quinta-feira, 1 de setembro de 2011


Mãe,

Desculpa ter saído sem avisar mas tu conheces-me bem e sabes que não consigo conter-me. Tudo o que faço fere-te. Sou um filho maldito, um vírus que não pararia até ver-te morta.

Eu preciso das minhas obsessões. Preciso das nódoas de ferrugem, cinza e alcatrão. Preciso do crude à volta dos tornozelos e debaixo das unhas. O chumbo e o mercúrio acalmam-me. As turbinas, os reactores, os postes de alta tensão são como membros que deveriam ser parte da minha carne. Contorço-me à noite, deitado a imaginar refinarias, altos fornos e explosões de dinamite. Acordo em abstinência e preciso do cheiro dos solventes e da benzina. Todo o meu corpo pede que saia para a rua e o ofereça às águas azotadas e às radiações que o queimam. Rebento a porta e vou à procura da combustão lenta. Quero as mutações genéticas, quero o smog a sufocar-me, quero árvores a cair, quero extingir e extinguir-me. Quero arrancar-te bocados a céu aberto, inspirar e senti-los enegrecer-me os pulmões. Quero tornar-me tóxico. Quero sentir o espasmo da cisão dos átomos. Quero a corrosão, quero mares mortos.

Quero e faço. Sacio-me para que depois venha a calma, o sangue feito pó, a ampulheta onde cai um fio de limalhas. E fico à espera que recomece.

Por isso parti e vim para o mundo ao teu lado. A mais bela das mulheres. Ela sente o mesmo prazer em envenenar-me que eu sinto ao deixar que os seus ácidos fluam. Não trouxe o meu espírito comigo. Estava sempre atravessado no caminho e atrasava-me. Arranquei-o de um só golpe e substitui-o por uma peça mecânica lubrificada e cheia de válvulas. Está algures aí no chão.

Aqui estou bem. Fico sempre no lado escuro, com a recordação das palavras do Marinetti a arder como incenso enquanto, na minha memória, ouço os acordes dos martelos a bater e dos carris a fagulhar, ferro contra ferro.

Um dia volto. Vou cansar-me de mim e acordar numa das tuas florestas nórdicas, numa manhã de geada. Vou tirar a roupa e mergulhar num rio de águas revoltas e deixar que as lâminas de gelo e as pedras acabem de me limpar. E vou finalmente compreender. Compreender-te.

Nessa altura vou querer que me devolvas a minha alma orgânica e frágil. Sei que a guardarás, envolta em silêncio, no fundo de um dos teus oceanos, num local onde nada existe além de ti. E sei que vais cosê-la de volta no meu peito e velar por mim, ao meu lado, até que a tua doce seiva volte a correr-me nas veias.

O teu filho


Imagem : Rust and dirt, Roger McLassus

4 comentários:

  1. Nem tenho palavras para a excelência disto. Muito, muito, muito bom.

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  2. Um "de queixo caído" mais que merecido!
    Adorei!

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  3. Quem me dera ter escrito este texto. Absolutamente magnífico.

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