quinta-feira, 10 de junho de 2010

Porto de abrigo



Tentei tudo o que sei.
Naveguei todos os mares e nada encontrei.
Navego agora para os meus abismos, para o fundo da terra.
Sem histórias e sem mitos.
Navego para o fundo de mim mesma.
Navego, mas de vez em quando aparecem-me gaivotas nos olhos.
Aceito a serenidade que elas me dão.

E é quando me perco que o olhar se transfigura.
Em imaginação, em delírio, em fracasso, em desejo e em exaltação.
Quanto de azul, quanto de mar, quanto eu quereria ser o que nunca fui.
Quero gaivotas nos meus olhos.
Olho os grandes tons de azul que dominam o universo da memória.
Fragmentos de rostos que não conheço e ali ficam, impávidos, invencíveis, eternos.
Terrivelmente eternos.

Pergunto-me apenas porquê. E vejo-os. Porquê? Rostos
Vestígios de terras interditas.
E espanto-me.
Espanto-me de não os ter exorcizado.
Não quero descobrir novas terras, novos rostos.
Preciso de sair daqui. De ser rebelde.
De saber de mundos para olhar.
Olhar o mundo.

Para onde devo navegar? Como navegar neste fim de mundo?
Como escapar deste pouco ser que sinto em mim?
Quero ter olhos de gaivota, olhos livres de olhar.
Ir ao fundo da terra e voltar
Errante.
Quero ser alga, e ter olhos de alga.
Reinventar-me, sem Camilo, sem os seus amores de perdição.

Sem barcos que me levem , sem cantos de trágicas sereias.
Sem abutres enlouquecidos que me rodeiem e me comam a carne.
E é nos meus olhos cansados que quero o resto do meu destino.
E é nas minhas mãos cansadas que procuro um porto de abrigo.

E se não houver abrigo haverá um porto que me acolha.
Um rochedo, uma árvore, uma imagem de mim. Como um holograma.
E nele terei todos os sonhos acordados, e todas as minhas fantasias.
Terei a raíz. Sem abrigo, sem qualquer drama.

Apenas a raíz, desfazendo-se aos poucos.
No ar.
E voarei agarrada aos seus restos
Com as mãos enclavinhadas
Com o corpo que me resta
E esperarei pelo renascer.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Agora Chocolate



A gotinha de areia que trago no meu bolso foi-me oferecida por aquele que não recordo o nome, mas sei que desde então, sempre que me sinto sozinha, aperto-a com a minha mão e tudo parece tomar contornos mais suaves. Não menos importante é a pétala de vapor que guardo atrás da orelha e que me foi oferecida por aquele cujo nome ainda cá mora, mas que já não produz qualquer som quando dito. Sempre que me sinto triste coloco-a dentro do meu ouvido e ela canta-me notas harmoniosas.

Todas as noites, antes de me deitar, guardo a gotinha de areia enrolada na pétala de vapor para que nenhum grão se perca. Todas as manhãs, antes de me levantar, deixo a pétala de vapor respirar fundo e passear-se pelo quarto enquanto a gotinha preguiçosa ainda dorme na palma da minha mão. Das duas, acho que a mais infeliz é a pétala porque não sabe a que flor pertence… só sabe que é pétala. A gotinha não sabe o seu local de origem, mas está sempre tão atarefada em não perder nenhum grão que não pensa muito no assunto.

Há duas semanas que encontro a pétala a chorar para a gotinha todas as tardes. Alguma vez ouviram vapor a chorar? Faz o som de quando o vento passa debaixo de uma porta. A gotinha simplesmente seca o som das lágrimas, absorvendo-as por entre os seus grãos, mas nunca diz um único “ping”, escuta tudo o que a pétala tem para evaporar e adormece enrolada por ela.

Há três dias atrás, sem querer, descobri o porquê da pétala chorar. Está apaixonada por um dos grãos de areia da gotinha. Quem me contou foi a gotinha, porque tem medo de perder uma ínfima parte dela. “Um grão não consegue agregar-se a vapor, vai ser infeliz… uma pétala tem de se apaixonar por outra pétala”.

Não sei o que fazer para resolver este amor…

Ontem de manhã, ao acordar, fui pegar na gotinha para a pétala poder passear e reparei que esta tinha desaparecido. Pela primeira vez na vida ouvi a gotinha a chorar. Alguma vez ouviram areia a chorar? Faz o som que os caleidoscópios fazem enquanto os pequenos objectos que estão dentro deles rodam para formar as imagens. A pétala fugiu com o grão de areia por debaixo da frecha da janela. A gotinha, preguiçosa nem deu por nada.

Não sei o que fazer para resolver esta saudade…

Hoje de tarde, ao apertar a gotinha de areia na mão, ouvi um “ping”, seguido de muitos outros… quando abri a mão tinha areia a escapar por entre os meus dedos. Um suicídio premeditado. Como pude deixar isto acontecer?
Agora tenho um espaço vazio dentro do meu bolso, mais um espaço aberto atrás da minha orelha. Alguma vez ouviram-me a chorar? Faço o som de quando o vento quer passar por debaixo de uma porta e não consegue… ao mesmo tempo que um caleidoscópio quer produzir imagens e não consegue…. Como pude deixar isto acontecer?


Era uma vez, um grão de vapor, nascido de um grande amor. Foi-me oferecido por uma brisa de final da tarde. Gosto de o guardar debaixo da minha língua quando estou infeliz, pois ele dissolve-se e o seu sabor a chocolate faz-me sorrir.

Todas as noites, antes de me deitar...

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ouvir





Hoje, Senhor,fico diante de ti para confessar que estou na descoberta de caminhos novos.


Diante de criaturas que falam de suas dores consigo ouvi las com a alma.


Antes, só havia um burburinho e eu tinha uma infinidade de verdades, de ansiedades que se acotovelavam no meu peito, impedindo-me de sentir o outro.


Hoje eu consigo calar me integralmente e, então, as palavras dos outros penetram nos meus ouvidos e deslizam pelo meu corpo e alma e encontram guarida no meu coração e um porto seguro nos meus pensamentos .


Sabe, Senhor, às vezes eu nem preciso responder ou finalizar caminhos. Elas, as outras pessoas, por si só vão encontrando soluções.


É maravilhoso, Senhor, observar essas outras pessoas andando calmamente, após terem realizado as suas confissões.
Assemelham-se a pássaros que encontram os seus ninhos e as mães que as acalentam no peito.


Uma outra descoberta fiz, Senhor. Posso ver as pessoas em situações de uma maneira diferente. É delicioso ver o outro lado, ver o que elas sentem e pensam sem que eu faça um julgamento pré-concebível. Antes eu observava tudo com os olhos de ontem tendo como referência o que aprendera ou as atitudes que elas tiveram no passado.
Era complicado e, às vezes, doloroso.


Pois é, agora estou a aprender a olhar, com o coração... olhar a alma de tudo e de todos. É só dizer o que sinto em sintonia com o universo ou com a alma da própria pessoa.
Aprendi que não tenho todos os caminhos nem soluções. Sou também um viajante desse universo e só posso iluminar meus caminhos ou aqueles que eu já percorri. O que posso dizer, Senhor, é que elas façam o melhor por si mesmas, amem-se intensamente e se perdoem infinitamente.

Ah, Senhor! Quantas pedras carreguei em meus ombros; quantas imagens nocivas guardei no meu cérebro e coração. Agora, quero ser livre, quero libertar me de medos e culpas para poder levar com leveza esta vida.


Ouvir é uma arte! E sabes que um dos órgãos mais complexos e completos que o teu corpo possui é o ouvido. É um aparelho perfeito que pode transformar sons em palavras. No entanto, fica sabendo que esses ouvidos nada podem perceber quando o coração está ausente.

Ouvir é a arte de aconchegar almas... quando tu ouves com o coração, a sensação que é transmitida ao outro, assemelha-se ao carinho que os seios de uma mãe oferecem ao rosto da criança na amamentação.

Ouvir com o coração é ter uma antena com o Deus que existe no outro ser.Tu tens dúvidas de como te iniciares nessa arte? é simples, é só ouvir...



E EU CANTAREI PAZ E AMOR.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Lógica



[Duas notas prévias: isto passou-se quando a minha filha tinha 11 anos. Hoje dificilmente aconteceria, o que é absolutamente normal; a música escolhida era a sua canção favorita da altura. Adorava o na-la-la-la la-la-la do princípio...]

– Pai, ontem sonhei que tu eras de chocolate.
– Ahn????
– Pois… é isso.
Esperei mas ela não adiantou mais nada. Apercebi-me que aquele era o tipo de silêncio de quem se sente comprometido.
– E então, o que aconteceu depois? – perguntei.
Mais uns momentos de silêncio,
– Bem, a certa altura tu ias a fugir.
– De quem?!
– De mim e do Pantufa.
– O quê? Que me queriam vocês fazer?
Estávamos ao telefone mas quase consegui vê-la corar.
– Comer-te.
Inventei uma resmunguice e, sempre brincando, refilei com ela dizendo coisas do género: – Que filha a que eu tenho que me transforma em chocolate e depois me quer comer!
Ela interrompeu-me.
– Mas, ó pai, tu não entendes? Tu sabes muito bem que não resisto a chocolate. Por outro lado, eu gosto muito de ti e como também gosto muito de chocolate faz todo o sentido que tenha juntado as duas coisas numa só. É ou não é?
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Certa lógica não há que rebater. Há que abraçar.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Tormento de Deus (Parte III e final)



Nas sombras ergue-se discreto um olhar de um vulto. Absorto pela dor que contempla, fixa os seus olhos no cordeiro, enquanto este é arrastado pelos verdugos, segue a procissão do seu calvário com ansiedade. Está entre sombras, o espectador, estático e mudo de pesar. O medo verga-o até ao chão, para lá da linha do horizonte perdido, onde a fé dos homens se desvanece entre o frenesim das hienas e abutres. Fede a morte. Tornou-se morte. Morte de toda a fé dos homens, perdido num horizonte longínquo, a vogar desolado, entre risos de escárnio e vigílias dos oportunistas. Está perdido, o vulto, dentro das sombras que infestam a sua mónada, agrilhoam seu corpo à pesada pedra, que se afunda, afunda no negro abismo, afunda no rio que a todos nos aguarda. E o mundo, envolto em gritos dos condenados, arde em violentas chamas. Tudo isto ele agora pode ver e sentir, dentro de si, para além do seu olhar, perdido no horizonte indefinido.

Passa o cordeiro, espalha o sangue entre as pedras do caminho, aspergidos de sangue e desespero, os espectadores do calvário atónitos, estáticos ou em desespero assistem ao principio do fim dos tempos. A ilusão desenvolve-se nas suas mentes, entre frémitos inquietantes quase orgiásticos, atropelam-se, agridem seu irmão e espezinham sua mãe por um lugar à frente, na prima linha, para sentir o cheiro do sangue, o cheiro do desespero, tocar nas vestes do acossado Messias. O nosso coração está preso por uma linha, essa linha é a correnteza do rio que nos aparta. E o que nos aparta, é a morte. Morte de toda a fé, fé na morte do cordeiro. Fé que a morte do cordeiro nos salve, que Deus seja apaziguado de toda a sua fúria, pois Ele é seu Filho, feito à Sua imagem e semelhança, mas agora caminha para o tormento final, seu e de seu Pai, a desolação que a todos nos une e aproxima, a assembleia de testemunhas prepara-se para o julgamento, decreto da pena, condenação, castigo e eterna absolvição. Pois o cordeiro carrega em si todos os nossos pecados, pois o cordeiro leva em si a marca da pureza, pois no cordeiro depositamos a nossa fé, de que os dias do futuro serão de bonança e abundância, de paz e amor, de liberdade e solidariedade, de união entre os povos, de redenção de todo o mal oferecido pelo Anjo caído.


Mas o vulto, entre sombras sabe que não será assim. O vulto, devorado pelas sombras, conhece a razão do desgosto dos céus, ele é a raiz do tormento que enche os céus de fel e pestilência. Esgueira-se para a frente do espectáculo, assoma o condenado e perfila-se diante dele. Embebido em torpor, tenta em vão dirigir-lhe uma palavra, dar um passo em frente, fazer algo que seja para capturar a sua atenção.


Cordeiro de Deus, porque não suplicas por tua vida?


E enquanto atravessa toda a vila, com a morte ao seu lado, entre gritos animais e desespero, entre a farra da decadência dos que exultam o seu sacrifício, o cordeiro claudica. Definha a linha de tempo que desafia toda a lógica, esquecem-se os homens de sua fé, abandonam o Paraíso, renegam a Mão divina que se estende e condenam as suas almas ao inferno. Assentes na fé cega e temor aos céus, os dias do futuro serão assim, conduzidos pelas bestas de força, entre gritos e chamas, por entre a luxúria e ganância, loucura e sede infinita de poder, homens que irão devorar a terra e tudo que há nela e os fracos jamais irão herdar a Terra do Senhor.

E ao contemplar a cruz, onde ficará entronizado para a eternidade, o cordeiro recorda a decisão que tomou, em consciência, há três noites atrás…

(...)

- Tudo faria por vós, tudo farei por vós. Mesmo que se abata sobre mim a ira do Senhor.
- Judas, perdoa-me, pois este fardo não é teu para carregar, mas eu não consigo nem posso, meu irmão, não está ao meu alcance abraçar os desígnios do Pai dos céus, não serei o ungido que apregoam, pois não acredito em meu coração que deverá ser pelo medo e dominação que o homem chegará à iluminação. Sou um mensageiro, meu irmão, um adornador da realidade, mas não sou o salvador que o mundo quer recordar como a água que lava todos os seus pecados, aquele que será recordado sob a cruz. Mas tu meu irmão, és abençoado, o verdadeiro filho pródigo. Pois em teu poder está a minha libertação e a de todos os homens de fé. Terão o seu Messias e eu serei livre para desaparecer da face do Mundo e da memória dos homens. Quem sabe assim, vestindo outras vestes, mudando de nome, exilado noutras terras ainda poderei trazer ensinamentos aos que vivem sem a palavra de meu Pai. Preciso de ti irmão, preciso desta oportunidade de me transformar, abandonar a pele do cordeiro e ser eu mesmo, livre da Sua mão em meu ombro, só perante o mundo, aluno e mestre, visitar outras paragens e gentes, espalhar a palavra de que o poder não está nos céus mas sim na mente e coração de cada um de nós. Amo meu Pai, mas morrer para ele e por todos quantos me bajulam em nada irá servir. Deus está só, no seu trono, entre música das esferas e adulação dos anjos. Mas em terras estranhas vi povos que muito sabem de outros conhecimentos e nada sabem de meu Pai. Preciso de descobrir a razão, a raiz da sabedoria, banhar-me na filosofia e renascer para o conhecimento, a verdade da matéria e do pensamento. Para além da fé, deverá existir outros mundos. Por isso, preciso de ti, ó Judas, que aceites o supremo sacrifício e lhes dês a fé que pensam precisar. Pois eu tenho que descobrir se outro futuro é possível.

- Por ti, Jesus, cometerei a suprema heresia. Agora ajuda-me meu irmão, chegada é a hora da transformação. Adorna-me com tuas vestes e ilumina a minha face. Por Ti, serei o cordeiro!

Naquela noite, Deus perdeu o seu filho. Pois tão grave seria a farsa que para toda a eternidade iria viver em profundo tormento. Deus todo poderoso olhou para baixo e perguntou-Se: Filho, porque me abandonaste?

Nas sombras ergue-se discreto um olhar de um vulto. Absorto pela dor que contempla, fixa os seus olhos no cordeiro, enquanto este é arrastado pelos verdugos, segue a procissão do seu calvário com ansiedade. Jesus, o Cristo, devorado pelas sombras que dissolvem a sua fé, conhece a razão do desgosto dos céus. Esgueira-se para a frente do espectáculo, assoma Judas, o condenado, e perfila-se diante dele. Embebido em torpor, tenta em vão dirigir-lhe uma palavra, dar um passo em frente, fazer algo que seja para capturar a sua atenção. O falso profeta cruza um último olhar com o falso cordeiro, enquanto os seus carrascos o prendem à cruz.

De Profundis Clamo Ad Te, Domine. Das trevas apelo a ti, Pai. Recebe este cordeiro em sacrifício, sem desonra nem vergonha. Condena-me a mim, que tenho dúvidas, condena-me a mim que serei fraco e egoísta, pois esta será o meu legado menor, o fruto das sociedades vindouras, o princípio do final dos tempos. Vaguearei muito para além do Vale da Morte, sem bordão, sem compaixão. Escreverei no pó a tua história Pai, para nunca ser encontrada, lida ou contada. Pois acredito profundamente que haverá outro caminho para os homens, para além da fé e da entrega a algo que só podem sentir, nunca ver ou tocar. Preciso de saber Pai, como vivem e porque vivem aqueles que durante eras passadas, nunca tendo ouvido falar de Ti, são sábios e prósperos. Partirei para Oriente e irei indagar entre homens de lei e de filosofia, sábios, artífices, monges e mestres. Tenho que saber, Pai, o que há para além de Ti, pois eu, nada sei, nada sou e no entanto sei que nada sou perante a grandeza de tudo aquilo que me transcende. A iluminação poderá estar para além da crença, tenho que saber, ou morrer a tentar descobrir.

Atormentado e em desesperante agonia, o Pai revolta-se contra os pecadores, cegos, estúpidos e imerecedores de seu reino. Foram incapazes de ver para além da pele do cordeiro, incapazes de perceber quem era o Seu filho, incapazes de perceber, entender e guardar a mensagem, incapazes de separar a fé da realidade. Mas este era o Plano, um mundo em que o homem se deveria desconhecer a si mesmo e, cego, oferecer-se à palavra imutável e inquestionável do Senhor. Todos aceitavam o Plano, menos o Seu próprio Filho. O céu está em fúria e para sempre, fechado.

A humanidade, dominada pela força da fé e da vontade em crer nas palavras duras de quem nos queira dominar, conhecerá o seu esplendor, subirá ao mais alto patamar de Babel, para depois cair, cair no abismo das trevas, apagar-se de Sua memória, num último extretor, devorada por chamas, o Mundo que assentava a sua ordem na fé, doutrina e jogos de poder terminará em gritos…




Resta-nos a esperança que, algures em suas viagens, o destronado tenha colhido e semeado um admirável mundo novo, que irá brotar das cinzas do caos e destruição para onde caminhamos. Então, em Glória, Igualdade e Fraternidade, fundaremos um novo e harmonioso reino, assim na terra como no céu.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Tormento de Deus (Parte II)

Estaremos a viver os dias do fim?



Em cada rosto o desespero, a soberba, um esgar de crueldade
Em cada olhar o medo, a angústia, o gasto dos anos de labor
Nas mãos de quem nos guia a aspereza da pura iniquidade
Só no coração das mães de todos resta um pouco de amor

Algures no caminho, perdemos a direcção
Pai nosso onde estais, que é feito de vosso reino
Pai nosso, porque dormis e abandonas a criação
Perdidos no vale da Morte entoamos o nosso hino

Selo após selo, abafada mais uma prece
Sinal após sinal, renegamos o paraíso
O cálice está perdido num mundo que anoitece
Entra gritos e penumbra, apaga-se o aviso

É este o nosso destino, a cegueira
Tudo o que desejámos, sobreviver
Da morte que se oculta por trás da bandeira
De nações insanas, ébrias de poder

Mãe, porque choras, de saudade, de dor?
Mãe, rogai por nós que estamos tão sós
Mãe, alumia a nossa noite, Mãe, por favor
Mãe, não nos abandones, fica perto de nós
Mãe, protege-nos da chegada da nossa hora
Mãe, salva-nos deste horror
Mãe, nunca te vás embora
Mãe, dá-nos o teu amor

Algures, na névoa do tempo
Entre passos perdidos, palavras trocadas
Algures terá existido um momento
Onde nossas vidas foram atraiçoadas

Se ao menos pudéssemos desfazer este nó
Que nos prende ao inferno de nossa demência
Regressar ao passado envolto em pó
E em acto de contrição implorar por clemência

O que falhou no grande plano, qual a raiz da corrupção?
Qual a origem da geração de tanto mal que nos violenta?
Onde terá o profeta obnubilado e perdido a sua visão?
Que pecado foi este que Deus tanto atormenta?

A Terra está a saque, a vida está por um fio
Anjos caem mortos entre rosas e jasmim
A sociedade colapsa, o céu está vazio
Estaremos a viver os dias do fim?

Pai nosso, porque tanto nos desprezas
Que crime vil foi este e por quem cometido
Estamos perdidos, sem rumo entre trevas
Sem esperança aguardamos o regresso do Prometido

Com o sinal da cruz recordamos o Teu Filho
Com o sinal da cruz imploramos perdão
Pai nosso porque vives em tanto tormento?
Porque nos negas Pai a salvação?

(continua...)

terça-feira, 1 de junho de 2010

O tormento de Deus (Parte I)




- Irmão, porque me olhas desse modo? Sabeis que jamais seria meu desejo, mas a Sua palavra prevalece!

- Tudo faria por vós, meu amado irmão, mas por favor, reconsiderai, vê-de para além da esfera negra que nos envolve, a penumbra será passageira, a brisa do rio vai alimentar nossas preces, clamai pelos anjos, virão em teu auxílio!

- Os tempos mudam, mas o Homem é o mesmo, o Leão faminto que nos devora por dentro, corrompe em absoluto. O meu sangue ferve de inquietude e nem em todo o meu esplendor poderei alguma vez abraçar tanta dor. Irmão, estendo-vos a mão, perante vós me ajoelho, ajudai-me neste meu momento de necessidade.

- Tudo faria por vós, tudo farei por vós. Mesmo que se abata sobre mim a ira do Senhor.

- Atenção agora, Deus está a chegar...

(continua)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Contemplação




No céu escuro havia no ar somente uma bola enorme, dourada, que estava em permanente movimento, mostrando toda sua impressionante beleza e força. Impossível descrever em palavras, pois não se tratava somente de algo majestoso, mas sentia claramente que dela saia uma energia poderosa, incrível. Sabia intuitivamente que tudo o que existia saia de lá, era uma Fonte da vida.
Sentia-me em estado de graça; estava numa posição privilegiada, era uma observadora atenta de cada detalhe desta esfera que realizava movimentos deslumbrantes em sua superfície, exibindo tons e nuances nunca antes vistos, que me deixavam boquiaberta.

A contemplação de tamanha maravilha saciava me o espírito, dava-me alento e passava me somente serenidade, paz e harmonia.
Quando, de repente, começou algo que não podia esperar; da bola saiu um pequeno ponto de luz, que deixava um rasto nítido atrás de si; vinha aproximava se pelo meu lado esquerdo. Era uma criança de poucos anos, que ao passar por mim abriu um lindo sorriso. Senti desconforto, pois reconheci nele algo intrigante: tratava-se de um ex colega com quem tinha deixado de falar. Mas não deu para pensar muito, visto que mais um ponto de luz estava vindo, dessa vez pelo meu lado direito... sempre uma criança, sorrindo: era uma conhecida que tinha sido muito injusta comigo...
e outros vieram, praticamente todos os que eu preferia nunca mais ver na minha frente. Foi quando a meditação ressoou com uma voz pastosa, amorosa, como a de um pai que conforta o filho pequeno que ficou assustado com algo que viu.

As palavras, repetiam, como se, se tratasse de um mantra: Somos Todos Um, Somos Todos Um, Somos Todos Um...
E aquela bola transformava se rapidamente, achatou-se, mudou de cor e na sua superfície apareceram linhas como que marcando os meridianos e paralelos de um mapa No entanto, aquilo continuava,aos meus olhos. Uma linha vertical preta, definitiva, dividia o hemisfério esquerdo do direito; a informação que recebia era que se tratava da linha do tempo. Do agora, do eterno agora. Tudo didáctico, até simples de se compreender.
Em seguida, "A Bola dourada", ou melhor, suas linhas de meridianos começaram a deslocar se da esquerda para a direita. Ao parar, depois de um movimento por vezes demorado e acompanhado com as cores do arco-íris, uma tela saía da linha preta e nela podia ver os pontos principais de uma vida passada. Sem erro.

Em instantes, a transformação inversa ocorreu e a majestosa bola dourada resplandeceu novamente...
Foi quando, em percurso inverso, envelhecidos, carecas ou de cabelos brancos, todos os que tinham passado por mim, sorrindo novamente a olhar me, seguindo aquele cordão de energia, de luz, começaram a retornar ao ponto de origem. Um por um mergulhavam, como pequenos cometas e a cada retorno algo belo acontecia: a esfera tornava se ainda mais bela, luminosa, brilhante. Incrível como algo tão belo pudesse ficar ainda mais bonito!
De repente, após a volta de todos os "desafectos", ocorreu algo muito intenso, inesperado. De simples observador, que boquiaberto e confortavelmente assistia sentado no sofá a um filme de ficção científica, surgiu mais um ponto de luz se deslocando, desta vez, em minha direcção.

Em poucos instantes, percebi que aquela criancinha era eu mesmo, aproximando se veloz mente com um amplo sorriso e de olhos cintilando, o rosto manifestando uma alegria incontida.
Assim ele/eu nos tornamos algo único, uma só vida, uma felicidade verdadeira, completa.

Demorei bastante para retornar à consciência desperta, não queria mesmo sair de lá... Aos poucos, na penumbra do quarto (por volta das sete da noite de um dia da semana), voltei a lembrar me quem era, pensei
impossível e distante demais para ser verdade, voltei a ser aquela criança curiosa, sem preconceitos, sem medo de nada que, com certeza absoluta, e de coração aberto, poderemos ir além, muito além. Nada como termos estas experiências directamente,e em primeira pessoa.

Lembro me que pedi perdão e todo passou a fazer sentido e a transformar para sempre cada momento da minha existência...sigo na contemplação...

domingo, 30 de maio de 2010

Close up




O meu verso sentou-se, cansado, estiraçou as pernas, enrolou-se meio adormecido e olhou o relógio de mocho suspenso na parede em frente.

Esquisito aquele relógio com dois ponteiros - só de horas- um em cada olho. Ambos marcavam 3 horas, só que no olho da direita era sempre de noite e no olho da esquerda era sempre de dia (ou ao contrário, ele nunca tinha a certeza).

Ao meu verso apeteceu-lhe bolinhos (é um pouco louco e desorganizado o meu verso), um banho de abacate com perfume de violetas e cobriu-se depois, todo nu, com um roupão turco e macio cor de vinho forte.

Reclinado, projectou na parede do lado um slide onde se via muito vento (disse ele, vento).

Que chatice de vida, pensou. Se todas as mulheres se apaixonassem por mim, deixaria de haver complicações, angústias, amarguras, ciúmes ou remorsos. Tudo estaria certo e a vida correria feliz.

Mas não era nada disto que acontecia, disse ele subitamente alto, enquanto dava um pontapé num dos bolinhos.

Um pouco enjoado com os bolinhos (que aliás odiava) - é completamente doido já vos disse - o meu verso levantou-se e resolveu ir-se embora na noite.

Quase 4 horas, pensei, olhando o relógio que, em desassossego, parara. 4 da manhã do dia ou da noite? Tanto faz, ele é tempo, espaço e movimento. Embora não entenda nada do assunto.

Olho para um dos cantos da sala e percebo ali um espelho.

Um espelho.

Vou até ele lentamente e vejo um vulto um pouco diferente.

Vejo-me enfim transformada em mim mesma.

Numa perspectiva inesperada.

As lentes da cor



Ao fundo do corredor vive uma janela. Antes do nascer do sol, ele já está encostado à parede que fica no sentido oposto à janela, e aí espera pela luz. Quando a lente escolhida é verde, ele tem vontade de correr.

Correr por aquele prado fechado em direcção ao sol que brilha e ilumina toda aquela via, e que por isso mesmo ofusca os olhos de quem vive na noite.
Quando a lente escolhida é azul, ele tem vontade de nadar.

Nadar por aquele rio fechado em direcção ao sol que brilha e ilumina toda aquela via, e que por isso mesmo…
Quando a lente escolhida é amarela, ele tem vontade de voar.

Voar por aquele céu fechado em direcção ao sol que brilha e ilumina toda aquela…
Quando a lente escolhida é branca, ele tem vontade de saltar.

Saltar por aquelas nuvens fechadas em direcção ao sol que…
Quando a lente escolhida é vermelha, ele tem vontade de rastejar.

Rastejar por aqueles cadáveres fechados em direcção…
Quando a lente escolhida é negra, ele perde a vontade e fica na cama que conhece a sua cegueira de nascença. Fica o resto do dia a ver mexer os dedos dos pés que pertenciam às suas pernas amputadas. Fica o resto do dia a limpar as lentes dos outros óculos com as mãos que pertenciam aos seus braços e que vivem no mesmo sítio das suas pernas.

Nesse dia ele tira folga para dormir por entre os lençóis fechados…

… que ofuscam os olhos de quem vive no dia.

(Hoje, se eu pudesse escolher, queria ter uns óculos sem lentes)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Mancha Negra









É como se uma rédea pudesse travar o raciocínio lógico. E este relinchasse prolongadamente, reverberante, em intervalos regulares.
Como se um chicote ameaçador te castigasse os neurónios.
É como se um torno invisível te apertasse o crânio.
Como se os pulmões fossem mungidos por uma maquina industrial como tetas de vaca.
É a garganta seca como cortiça e apertada por uma entidade alíen que não vês mas pressentes. É o hálito insuportável e os testículos reduzidos a ervilhas. Os pés como tijolos, e as mãos como balões. É como ter vontade de vomitar durante 24 horas, 24 minutos, 24 segundos, 24 centésimos, 24 décimos e 24 milésimos por dia.

E é assim à 40 anos. Diga-me sr. doutor, estarei a morrer.

Sobre o óbvio

  Acordo, mas não desperto. As pálpebras pesam toneladas e o corpo está crucificado à cama. Levanto-me, mas não me ergo. Ergo-me, vou até à ...