segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Ian Curtis, o génio que pensa no que sente



Ian era um jovem que se interessava por desvendar os mistérios da Natureza, do Universo e, sobretudo, da própria humanidade. Ian perdia-se no querer contínuo de se encontrar a si mesmo e de descobrir o significado da sua ignóbil existência. Inconformado com a utilidade do conhecimento empírico e com conjecturas edificadas por outro alguém que não ele, Ian era o cantor, poeta e filósofo que via o mundo através de uma conjectura metafísica própria e vivia segundo uma doutrina sob a qual mais ninguém vivia. O seu génio voltava as suas atenções para os ensinamentos do ocultismo e suportava consigo a ânsia desmedida de se querer descobrir a cada passo que dava. (Muito) Precocemente apaixonado por letras e pela poesia do britânico William Wordsworth, Curtis revelava um dom aprimorado para a escrita. As suas músicas eram constituídas por letras banhadas a sentimento puro que, por sua vez seria, asfixiado na beleza com que o inglês escrevia. As suas composições líricas retratavam, na maioria, emoções e sentimentos vividas/vividos no quotidiano. Eram estas emoções e estes sentimentos que davam asas e alento à genialidade do cantor, eram delas que o seu génio se alimentava, eram delas que Ian vivia. Curtis era, portanto, um sensacionista da razão, ou seja, compreendia o mundo através dum processo racional dos seus sentimentos. Dotado de uma sensibilidade do outro mundo, Ian sentia-se, por vezes, só e incompreendido. Refugiando-se no «seu» próprio mundo, esmiuçava desenfreadamente aquilo que era daquilo que não era enquanto ia, também, esboçando aquilo que na realidade pretendia ser. Ian Curtis foi edificando, ao longo do tempo, uma imagem modelo de si. Essa imagem seria uma espécie de visão de uma ataraxia. A genialidade do artista não se deve limitar e Ian, mais do que ninguém, sabia disso… Ian elevou o punk a um novo patamar, levando-o a deambular por novos rumos. Criou-se uma fusão crua entre o desencanto encantador polido a sépia e a celebração da rebeldia característica da música punk. Criaram-se músicas do outro mundo asfixiadas por uma tristeza devastadora. A música dos Joy Division assemelha-se a um valente soco no estômago de tão penetrante e «agressiva» que consegue ser.

A mestria de Ian era constantemente afectada por sobressaltos relacionados com a sua saúde. Esta figura icónica padecia de epilepsia vendo-se, por isso, constantemente fustigada por pequenos ataques epilépticos. Eram pequenas fracções de tempo que desencadeavam em Ian dúvidas quanto ao significado da sua verdadeira existência. Este grave problema de saúde era uma coisa que amedrontava terrificamente o cantor. Ian tinha pavor que a sua vida pudesse terminar em segundos às custas de um simples e débil problema de saúde. Aquando de um ataque epiléptico, Ian sentia que perdia o controle sobre as coisas, sentia-se numa fronteira entre a vida e a morte e, posteriormente, naqueles escassos segundos em que se estendia ao comprido no asfalto, só e com o seu corpo a tremer sem querer parar, questionava-se se valeria a pena viver, questionava-se acerca da existência de alguma coisa que jazia para além da vida, intrigava-se sobre a existência, ou não, de um prémio por ter vivido num lugar onde ninguém o compreendia, por ter vivido num lugar tão inóspito… Ian sentia-se um doente e, por diversas ocasiões, ansiou por preparar o antídoto mais eficaz contra a dor, a morte.
Em palco, Ian, era uma marioneta demente, era um homem que fervia de sentimento naqueles escassos minutos em que pisava o palco. Se existiu alguém que celebrou a música e a arte com o sentimento devido, Ian foi, certamente, esse alguém. Ian ardia enquanto cantava, dançava, em estilo único, até à exaustão e desmedia-se no que entregava de si à música. «Escrevia» incessantemente uma ode à música enquanto vivia, eram paletes de exaltação à arte. A música era como uma doença para Curtis.
A maior doença que Ian padecia era mesmo, a meu ver, a doença do amor. Dotado por uma sensibilidade extrema, Ian amava com toda a sua alma, com toda a essência da sua existência, com toda o significado do seu ser, contemplando, deste modo, um novo significado de amor. O amor é o dialecto do coração, e esse dialecto não se fala, entende-se. A linguagem do coração não se fala nem se ouve, apenas requer sensibilidade para se entender. Ian era o poeta de maior grau de uma potência chamada amor.
Com toda a sua mestria para «falar» com corações, Ian cometeu o maior «erro» da sua vida, deixando-se apaixonar, simultaneamente, por duas mulheres. Incapaz de optar por oferecer todo o seu amor exclusivamente a uma mulher, foi alimentando uma paixão com uma jornalista belga enquanto estava casado (desde muito cedo) com a sua amada Debbie. A sua vida ia ganhando contornos geométricos, uma recta que teimava em ser triângulo, uma equação impossível.
Esquivando-se da verdade, Ian manteve coberto, com um véu, o triângulo amoroso no qual estava metido. O véu soltou-se e a verdade foi descodificada por Debbie que o encurralou entre a espada e a parede, ou seja, entre a escolha dos amores da sua vida. E, repentinamente, Ian, que julgava ver as coisas de uma maneira clara e concisa, deparou-se com um cenário em que as coisas se iam despedaçando, uma a uma, milímetro a milímetro, tudo em frente a si, tudo em frente aos seus olhos. A sua vida ia-se desmoronando, assim, num ápice. Batalhando incessantemente entre a sua verdade e a verdade destorcida, vista pelos olhos dos outros, que não tinham a sua sensibilidade e não sabia distinguir uma da outra, Ian acabou por ceder.
Consciente do que o que é eterno, é recto, e de que a morte é o apagar de uma lâmpada, mas não o apagar do Sol, Ian terminava, assim, com uma vida que mereceu ser vivida. Evocando Platão, uma vida questionada não merece ser vivida e Ian despedaçou-se em questões que nos invadem, ainda hoje, uma a uma, a nossa cabeça.
Uma corda estendida verticalmente acabou por colocar um fim à vida daquele que é considerado um dos maiores génios britânicos de que há memória. Ian suicidou-se aos 23 anos, era um jovem, um jovem adulto. Ian acabou por morrer asfixiado nas imagens que o percorriam na mente, imagens, essas, fruto da sua própria criação. O refúgio evocado pelo seu raciocínio acabou por ditar sentença àquele cantor, poeta e filósofo que se esmiuçava desmedidamente na crença de descobrir a essência do seu verdadeiro «eu». Ian isolou-se do mundo exterior e isso acabou-se por revelar uma irreversibilidade. A imagem de si que ia esboçando, sem parar, no seu refúgio, diferia totalmente daquele que era na vida real e Ian entediava-se excessivamente com isso. Inconformado, estagnou-se.
Ian Curtis morreu, essencialmente, asfixiado pela dor de saber amar em demasia. E o seu legado asfixia-nos, ainda hoje, de tão rico que é.
Assim como o rio que corre e o homem nasce e morre, o génio fica para a eternidade.

3 comentários:

  1. Continuo a achar particularmente interessante que percorras literariamente o que está dentro de ti que te faz admirar alguém. E que partilhes connosco a forma como essas pessoas dialogam contigo.

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  2. Brilhante! Partilho essa admiração por IC e já tive oportunidade de lhe dedicar algo que publiquei. Não estou certo que IC amasse em demasia, provavelmente, ele, tal como FP, p.e., queria desesperadamente conhecer intimamente o amor e entregar-se a cada momento como se fosse o último/único. Recorrendo às suas próprias palavras, como eu gostaria que estivesses aqui comigo, agora. Parte em silêncio, não partas, em silêncio. Não partiste... mas optaste por um rumo diferente... Oxalá estivesses aqui connosco, agora. Até sempre!

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  3. Sandra: Fica aqui, desde já, o meu apreço para as suas palavras.

    AO: Curiosamente também tenho patenteado na figura de IC pequenos traços de Fernando Pessoa. Em parte, vejo um IC com uma filosofia similar à de Alberto Caeiro, heterónimo de FP. Quando falo das «sensações» como fonte de alimento para IC, pensei mesmo em divagar em torno disso. Partilho inteiramente dessa opinião [principalmente quando remata com as retóricas de Pessoas pelas suas próprias palavras] e agradeço, profundamente, o elogio quanto ao texto.

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