sábado, 25 de fevereiro de 2012

Chamaste-me como se eu fosse brisa e fui como se fosse vento


Depois de já ter engolido o meu lamento,

De repente quiseste-me outra vez a teu lado.

Chamaste-me como se eu fosse brisa e fui como se fosse
vento.

Novamente ter contigo, o sentimento agridoce.

Esperaste-me enquanto dormias. Eu acordei cedo e cheguei.

Fosse como fosse,
Do caminho entre o levantar e o aparecer à tua porta, nada viste enquanto dormiste.
Das dúvidas, pesadelos que tive durante a noite, nada soubeste.

Eu fui, como quem sai de sua casa ao encontro de um filho perdido na floresta.
Com o único intuito de salvar o nado-morto que nunca viveu,
Mas que é o único vestígio de nós dois que me resta.

Resgatar das cinzas do meu desespero uma certeza qualquer.

Como um cão que escava no chão em busca de um osso

Entreguei o que era teu e fiz do que era meu, nosso.

Agora que já sabes os meus segredos, e a parte que para ti não presta

Já descongelaste um bocadinho os teus medos?

Por ti caí. Mas mesmo cega lá consegui levantar-me.

E, ainda que nunca consigas amar-me

Sei que já tive o melhor de ti,
Altiva seguirei o meu caminho
Talvez, segura, feliz e acompanhada

E o teu como será? Como escolheste, indeciso e sozinho?
Deixa estar...não ficarei amarguada.
Quando me chamares outra vez, o vento já me levou e de ti não restará nada.

MM’ 22 Fev 2011

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

a cinza caía-lhe em cima ...


Tentava segurar o cigarro entre dentes, inspirava o fumo e deixava que se soltasse
Dilatando as narinas, escrevia num teclado apagado, assim como se apagam pedaços de vida , mal se vêem mas estão lá, adivinha-se o sítio.
O fumo ardia-lhe nos olhos, lacrimejava e não tinha mão que lhe secasse a face .
Ocupava os dedos dedilhando um teclado que se esbatia de uso, a cinza caí-lhe em cima do peito, agora não podia parar, nunca mais poderia parar.
Os olhos ardiam, e não viam mais nada para além das sumidas letras de um teclado usado, tão usado quanto ela.
Tinha-o usado na vida, gastava-lhe o tempo
Usava-se, a si mesma, para tentar reescrever vida.
Escrevia-a em pedacinhos, pequenas frases, letras escondidas em palavras demasiado rebuscadas.
Era nessas alturas que pensava que a vida não se podia voltar a pintar, a tinta caía com o tempo, por si só. Remenda-se ali, pincelava-se acolá.
Imperfeita
Em paredes gastas, teclas usadas e pinturas maltratadas, a vida corria plana , sem círculos.
O fumo amarelecia as paredes da sala, a cinza caía-lhe em cima
no meio de nada
fazia-se em pó
e
não a preocupava.

Teresa Maria Queiroz 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Ian Curtis, o génio que pensa no que sente



Ian era um jovem que se interessava por desvendar os mistérios da Natureza, do Universo e, sobretudo, da própria humanidade. Ian perdia-se no querer contínuo de se encontrar a si mesmo e de descobrir o significado da sua ignóbil existência. Inconformado com a utilidade do conhecimento empírico e com conjecturas edificadas por outro alguém que não ele, Ian era o cantor, poeta e filósofo que via o mundo através de uma conjectura metafísica própria e vivia segundo uma doutrina sob a qual mais ninguém vivia. O seu génio voltava as suas atenções para os ensinamentos do ocultismo e suportava consigo a ânsia desmedida de se querer descobrir a cada passo que dava. (Muito) Precocemente apaixonado por letras e pela poesia do britânico William Wordsworth, Curtis revelava um dom aprimorado para a escrita. As suas músicas eram constituídas por letras banhadas a sentimento puro que, por sua vez seria, asfixiado na beleza com que o inglês escrevia. As suas composições líricas retratavam, na maioria, emoções e sentimentos vividas/vividos no quotidiano. Eram estas emoções e estes sentimentos que davam asas e alento à genialidade do cantor, eram delas que o seu génio se alimentava, eram delas que Ian vivia. Curtis era, portanto, um sensacionista da razão, ou seja, compreendia o mundo através dum processo racional dos seus sentimentos. Dotado de uma sensibilidade do outro mundo, Ian sentia-se, por vezes, só e incompreendido. Refugiando-se no «seu» próprio mundo, esmiuçava desenfreadamente aquilo que era daquilo que não era enquanto ia, também, esboçando aquilo que na realidade pretendia ser. Ian Curtis foi edificando, ao longo do tempo, uma imagem modelo de si. Essa imagem seria uma espécie de visão de uma ataraxia. A genialidade do artista não se deve limitar e Ian, mais do que ninguém, sabia disso… Ian elevou o punk a um novo patamar, levando-o a deambular por novos rumos. Criou-se uma fusão crua entre o desencanto encantador polido a sépia e a celebração da rebeldia característica da música punk. Criaram-se músicas do outro mundo asfixiadas por uma tristeza devastadora. A música dos Joy Division assemelha-se a um valente soco no estômago de tão penetrante e «agressiva» que consegue ser.

A mestria de Ian era constantemente afectada por sobressaltos relacionados com a sua saúde. Esta figura icónica padecia de epilepsia vendo-se, por isso, constantemente fustigada por pequenos ataques epilépticos. Eram pequenas fracções de tempo que desencadeavam em Ian dúvidas quanto ao significado da sua verdadeira existência. Este grave problema de saúde era uma coisa que amedrontava terrificamente o cantor. Ian tinha pavor que a sua vida pudesse terminar em segundos às custas de um simples e débil problema de saúde. Aquando de um ataque epiléptico, Ian sentia que perdia o controle sobre as coisas, sentia-se numa fronteira entre a vida e a morte e, posteriormente, naqueles escassos segundos em que se estendia ao comprido no asfalto, só e com o seu corpo a tremer sem querer parar, questionava-se se valeria a pena viver, questionava-se acerca da existência de alguma coisa que jazia para além da vida, intrigava-se sobre a existência, ou não, de um prémio por ter vivido num lugar onde ninguém o compreendia, por ter vivido num lugar tão inóspito… Ian sentia-se um doente e, por diversas ocasiões, ansiou por preparar o antídoto mais eficaz contra a dor, a morte.
Em palco, Ian, era uma marioneta demente, era um homem que fervia de sentimento naqueles escassos minutos em que pisava o palco. Se existiu alguém que celebrou a música e a arte com o sentimento devido, Ian foi, certamente, esse alguém. Ian ardia enquanto cantava, dançava, em estilo único, até à exaustão e desmedia-se no que entregava de si à música. «Escrevia» incessantemente uma ode à música enquanto vivia, eram paletes de exaltação à arte. A música era como uma doença para Curtis.
A maior doença que Ian padecia era mesmo, a meu ver, a doença do amor. Dotado por uma sensibilidade extrema, Ian amava com toda a sua alma, com toda a essência da sua existência, com toda o significado do seu ser, contemplando, deste modo, um novo significado de amor. O amor é o dialecto do coração, e esse dialecto não se fala, entende-se. A linguagem do coração não se fala nem se ouve, apenas requer sensibilidade para se entender. Ian era o poeta de maior grau de uma potência chamada amor.
Com toda a sua mestria para «falar» com corações, Ian cometeu o maior «erro» da sua vida, deixando-se apaixonar, simultaneamente, por duas mulheres. Incapaz de optar por oferecer todo o seu amor exclusivamente a uma mulher, foi alimentando uma paixão com uma jornalista belga enquanto estava casado (desde muito cedo) com a sua amada Debbie. A sua vida ia ganhando contornos geométricos, uma recta que teimava em ser triângulo, uma equação impossível.
Esquivando-se da verdade, Ian manteve coberto, com um véu, o triângulo amoroso no qual estava metido. O véu soltou-se e a verdade foi descodificada por Debbie que o encurralou entre a espada e a parede, ou seja, entre a escolha dos amores da sua vida. E, repentinamente, Ian, que julgava ver as coisas de uma maneira clara e concisa, deparou-se com um cenário em que as coisas se iam despedaçando, uma a uma, milímetro a milímetro, tudo em frente a si, tudo em frente aos seus olhos. A sua vida ia-se desmoronando, assim, num ápice. Batalhando incessantemente entre a sua verdade e a verdade destorcida, vista pelos olhos dos outros, que não tinham a sua sensibilidade e não sabia distinguir uma da outra, Ian acabou por ceder.
Consciente do que o que é eterno, é recto, e de que a morte é o apagar de uma lâmpada, mas não o apagar do Sol, Ian terminava, assim, com uma vida que mereceu ser vivida. Evocando Platão, uma vida questionada não merece ser vivida e Ian despedaçou-se em questões que nos invadem, ainda hoje, uma a uma, a nossa cabeça.
Uma corda estendida verticalmente acabou por colocar um fim à vida daquele que é considerado um dos maiores génios britânicos de que há memória. Ian suicidou-se aos 23 anos, era um jovem, um jovem adulto. Ian acabou por morrer asfixiado nas imagens que o percorriam na mente, imagens, essas, fruto da sua própria criação. O refúgio evocado pelo seu raciocínio acabou por ditar sentença àquele cantor, poeta e filósofo que se esmiuçava desmedidamente na crença de descobrir a essência do seu verdadeiro «eu». Ian isolou-se do mundo exterior e isso acabou-se por revelar uma irreversibilidade. A imagem de si que ia esboçando, sem parar, no seu refúgio, diferia totalmente daquele que era na vida real e Ian entediava-se excessivamente com isso. Inconformado, estagnou-se.
Ian Curtis morreu, essencialmente, asfixiado pela dor de saber amar em demasia. E o seu legado asfixia-nos, ainda hoje, de tão rico que é.
Assim como o rio que corre e o homem nasce e morre, o génio fica para a eternidade.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Frio....está frio...




Sinto o gelo da dura realidade entranhar-se em mim até ao tutano...

Frio....está frio...

Sinto a réstia de crença a fugir entre o tique-taque do relógio,e este não pára...

E frio...está frio....

Corpo morto...mente descrente....

E frio....está frio....

Oh doce  inoçencia onde foste?.....

Tudo o que sinto é "nada", esse "nada" onde se... "encontra tudo".......

E frio...está frio.....

Tu!, sim, tu! também sentes frio?! Sentes....sentes!! tens de sentir! tens de sentir....frio....está frio

....está.... frio......

sábado, 4 de fevereiro de 2012

VULCÃO

Entrei, seguiste-me, sentámo-nos, tocaste-me numa perna, entrelacei a minha mão na tua.

Fumaste um cigarro, sentámo-nos perto, aqueci as nossas mãos entrelaçadas.

Nada estava previsto e tudo foi previsível. Excepto termos entrelaçado as nossas mãos.

Deitámo-nos com elas dadas, encostámo-nos, beijámo-nos, amámo-nos, dormiste, acordaste, repetimos.

Prendeste a minha mão na tua, abracei-te, beijei-te, balancei-te como a uma criança,

Agarraste-me com garras feéricas, entraste na minha cabeça, inundaste-me de esperança.

Abracei o teu estertor,amparei-te das alturas em que caíste tantas vezes no limbo do sono.

Aqueceste-me, abraçaste-me, embalaste-me em espertina contra os pesadelos do profundo.

Não dormi, ouvi-te respirar, gemer uma dor que vinha do fundo, acordaste, prazer, dormiste, acordaste e estávamos abraçados

Não dormi nem acordei, esperei e abracei-te.

Onde está a tua mão em mim pousada, no meu dentro? O teu beijo desajeitado, desesperado em carência tão grandiosamente incomensurável?

Acaso caíste e eu não te amparei? Abracei-te demais, de menos, fui outra que não quem sonhaste?

Que tens frio por dentro. E eu. Por fora congelo.

Em mim acordaste um rio de lava que agora escorre mansa e densamente em tua direcção

E te consumirá até que o gelo em ti petrifique.



MM’ 4 Fev. 2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

MAS MESMO ASSIM

Não foi bonito, nem fácil, nem alegre, nem curto, nem linear, o trajecto
Não voou atraído por doces néctares ou promissores aromas, o polinizador
Não cresceu verde, nem tenra, nem depressa, nem viçosa, a semente
Sinuoso, extenso, triste, difícil, feio e trágico, cheio de mortos e desilusões
Proscrito, andrajoso, tóxico, rastejante em rumo a pútridas essências
Por fim raquítica, vagarosa, rija, amarelada, sem embrião nem água
Esperada para decomposição em charco de mágoa…
...
Mas mesmo assim, fez-se o caminho, a planta cresceu e o amor nasceu.
MM' 25 Jan 2012

domingo, 29 de janeiro de 2012

Mulher





Mulher
Virgem
sedutora
fatal
sem destino sem perdão
(i)maculada
no pedestal
mesmo que penses que não.

É
o que não parece
nem padece.

Apenas vibra
solta em paixões
que lhe vão consumindo
o corpo
construindo
a alma
sabores
odores
olfacto apurado por tantas vezes não ver
(o) jogo de ilusões
amansado pelo desejo de querer
ou crer
ser.

É
na efemeridade dos instantes
momentos
para sempre
Mulher.

E o teu corpo sem mim numa distância que inventas.
E o meu corpo em ti num retorno sem regresso.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Núpcias



De manhã, lavo-te os ossos da bacia que chiam e que já trespassaram o músculo até aos olhos nus.
Na mesma bacia, mergulho a toalha corada e espremo-a em gotas da cor dos bons sonhos.
Com a mesma nudez dos olhos no desinteresse, vejo que as paredes têm mais expressão que a tua cara.
Lá fora é quase meio-dia.

E passados vinte anos (dezanove para ti e um para mim) é quase meia-noite e tu finalmente dormitas.
Garanto-me que o lençol de cima está afeiçoado o suficiente por ti para que não te possas mexer.
Deixo a torneira a pingar para que contes os segundos e saibas quando vou voltar.

Saio do quarto e penso que aquela é a pré-extinção exemplar.
Fico orgulhosa.
Aguardo ansiosamente pela próxima manhã só para ver-te a endurar mais um bocadinho.
Sabe-me tão bem quando penso que posso vir a conhecer mais do teu pano ósseo.
Sempre foi muito difícil chegar ao teu interior.

Ao contrário do que dizias antes de desenhares punhos fechados e abertos em mim, afinal, meu amor, sou uma boa esposa.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Espião duplo




A noite estrangula-te o sangue pleno de nuances esbranquiçadas.
Para-te o ponteiro dos segundos, do raciocínio lógico,
e sentes que o longo precipício te cospe como um detrito asqueroso.
Devolve o corpo em que encarnaste.
Traz de volta a oferenda que fizeste a Moloch.
O odor pútrido, já indisfarçável, condena-te ao esquecimento,
a expiração, e mais nada.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

PRECISO DE UM NADA

Preciso de um momento, em branco, vazio, no escuro, sem nada, ninguém.
Um ápice só meu, congelado, fechado, sem cor, nem luz,
Nem palavras, nem som, nem nada.
Porque não compreendo nada, mas sinto demasiado. Tudo virado ao contrário.
Preciso de um ocaso, parado, petrificado, selado,
Entre os escaldões e o choque, antes do quente e da dor.
Uma golfada, de ar, de sal, de menta, antes do colapso dos pulmões.
Deixem-me parar, ficar, estar. Preparar para o embate,
Um desejo derradeiro, final, retrospectivo.
Não me digam, não façam, nem me perguntem nada.
Concedam-me o mais importante, antes que a pedra me acerte
...
Eu sei que este segundo vai acabar, que a vidinha depois continua
Mas, agora, neste instante, digo-vos: não! Quero estar nua, inerte e sozinha.
Quando a mágoa passar, então haverei de acordar e levantar o corpo do chão.
MM' 16 Nov 2011

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Pensamento articulado com cheiro a vomitado

Puta de sorte q'invoca a morte
Da triste vida que não sabe para onde aponta o Norte.
Não sei escrever aquilo que julgo ler,
Nem reparar no que os meus olhos conseguem ver.
Inóspito é ser cego do merdoso do meu ego
E reparar que navego no mar onde neva.
Um tudo frio de um nada vazio da rota que me desvio.

Puta de sorte que é estar só,
Estar roto e remendar com um nó.
Estou ressacado.

(Poesia elaborado com o espírito do politicamente correcto é uma treta e não é poesia sentida)

Sobre o óbvio

  Acordo, mas não desperto. As pálpebras pesam toneladas e o corpo está crucificado à cama. Levanto-me, mas não me ergo. Ergo-me, vou até à ...