sexta-feira, 20 de maio de 2011



"Nunca estive naquele páteo. Só sei que olhando a bola a saltitar de lá para acolá, resvalando nas paredes porosas; escutando os gritinhos mecanicos e treinados das raparigas e relembrando os meus próprios pés diagonais e disformes, o sistema solar parece acabar na curva ao fundo da rua. Parece que consigo ver-me encolhido contra aquela parede ao fundo, a tentar manter-me como uma mínima camada concava da mesma. E a ser atingido em cheio pelos estilhaços de uma explosão de leite com chocolate, logo a seguir. Os olhos no chão asfaltado e o caminho triste até ao escuro e longo tunel que ladeia o ginásio da escola, mordendo o lábio quase carnívoramente.

Que longo, longo túnel, em que vejo a luz ao fundo, mas que não mais parece acabar...

Mas não, nunca estive ali."

7 comentários:

  1. Diz lá Vulto... Poupas nas palavras para esbanjar em significados. Divides toda essa intensidade por esses poucos vocábulos. E é por isso que os teus pequenos textos são tão poderosos ....

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  2. Li e acabei de ser transferida para o teu cenário... como se todos os acontecimentos fossem memórias. Um dia descrito em segundos, mas com muita essência... "essência O_vulto"

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  3. Acabei de ler isto e dei por mim a sorrir. Tu até sabes porquê. :)
    Subscrevo o comentário da Sandra: os teus pequenos textos são sempre intensos e poderosos e com a precisão de um missil.
    Somos mesmo uma curiosa antítese... mas no código genético, são as mesmas memórias, imagens e lugares que nos dão formigueiro nos dedos. :)
    Adorei.

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  4. Muita simpatia vossa. Sou preguiçoso em tudo, se calhar também a escrever :D . Também por defeito profissional, apesar de não estar directamente ligado à escrita, o "menos" é quase sempre mais, desde que o "recheio" tenha tudo.

    "Sis" , se alguém descodifica este texto com facilidade, só podes ser tu. "Curiosa antítese" é mesmo a expressão certa. ;)

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  5. Gosto muito das tuas palavras (sempre). Sinto quase sempre (neste também) que há mais frases entre as tuas (frases não escritas, subtexto) e procuro-as. Dizes muito no que escreves, mas não consigo evitar ficar ansioso para o "e depois?" (se contasses esta "estória" verbalmente não fugias à pergunta).

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  6. muito bonito e deixou-me com um sorriso...

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  7. ...pois parece que eu estive nesse pátio...

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