"Nunca estive naquele páteo. Só sei que olhando a bola a saltitar de lá para acolá, resvalando nas paredes porosas; escutando os gritinhos mecanicos e treinados das raparigas e relembrando os meus próprios pés diagonais e disformes, o sistema solar parece acabar na curva ao fundo da rua. Parece que consigo ver-me encolhido contra aquela parede ao fundo, a tentar manter-me como uma mínima camada concava da mesma. E a ser atingido em cheio pelos estilhaços de uma explosão de leite com chocolate, logo a seguir. Os olhos no chão asfaltado e o caminho triste até ao escuro e longo tunel que ladeia o ginásio da escola, mordendo o lábio quase carnívoramente.

Que longo, longo túnel, em que vejo a luz ao fundo, mas que não mais parece acabar...

Mas não, nunca estive ali."

Comentários

  1. Diz lá Vulto... Poupas nas palavras para esbanjar em significados. Divides toda essa intensidade por esses poucos vocábulos. E é por isso que os teus pequenos textos são tão poderosos ....

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  2. Li e acabei de ser transferida para o teu cenário... como se todos os acontecimentos fossem memórias. Um dia descrito em segundos, mas com muita essência... "essência O_vulto"

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  3. Acabei de ler isto e dei por mim a sorrir. Tu até sabes porquê. :)
    Subscrevo o comentário da Sandra: os teus pequenos textos são sempre intensos e poderosos e com a precisão de um missil.
    Somos mesmo uma curiosa antítese... mas no código genético, são as mesmas memórias, imagens e lugares que nos dão formigueiro nos dedos. :)
    Adorei.

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  4. Muita simpatia vossa. Sou preguiçoso em tudo, se calhar também a escrever :D . Também por defeito profissional, apesar de não estar directamente ligado à escrita, o "menos" é quase sempre mais, desde que o "recheio" tenha tudo.

    "Sis" , se alguém descodifica este texto com facilidade, só podes ser tu. "Curiosa antítese" é mesmo a expressão certa. ;)

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  5. Gosto muito das tuas palavras (sempre). Sinto quase sempre (neste também) que há mais frases entre as tuas (frases não escritas, subtexto) e procuro-as. Dizes muito no que escreves, mas não consigo evitar ficar ansioso para o "e depois?" (se contasses esta "estória" verbalmente não fugias à pergunta).

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  6. muito bonito e deixou-me com um sorriso...

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  7. ...pois parece que eu estive nesse pátio...

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