Núpcias



De manhã, lavo-te os ossos da bacia que chiam e que já trespassaram o músculo até aos olhos nus.
Na mesma bacia, mergulho a toalha corada e espremo-a em gotas da cor dos bons sonhos.
Com a mesma nudez dos olhos no desinteresse, vejo que as paredes têm mais expressão que a tua cara.
Lá fora é quase meio-dia.

E passados vinte anos (dezanove para ti e um para mim) é quase meia-noite e tu finalmente dormitas.
Garanto-me que o lençol de cima está afeiçoado o suficiente por ti para que não te possas mexer.
Deixo a torneira a pingar para que contes os segundos e saibas quando vou voltar.

Saio do quarto e penso que aquela é a pré-extinção exemplar.
Fico orgulhosa.
Aguardo ansiosamente pela próxima manhã só para ver-te a endurar mais um bocadinho.
Sabe-me tão bem quando penso que posso vir a conhecer mais do teu pano ósseo.
Sempre foi muito difícil chegar ao teu interior.

Ao contrário do que dizias antes de desenhares punhos fechados e abertos em mim, afinal, meu amor, sou uma boa esposa.

Comentários

  1. Estou sem palavras...bom, muito bom...

    ResponderEliminar
  2. adoro a maneira como redefines o que raio vem a ser isso do amor, afinal

    ResponderEliminar
  3. Amor cadáver em todos os sentidos. Líndíssimo.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário