e pulsante, tem uma génese, um momento da criação, o volteio suave das mãos do mago quando maravilha a audiência e a todos surpreende: ei-la! Contemplem a beleza maior, o deleite do criador, o segredo da fragilidade, da sensual feminilidade e de toda a virtude deste mundo. Um truque, nada mais. Uma ilusão, sem a qual não queremos viver. O engano que não queremos aceitar como por demais evidente. Assim é, sempre foi, eternamente será. A ascese impossível. O perdão hedónico. O limiar que nunca haveria de ser revelado. Falo pois, desse momento de êxtase e assombro, quando descoberta é a verdade, a origem das coisas, a metamorfose.

Se acreditar, morro, se duvidar, matam-me. Matem-me, não me abandonem nestes campos repletos de tais efémeras criaturas, porque delas eu descobri o segredo. Nada do que é belo pode nascer de nada belo. Nada há de belo na voraz, críptica, insidiosa larva de uma libélula, escondida entre folhas e sedimentos, golpeia a presa incauta e devora-a com enorme violência e satisfação. É assim que cresce, toma forma e ilude o ávido de desejo, inunda-o de desejos, fazendo-se desejar por tudo o que agora é no reflexo lagunar da alma do seu amante.

Se na beleza que contemplas não vires o signo de toda a fealdade deste mundo, serás levado pela corrente fria e serpentina deste rio que a lado nenhum nos leva. Se acreditas nas dádivas de sensualidade e afeição, acredita também no torpor mórbido que lhes deu origem. Se considerares, um só momento, que és o escolhido para desvendar o grande enigma da perpetuidade do ser amado, prepara a tua despedida, porque no amor, bem como em todas as coisas belas e objectos de desejo, a natureza do insecto conhece apenas uma regra: 

Ergue-te, devora e levanta voo...

3 comentários:

  1. Não creio que nos conheçamos ainda.
    Vim da Manuela porque gostei do seu comentário lá e ao chegar aqui, percebo que o seu Blog tem textos riquíssimos.

    Voltarei para ler mais, com mais tempo.
    Sou a Fernanda mas todos me chamam Ná.

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  2. Nuno...
    "Nada do que é belo pode nascer de nada belo. Nada há de belo na voraz, críptica, insidiosa larva de uma libélula, escondida entre folhas e sedimentos, golpeia a presa incauta e devora-a com enorme violência e satisfação."
    A metamorfose...Parabéns, excelente!

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  3. "Se na beleza que contemplas não vires o signo de toda a fealdade deste mundo, serás levado pela corrente fria e serpentina deste rio que a lado nenhum nos leva. Se acreditas nas dádivas de sensualidade e afeição, acredita também no torpor mórbido que lhes deu origem." Isto sim, é uma lição de filosofia, e aqui se concentra, curiosamente, a pedra de toque de grande parte dos teus trabalhos: os dois lados da Criação estão intimamente ligados e não pode haver luz sem sombra, belo sem medonho, amor sem ódio. E como sempre prendes ambos numa fina e intrincada teia, tornando-os inseparáveis.
    Adorei este teu belíssimo, delicado e cruel texto, como o são, no fundo, a Natureza e a própria vida. Uma delicia de ler, cheia de profundidade. "Ergue-te, devora e levanta voo!" ;)

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