O Poder de Acreditar - Acto II



Acredito em mim
(mentiras sem fim)

Uma bela manhã de Sol banha-me a face
(odeio a luz, doem-me os olhos)

os pássaros chilreiam ao chapinhar no fontanário
(criaturas malditas, racham-me os tímpanos com tanto alarido)


as flores desabrocham e presenteiam toda a gente com mil aromas e um festival de cor
(venha a seca, a geada, o ardiloso inverno, e leve estes abortos da natureza para longe de mim)


Sinto a relva com os meus pés descalços
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)


e alegro-me com o toque molhado dos restos do orvalho
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)


e deixo que a brisa me acaricie a face
(...nada...)


vejo as crianças que jogam à apanhada
(rio-me dos seus corpos frágeis, ...tão frágeis...)

os cães que deliciam os seus donos com joviais brincadeiras e corridinhas
(obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedeceaodono obedec...)

os jovens casais, trocam beijos e carícias, envergonhados ou sorrindo maliciosamente
(fornicai como porcos que sois, procriai e enchei o palco com as vossas larvas)

vejo meninas que volteiam nas suas bicicletas, cheias de fitas que ondulam ao vento
(todas as mulheres são patéticas, ridículas, execráveis e umas grandes cabras)

enquanto os garotos se entretem a jogar à bola
(nunca me convidaram, nunca me deixaram jogar, nunca me deixaram sequer aproximar...)


conheci outros como eles, à tantos anos atrás, lá no antigo bairro
(um dia verei também os vossos cadáveres)

como eles, miudos e miudas, andavamos todos no primeiro ano de escola
(anormal, atrasado, monga, monstro, anormal, aborto, anormal, ...)

enquanto durante a hora de lição a professora nos ensinava a dança das palavras e o ritmo dos números
(D. Isaura, tenho medo do anormal! D. Isaura, ele cheira mal e é feio! D. Isaura, não quero ficar ao lado do monga...)

ficava para a mágica altura do recreio a troca de brinquedos, toques e afectos, coisas simples entre as crianças
(não mexas ai não fales comigo não me toques sai daqui isso não é teu apanhas nos cornos se não desapareces!!!)


agora me lembro, das horas felizes
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)

agora me lembro de como era o grupo
(não sou gente, não sou ninguém, não sou nada)


e de tudo quanto vivi com eles
(...nada...)

e deixo as memórias vogarem como barcos ao vento
(leva a mão ao bolso, obedeceaodono)

enquanto o conforto das recordações me afaga a alma
(já, faz o que te digo anormal!!)

entrelaço a melancolia de viver com a esperança de um novo dia
(já a sentes, na tua mão?)

e deixo que o beijo quente do Sol me conforte
(ouviste o click? Está engatilhada...)

Comentários

  1. Cruel, caustico como ácido, duro, nó no estômago e na garganta, bipolar, ferida aberta, e contagiante até à ultima letra. Um daqueles textos com a tua marca de água. Parabéns, adorei.

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  2. Adoro a construção deste texto, simples, sem género definido.
    (Raios, isto está genial... Como é que nunca me lembrei de escrever algo assim)

    Gosto dos temas, tão presentes na tua escrita, e da forma como fluem ao longo do texto (a máscara social, a insanidade, o momento da perda de controlo, a morte...)
    (Quem está a sentir maus fluidos sou eu.. a inveja, a cobiça..)

    Excelente!
    (Este texto tem de ser meu, meu, MEU) ;)

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  3. Profunda explanação da vida. O bem e o mal.
    Espelho de cristal mais puro. Um lado indissociável do outro.
    3 em 1. Junto, o de cá e o de lá.
    Imaginação e criatividade deslumbrante.

    Ão, Ão, Ão, Ão, Ão, Ão, Ão, ...

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  4. Música para os meus sentidos!
    GENIAL!

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  5. Enfim... são golpes fundos, arrancados de alguém, num ritmo de máquina de costura. Um ponto por cada parágrafo... não cortes a linha... continua sempre - - - - - - - »

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  6. ...quando um sorriso esconde a vontade de degolar...

    caminham entre nós alguns dr. jekyll e mr. hyde de mãos dadas (por vezes, o que está entre parêntesis deixa de estar).

    gostei muito.

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  7. O direito e o avesso...de nós, numa forma nua, crua...bela.

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