domingo, 7 de novembro de 2010
Redenção (Acto I de III)
Com um gesto lento e tão longo como tinha sido o seu dia, eleva a sua mão direita em direcção ao rosto cansado. Ela é tão bela como sempre fora, pele suave e delicada, morena e cremosa como o leite com um ligeiro toque de café. Olhos grandes, amendoados, castanhos cor de mel, pestanas encurtadas pelos pesados óculos que tem que usar no seu dia-a-dia. A mão agora desliza para trás, dedos abertos para desembaraçar o cabelo escuro e levemente encaracolado. Daqui não o sinto, mas aposto que os seus cabelos têm aroma a frutos silvestres com um travo doce a baunilha. Conheço esse aroma de cor. Era o que eu sentia quando era a minha mão que desenleava o seu cabelo sombrio e sedoso.
Com um gesto lento e tão longo como tinha sido o seu dia, baixa a sua mão direita em direcção ao toucador e abre uma pequena gaveta ornada com um puxador de marfim. Retira os pesados óculos e pousa-os sobre o toucador. Olha-se ao espelho e demora, demora um tempo infinito a se reencontrar. Mas o espelho está vazio. Ela está a olhar para si própria, mas sente-se nada, vazia, a flutuar em perpétua desolação. A mão procura algo, primeiro devagar, busca com firmeza e estanca de súbito. Encontrou o que procurava.
São 22h21.Estamos a 16 de Junho, dia do seu décimo sexto aniversário, e ela está só, no seu quarto, que a acolhe desde que saiu do berço que ainda hoje está guardado no quarto dos pais. Ela está sozinha. Não deveria estar. Ninguém deveria ficar abandonado a si mesmo, especialmente neste dia. Hoje a palavra é fria. Cortante. As palavras foram cruéis, insensatas, duras, más. Maldade, pura maldade. Porque tanta crueldade? Afinal o que é isso do ‘amor’? Não era suposto ser respeito, carinho, afecto, ternura, compreensão… ? Porque é que ela foi magoada de forma tão violenta. Nem uma nódoa negra ou escoriação no seu corpo de pele morena e macia. Mas a sua alma sangrava, deitada no chão, chorava, deitada na lama que cobria o chão, soluçava, com a cara enlameada.
São 22h46. Ela está só no seu quarto. Não deveria ser assim, não hoje, não neste dia. Ela sente-se morta por dentro. Mas ainda respirava, pois quando encostou a cara redonda, nariz pequeno e faces pálidas, quando encostou a boca ao espelho este embaciou com o seu suspiro. A mão esquerda também se juntou ao encontro e veio aninhar-se junto dos cabelos pendentes, encostados ao espelho que agora tinha uma mancha que se distendia e encolhia com o ritmo profundo dos seus suspiros. Porque ela suspira, ela sabe. Sempre suspirou por ele. Suspirava que ele notasse que ela o olhava. Que fingisse que não o via quando ele passava e lhe lançava um sorriso de menino travesso. Que ele soubesse que quando ela elogiava aquele jogador de futebol que era alto e loiro e de olho azul, estava a pensar nele, um miúdo meio freak, com roupas de bandas estranhas que mais ninguém conhecia, moreno como ela, cabelo negro e meio despenteado, sorriso torto e de olhos castanhos profundos. Como a admiração que ela tinha por ele, profunda como o mar. Onde ela se afogava cada vez que ele lhe tocava.
São 23h19. Ela está só no seu quarto. Não deveria ser assim, não hoje, não no dia em que ele foi cruel ao ponto de lhe dizer que não a amava, que não amava ninguém, que nunca amaria ninguém, que estava apaixonado por algo, mas que não era por ela. Estava apaixonado pela ideia romântica de si mesmo, que era uma alma só, que deveria estar só. Mas era mentira, ela não acreditou nele. Ela amava-o com toda a força com que os seus braços o conseguiam abraçar, ela amava-o. Com todo o carinho com que o ouvia falar de bandas estranhas que mais ninguém conhecia. Os dois, morenos e apaixonados, abraçados em beijos infantis, em beijos doces e suaves, como a pele dela. Ela amava-o quando lhe perguntava se ele gostava da sua roupa nova e ele dizia que ela ficava quase tão gira como a sua actriz favorita. Quase. Nada mau, supunha. Mas chegaria. O quase? Quase que gostava dela? Quase que a amava? Quase que lhe oferecia o seu coração. Mas nunca o fez. E hoje deitou fora o dela e fê-la sangrar. Não por fora, não havia uma única nódoa negra ou escoriação. Mas a alma dela sangrava. Abundantemente. E o sangue escorria, por entre a lama.
São 23h41. A mão procura algo. E encontra. Ontem a gaveta estava vazia, tinha apenas uma fita de cabelo antiga, que ela usava quando tinha sete, oito anos. Era azul, quase violeta. Aconchegava-lhe os cabelos, pois quando ela era menina os caracóis eram maiores, mais rebeldes, mais soltos, mais vivos e brilhantes. Hoje são frágeis, pequenos, débeis, submissos, enfraquecidos e mortiços. Tal como o seu olhar. A fita já não estava na gaveta. Ela deitou-a fora, junto com os sonhos que tinha construído. Com sete, oito aninhos, o mundo era um enorme parque de diversões aberto e divertido. O parque fechou, o carrossel já não gira e gira, já não cheira a algodão doce e em vez das músicas alegres do realejo só lhe soam os sons agrestes e violentos que algumas das bandas mais estranhas que ele lhe dera a conhecer. A fita está no lixo mas a gaveta não está vazia. Tem lá dentro um frasco. A sua mãe dará por falta dele, mas mais tarde, quando terminarem as novelas e ela for para a cama. Afinal, comprimidos para dormir não são boa companhia para a sua mãe ver novelas. Nem para ela. Muito menos hoje, dia do seu décimo sexto aniversário. Dia em que se sentia morta por dentro. Abandonada à sua sorte. Profundamente triste. A vogar em perpétua desolação.
São 23h58. Faltam dois minutos para terminar o dia do seu décimo sexto aniversário. Ela olha no espelho e diz:
‘Por favor, pára! Não escrevas mais, pára antes que seja demasiado tarde outra vez!’
São 23:59h. Dia 16 de Junho, dezoito anos depois. O tempo parou. Vejo o cursor a piscar mas não percebo o que se passou.
Não fui eu que escrevi o parágrafo anterior…
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Intensamente
O banco de jardim está só para ela, como o Verão está para um dia de praia. Senta-se à sombra do salgueiro, onde tantas vezes sonhou, confidenciou, namorou...
Passam vinte e cinco anos e reconhece os aromas, as cores, as sombras mais intensas pela densidade das folhas.
Descalça um pé, depois o outro, sente-se menina endiabrada, abraça as pernas recolhidas para cima do banco e pousa a cara nos joelhos. Atitude infantil, quase provocadora numa idade para ter juízo. Os colegas metem-se com ela. Acham-na demasiado calada, a ela que alcunhavam de tagarela. Por outro lado, sempre teve destes momentos: pensativa ou inspirada, costumavam perguntar.
Nota-se o silêncio quebrado pelo chilreio dos pássaros. Esvoaçam borboletas. 40 graus. Centígrados.
Solta-se um perfume quente do corpo quieto.
Embala-se nas memórias e sonha com os desejos que pretende realizar. Deixou o caderno em casa. Está ali para estudar a sério. Nada de melancolias. Nem de libertação em palavras.
Transpira ternura, apesar duma aragem que se levantou. Fresca e repentina. A ternura.
A aragem passa, breve e com o sorriso que a caracteriza, resolve viver.
Intensamente.
Com as mãos dentro do peito, num arremesso de vida.
(Mesmo que por vezes a dor se instale e a deixe extenuada).
domingo, 31 de outubro de 2010
Felizes na Terra
Na natureza, nada se perde, verdade?
Tudo se transforma... Inclusive, as pessoas.
Então, essa é a esperança da Companhia do Amor.
Que torce para que os tolos se transformem em sábios.
E que as trevas de muitos se transformem em poemas luminosos.
E que a mão que hoje bate, passe a curar...
E que o Amor se faça em todos os corações.
Porque tem alguém que nos ama, muito mais do que imaginamos.
E Ele ri junto connosco... E sabe tudo o que somos e pensamos.
Sim, está, sempre presente...
E é por Ele que escrevemos sobre as coisas do coração.
E também sobre a imortalidade da consciência.
E vamos continuar... Bem do nosso jeito, com toques de primeira.
Porque ele pediu para nos descer mos a lenha na morte.
E, como tudo se transforma, vamos transformar o luto em luz.
E que assim seja! Pela Vida. Pelo Amor. Pela Alegria.
E por ele. Porque Ele é alguém que nos ama!
É... Tudo se transforma, inclusive nos.
Mestre?
E quem não é mestre de si mesmo, também não será dos outros.
Porque quem não faz o que fala, não está com nada
Mas, quem ri do próprio ridículo, já começou seu mestrado...
Hoje és minha (um 'miminho de Halloween')
Podes aninhar-te no sofá e esperar
Podes beber um chá quente e suspirar
Mas nada te irá salvar
Nada me poderá parar
Porque hoje és minha
E se conseguires fechar os olhos
Suspender a respiração por um segundo
Tentar desaparecer dentro do teu mundo
Não vai resultar
Não poderás escapar
Porque hoje és minha
Então, concentra-te
Prepara-te
E deixa fluir
Não tens que fugir
Não tens porque resistir
Porque hoje és minha
E se um sorriso te escapar
E entre tremores te sentires
A desfazer como neve
E num momento tão breve
Aceitares
Redescobrires
Aquilo que sempre soubeste
Dentro de ti
Aceitarás o que temos
Saberás como só nós sabemos
Porque hoje és minha
Entre a dor e o prazer
Saberás escolher
Com autoridade
Dominar
A energia que entre nós flui
Quando no espelho me reconheceres
No brilho do teu olhar
Eu, o teu par
Dentro de ti, eternamente
Almas gémeas inseparáveis
Voltarás para o teu quarto
De novo juntos na tua cama
Amantes em dual possessão
Duas almas num só corpo de deleite
Porque esta noite
Como em todas as outras
Tu és minha
Para todo o sempre…
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Dia Mundial da Criança (que há em nós)
Levantou-se cedo apesar do cansaço.
Há que ignorar forças que nos tolhem os movimentos e pensar que é a preguiça.
Hoje , neste dia especial em que recebia mimos dos pais, independentemente da idade, resolveu partir numa viagem pela cidade, até à sua infância.
Trajecto longo. Mas a vontade de ficar no conforto dum espaço onde foi tão feliz, era mais forte que tudo.
Vestiu branco e preto, uma túnica marroquina e calças de linho. Sentiu-se bem a recuar no tempo.
Em que as maçãs eram o doce da ternura e as cerejas colhidas das árvores.
Em tons de rubor de pureza anunciada.
São Paulo. A Igreja onde fez a primeira comunhão. A porta do prédio onde cresceu.
O Elevador da Bica estava quase a partir, esperou por ela (sempre às voltas com a mala a abarrotar de inutilidades).
A emoção de tantas viagens. Os mesmos lugares sentados e em pé. A mesma velocidade .
O regresso ao passado.
A chegada do fim da viagem. Virar à esquerda de encontro ao Jardim do Alto de Santa Catarina. Agora com esplanada. Magnífica. Quantas tostas mistas...
Prefere encostar-se ao gradeamento (onde tantas vezes tentou passar o corpo para o lado de lá) e olha o Tejo.
Quantas imagens ternas avista sobre os telhados da cidade.
Tantas andanças de triciclo, saltar à corda, jogar ao ringue.
Ecoam sons de gargalhadas, fresca, infantis, sem receio de serem escutadas.
Ouve-se a si própria a rir do joelho esfolado, quando rebolava na relva.
Nessa altura, o Adamastor era monstruosamente enorme e causava-lhe pesadelos.
A esplanada enche-se de jovens. Alguns idosos no bancos à sombra, no passeio.
Leva o livro de memórias, mas não consegue escrever.
Deslizam as lágrimas por juras de amor eterno. Naquele jardim.
Deslizam lágrimas de felicidade pelo que teve. E de tristeza do que não terá, apesar das promessas.
Sacode os pensamentos que se soltam nas lágrimas que os óculos escuros protegem de outros olhares.
O som da natureza impregna-se na alma remendada.
O corpo está firme. Antes tivesse o corpo retalhado e a alma inteira.
Mas há dias assim: em que a saudade bate e o dia ferve.
Demora o sentir naquele espaço, que sabe poder visitar quando lhe apetece.
Mas não é a mesma coisa sozinha. Tem vontade de visitar a creche-escola primária, mas não tem coragem. Tinha a promessa que a acompanhariam...
Escuta musica sem ouvir rádio.
Começa a descida pela Calçada que vai dar ao outro jardim da sua infância.
Passei-se com alguma rapidez. Muitas saudades para uma manhã.
Tem que regressar a casa. E libertar-se em palavras.
Apanha o eléctrico.
Não tirou fotografias.
Há momentos que se guardam com o coração; e para não doerem, não devem ser recordados com o olhar.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Estrela...Estrelinha...
Estrela, Estrelinha...
Que desceu na terra
Para cantar a Luz.
Estrela, Estrelinha...
Que voltou para casa, lá em cima,
Porque não era do mundo, era luz.
E, hoje,acordei lembrei-me de uma canção.
Uma das tuas...
E senti uma saudade doce, como um rio dentro de mim.
Sim, uma saudade com sabor de estrela.
E a visão de alguém cantando e dançando no Céu.
Uma saudade, Estrelinha.
E não questiono o que senti, porque sempre escuto o meu coração.
Assim como tu fazias .
E, hoje, além do meu pai, eu também me encanto com o teu canto.
Estrela, Estrelinha...
Algum Poder Maior me despertou no meio da madrugada.
Para escrever algo sobre ti - e alegrar o meu pai.
Daqui a pouco irá amanhecer...
E eu fico aqui pensando nos desígnios celestes.
E no quanto todos nós somos guiados invisivelmente.
Como pode um pequeno coração aguentar um Grande Amor?
Talvez, cantando e dançando. Ou, escrevendo e deixando ir...
E, assim, partilhando linhas secretas e invisíveis.
Quanto mais eu vejo o infinito, menor eu me sinto.
E, diante de tal grandeza, eu me encanto, agradeço, e oro.
E, enquanto a Estrelinha canta e dança no Céu, eu escrevo, aqui em baixo.
Porque, no Céu ou na Terra, é só o Amor que nos leva...
terça-feira, 26 de outubro de 2010
24, horas.
Por mais que tudo pareça igual,
Por mais que reconheça,
Apetecia-me voltar ao desconhecido.
Depois de ver o jardim,
De ver as horas a serem contadas nas folhas
Que movem-se em câmara lenta.
Depois de o chocolate derreter,
E ver uma colher a ir ao seu encontro,
“Queres um bocadinho?”
“Não, come tu.”
Apetecia-me mesmo voltar.
Irrita-me o facto de não conseguir voltar,
A chávena de café, o açúcar, o mexer…
As imagens dos grãos de café a serem triturados,
A serem colhidos,
A serem plantados,
A serem pó.
O livro na estante.
As folhas outra vez em câmara lenta,
E as letras a derreterem,
“Queres ler?”
“Não, lê tu.”
O som da madeira, o cheiro.
O risco do compasso.
O corte do formão.
O entalhar.
O relevo.
A mensagem.
A chuva que tem acidentes contra o vidro,
Que chora por isso, porque doeu, porque dói sempre.
O sol que teima em vir atrás e secar sem piedade a chuva.
Mas a marca da chuva é sempre mais teimosa,
“Já limpaste as janelas?”
“Não, limpa tu.”
O rodar perfeito da chave,
O conhecer de cor a fechadura,
Mas mesmo assim,
Sentir um arrepio de cada vez que a porta se abre,
Cada vez que os pés descalços pisam o tapete,
As cócegas,
O interruptor, a luz, o clique,
O sorriso, são horas de dormir,
Cheira a sonhos.
“Podes apagar a luz?”
“Não, apaga tu.”
O céu que embala,
As nuvens que desaparecem,
As estrelas que iniciam o turno,
O som das palavras,
Do silêncio que fica entre elas,
Do respirar que fica entre o silêncio,
Do pestanejar que fica ente o respirar,
Dos pensamentos que ficam entre o pestanejar,
Do sentir que fica entre os pensamentos,
Do doce que fica entre o sentir.
"Não dormes?"
"Não, dorme tu."
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
O Regresso dos Heróis: Memórias de Batalhas Esquecidas, em 4 Actos
Enquanto as maças adoçam ao sol do fim do Verão
Os sorrisos das crianças elevam-se por entre nuvens e brisas frescas
O cheiro a terra lavrada enche-nos de esperança e conforto
Algures, para além dos limites da nossa existência, existe algo maior
E lá, não haverá morte
Tu e eu poderemos deambular pelo parque da cidade
Longe do terror dos céus de metal
Para lá do alcance dos gritos de desespero
Para lá das balas, da lama das trincheiras, do meu sangue nas tuas mãos
Para lá do desespero de sobreviver, que nos corrói e mata em vida
Para além do olhar de quem assiste ao nosso último momento
Envolto no riso imortal das crianças que nos rodeiam, felizes
Longe dessa amargura que te irá matar,
Longe do campo de batalha, onde me sobreviveste
Perto do sonho
Eu e tu, meu irmão, todos nós
Seremos um só
Quando a chuva me escorrer pela face e cair a meus pés
Quando o som das minhas palavras for como a seda dos teus beijos
Quando o dia nascer, finalmente limpo e luminoso
Eu serei como me desejaste, minha querida
O prometido
O dono do teu primeiro beijo
O amante que te cobre os pés de flores silvestres
O marido dedicado que te seca as lágrimas
Quando eu redescobrir o que é sonhar
Irei renascer, a teu lado
Permanecer
Envelhecer
E, feliz no embalo dos teus braços,
Morrer
E o sabor das maças será mais doce
E as nuvens mais altas, inalcançáveis
A terra transbordará de vida novamente
Como no mundo imemorial das histórias do meu avô
O espírito dos homens voltará a ser uno com a da Natureza
E seremos filhos de algo maior
E não mais, nunca mais
Deixaremos que esta batalha nos ensombre em esquecimento
Mas o barco partiu e voga por entre a tristeza e a despedida
Eu ficarei, entre ciprestes, de mão dada com os meus irmãos de armas
Certos de que cumprida foi nossa missão
E em profunda exultação, ascenderemos ao Paraíso
Longe deste marisma de morte e horror
Para lá do inferno dos homens, regressaremos
Unidos, como verdadeiros irmãos de sangue
Abandonaremos os corpos destroçados que nos prendem
E assim partiremos, sem dor
Sem temor
Regressaremos ao berço da eternidade
Como heróis
E num último fôlego
Gritaremos
Glória!
Glória!
E eternamente nosso será o reino dos Céus
Lusco-fusco
Esperava-a não muito perto, onde, no meio da multidão que sai dos empregos na pressa de chegar a casa, seriam mais um casal. A passar despercebidos. Em pecado. Desfrutado. Revivido. Intenso.
Mas sempre como se fosse a primeira vez.
Ele está no "café deles", jornal e bica na mesa.
Observa-o sempre através do vidro, antes de que ele a veja. Ou pensa que assim é...
E entra encantada, numa paixão adolescente, a diferença de idades não se sente. Somente na sensatez dele e na impulsividade dela. Quase feroz, arrebatadora.
Ergue o olhar, surpreso por ela já estar junto de si, tão absorvido que estava pela leitura . Porque por vezes, levanta-se e vem buscá-la à porta.
E ela sente-se a mulher mais amada do mundo, por a proteger assim.
Ele sorri e o mundo dela centra-se nele, naquele sorriso infinito que morrerá com ela.
Olham-se e o Mundo pára, avança, rodopia, muda. E no entanto, está tudo no seu lugar. Ele à frente dela à espera que lhe conte o dia, o que a deixa sem palavras porque estiveram sempre em contacto. Ela à espera que ele diga como foi o dele, que apesar do contacto e da faladora ser ela, tem sempre algo a acrescentar.
Entretanto o silêncio toma conta do momento, porque a olha, ela cora, adivinhando-lhe os pensamentos. Desejos escaldantes...
E ficam assim, sem falar, mão na mão sob a folha de jornal, numa contemplação mutua, embevecida e terna.
Mergulham os olhares e ela desperta com o gesto dele em dizer-lhe que são horas de ir, porque o semblante dele muda e ela percebe.
Ela tem o comboio para apanhar e ele o ensaio.
Caminham lado a lado, abraçados, passo acertado. Os coração batem, em uníssono no sentido dos ponteiros do relógio da Estação de Comboios.
Encosta-a suavemente contra o muro, afasta-lhe o cabelo dos olhos, sorri e beija-a num tocar de lábios indescritível, depressa uma boca na outra, as suas mãos nela... Estão em publico. Mas é lusco fusco.
Desprendem-se a custo, ele pergunta se ela quer levar o jornal.
Não.
Até casa, prefere ir pensando-o, sonhando com amanhã, em que a rotina não cansa. Só quer que ele não chegue atrasado ao ensaio...
Enquanto sobe as escadas, chega uma mensagem dele:"Adoro-te".
Ela também. E é assim , para sempre.
(Desde o tempo em que um guarda-chuva servia para abrigar os dois).
sábado, 23 de outubro de 2010
O Regresso dos Heróis: Memórias de Batalhas Esquecidas, em 4 Actos
O dia ainda se espreguiçava no horizonte gelado, as ervas vergadas sob o peso da orvalhada serviam de testemunha à noite fria dos dias antes da lua nova. Estava na altura de partir em missão.
Os dois batedores avançavam por entre o matagal espinhoso, em busca dos ambicionados troféus, a prova de que são guerreiros de valor, os mais bravos entre seus pares. À medida que se embrenham entre a vegetação cada vez mais densa e o Sol aquece sob os seus ombros sabem que é hora de entrar na floresta escura, onde existem menos probabilidades de serem vistos pelo homem-branco. Esta vil e traiçoeira criatura, tão parecida com os seus irmãos de tribo e, no entanto, tão diferente. Ele não é como o Lobo que caça para a sua tribo quando precisa, ou como a cobra que se defende com presas venenosas quando acossada. Ele é mais como a chuva violenta do princípio da Primavera. Se a aldeia estiver no seu caminho quando esta surge a correr pelos desfiladeiros é engolida sem piedade, para nada mais restar, pessoa, casa ou memória.
Ouve-se um ronco baixo e profundo para além das árvores. Estamos no território do puma, o feroz leão-da-montanha… Aqui não é terra para principiantes, olhos, nariz e ouvidos não chegam para sobreviver, as mãos não são tão lestas a disparar a flecha e os pés trocam os passos por entre a folhada e os rochedos que afloram escondidos entre as moitas floridas e prenhes de néctar. Esta é a vida do batedor, a vida na fronteira e para além dela, da fronteira da terra, da fronteira do medo e da alma. Para lá da encosta há terra nova, quem sabe boa para milho e inhame, com água fresca a correr, boa para caça pequena que encha o pote ou até uma via de passagem das grandes manadas de bisontes. Mas para já, tem que lidar com o ronco, o medo e a expectativa…
O prémio para quem levar a pele da besta é a pena maior da ponta das asas da águia, um símbolo de virilidade e estatuto que qualquer homem deseja. Assim, os dois batedores desenham o plano e decidem agir. Agora, não haverá lugar para passos em falso, para pingos de suor que sublinhe o odor dos dois homens. Concentração máxima. Atenção aos detalhes. Rigor, disciplina e coração a bater como um tambor de guerra. O mais experiente retesa o arco e aponta a flecha para a orla da floresta. O ajudante rasteja em total silêncio em torno da fraga onde o portentoso animal descansa, a fim de o surpreender e assim assustar o senhor da montanha.
O momento adensa-se e o tempo pára. Num segundo serão heróis ou presas… Falta só mais um esforço… um metro para rastejar e um tiro certeiro… 3… 2… 1…
(…)
Nessa noite, dois irmãos de 8 e 6 anos regressam a casa, de sorriso largo e expressão de quem venceu a maior batalha da sua vida. Como heróis, entram em casa e beijam o avô, um antigo chefe Pikuni, conhecidos pelo homem-branco como tribo dos Pés-Negros. Inspirados pelas histórias de batidas e caçadas dos idos tempos de glória, as crianças contam como foi hoje caçar o grande puma, enquanto erguem em mãos o seu gatinho de estimação, que hoje foi a estrela no filme que decorreu ali mesmo atrás, a poucos metros do seu quintal. Juntos riem-se felizes e pedem ao avô para contar mais memórias de um mundo entretanto extinto…
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
À sombra do loendro
Caminha lado a lado do homem de sorriso aberto.
Aos poucos vai ficando para trás, a cadela exige atenção, o caminho é pedregoso, sinuoso, íngreme.
O mundo rural em toda a sua beleza numa força da natureza.
O rio cada vez com menos caudal, as macieiras com frutos caídos, oliveiras semi-abandonadas...
Sementeiras recentes em nuvens de pó. Vegetação viçosa, ainda verde, não ardida.
Os odores acompanham os passos. São perto das seis da tarde e o suor anuncia-se na testa, ensombrada pelo chapéu de palha. De fita azul.
Pernas firmes , morenas, macias , apesar das silvas que atravessam. Calções e t'shirt.
Na mão um pau que já foi ramo de árvore. Como apoio. Como apontador da direcção. Embora siga o homem.
E a cadela que pára até que ela se aproxime. E salta e brinca. Cachorra.
O homem conversa, ri, tenta recuperá-la dum mutismo inapropriado e irreconhecível.
Tenta recuperá-la, na força das palavras, no interesse dos assuntos, no humor e boa disposição que a caracteriza(va).
O homem tenta tudo: um beijo mais fogoso, um abraço terno, uma implicância infantil.
Ela sorri só com os lábios. Não quer que o homem entristeça pelo esforço inútil.
Ela não é a mesma. Mudou.
O caminho agora é a descer. Continua ágil apesar da idade. E do peso.
O que carrega no corpo e na alma.
Descalça-se, enquanto a cadela insiste em ir buscar o pau atirado e chapinha no rio. O homem solta risadas altas e cristalinas, como a água que corre, mesmo que pouca.
Ela senta-se num muro de pedra.
O homem chama-a. Ao mesmo tempo um chilreio, uma brisa suave, um fustigar de ramos e folhas. O sol por entre a folhagem, direito ao olhar infinito.
Reclamam-na.
Finge que não ouve.
Distancia-se, eleva-se. Sonha.
Ausenta-se para um tempo em que o amor é sentir o coração saltar do peito, num galope selvagem. E onde ela deixa que a paixão tome conta da razão e...
...Soergue o corpo.
E deixa alma à sombra do loendro, já sem flor, que só ela sabe existir. Ali.
Compõe o sorriso esperado e regressa à cidade, onde esconde os segredos para que não saibam que está sem alma.
(Publicada por O outro lado do espelho em 1 de Setembro de 2009)
Sobre o óbvio
Acordo, mas não desperto. As pálpebras pesam toneladas e o corpo está crucificado à cama. Levanto-me, mas não me ergo. Ergo-me, vou até à ...
-
É onde a cabeça de uma sweet little sixteen cai, frequentemente. Rola, desespero abaixo e, pum, estilhaça-se no vazio. Foge, acelerada, do...
-
(...) E a belíssima melancolia das estreitas ruas Lisboetas que atravesso nesta noite enchem-me outro copo de vinho que acompanho com um ci...