Ausente



Rezo por mim própria, pois sei que não o posso esconder por muito mais.
Escondo a minha cara envergonhada e transvazo de angústia e pesar. Não há mais nada a negar nem a defender. A desolação esfumou a esperança que se entretinha a assomar por entre as caras dos fantasmas dos meus medos. Agora quem me vai segurar? Não há nada que eu possa fazer que não o tenha já feito, nada que eu possa ver, apenas presenciar enquanto tudo se desmorona. Ninguém para me dizer o que fazer, isto não tem um fim se eu não compreender que não posso retornar a fazê-lo.
Não há palavras que me saiam, não há uma verdade que eu consiga ver. Resta-me deixar isto acabar, sabendo em consciência que não posso refazer o que foi desfeito. Sabendo que não há reinicio. Sabendo que não há nada à minha espera do outro lado.

(...)

Mas o que estou a dizer? Ah, que estupidez, que vontade de rir!... Terminar? Coitada, como se fosses capaz! Ri, sorri, cura. Caminha comigo e canta-me ao ouvido. Sou invisível e não posso desaparecer mais que isto. Se me quiseres abandonar, se me deixares, eu seguirei, sempre. Se ousares caminhar para longe serei o som dos teus passos. Continuarás a tropeçar em cordas invisíveis e a escutar gargalhadas de escárnio e ilusão.

(...)

O mundo é o meu caixote de lixo, a minha poça de lama. A minha banheira transbordante de medo e mentira. Há um sonho dentro de outro sonho que não me deixa dormir quando adormeço. Aqui estou sozinha quando estás comigo. Sou o meu próprio deus, juiz e carrasco.

(...)

Porque não decides por mim? Porque não vens a mim, minha querida? Deixa-te enlear pelos meus braços, beijar pela minha boca, tocar pelos meus cabelos e embalar pela minha voz. Dorme bebé, estás a salvo aqui, dentro do círculo de luz, dentro do Sol que amanhece, dentro da minha infinita piedade e dormência. Dentro de toda a demência. Lento, ainda mais lento, o meu coração relaxa e inunda o frágil corpo de morfina e ...

(...)

Mas será que não há verdadeiro silêncio neste mundo? Será que só me restam os ensurdecedores silêncios abafados de átrio de hospital, de uma imensidão de estranhos que se reúne ao acaso para ver este paranóico espectáculo? Antes queria estar só... porque não me deixam estar só!!!...


- Doutor, venha depressa. Ela está outra vez a revirar os olhos e com convulsões!

- Enfermeira, mostre-me a ficha da paciente por favor... Humm, aumentem a dose de Diazepam em 5 mg. Mantenha-me informado do seu estado.

- Sim Doutor, assim farei, fique descansado...








(...)

Vogo num mar sem ondas, apenas uma ligeira brisa na minha face rosada pelo pálido luar. A noite engole-me e leva-me com ela para longe, para o outro lado da Lua. Escuto o som do mar e do espaço que me envolve. Sinto a água a respingar nos meus dedos à medida que os arrasto pela superfície. Porque estou aqui? Tão distante de mim mesma, o meu coração está tão triste... O que faço aqui? Porque me sinto tão abandonada..? Porque me ardem as lágrimas que escorrem dos meus olhos feridos? O que faço aqui?

(...)

Um poder maior saberá o que foi e o que será de mim. Espero pacientemente e reflicto no que isto significa para mim. Nunca ninguém saberá de mim, só eu sei o que é estar tão só. O fim estará próximo ou a uma eternidade de distância?.... aaahhh.... abandona-me por favor, agora…

(...)

Lembro-me de ti, antes do dia que me marcou. Sonho contigo a ser criança e a brincar, a andar descalça pela relva e a apanhar as borboletas com o teu chapéu. Sonho que sorrias para mim e me enviavas beijos pelo ar. Sonho que eras linda e eu era feliz.

(...)

Não o faças, por favor. Não fiques assim triste e doente. Não olhes para mim com os olhos vazios de fé e vontade de viver. E dar-te-ei a fé e a razão, farei com que te sintas mais brilhante do que o Sol. Lembrar-te-ei que és especial, que és única e valiosa. Não me deixes aqui sozinha, fica comigo ou leva-me contigo.

(...)

Tu nunca nasceste e eu amei-te mais do que a mim própria. Lembrar-me-ei sempre da tua cara que nunca vi, da tua pele que nunca senti, do teu amor que me enchia de força e vontade de viver... para sempre! Amo-te meu bebé, amo-te tanto que jamais conseguirei voltar a sentir seja o que for, a não ser dor e eterna saudade. Nada mais há para mim, nada mais me prende. Quero ir para junto de ti e ficar contigo, de mãos dadas a vogar no infinito…






(...)

Galderia, cala-te e para de choramingar! Quem te oiça até vai dizer que não gostaste do que fizeste. Adoraste cada instante, cada momento. Tu sabias que estavas irresistível, apetecível, a caminhar sorridente e deslumbrante, a gozar com os homens que deixavas para trás, exibindo-te despudoradamente. Foste uma ordinária, estavas tanto a pedi-las... Nem o fruto em teu ventre te fez travar a vaidade. Foste tu, ordinária, tu que o atraíste, tu que tens a culpa! Tu é que tiveste a culpa!!!



- Doutor, tem que vir já! As convulsões estão cada vez piores e os gritos são de enloquecer. Acho que ela está a morrer de desespero!

- Pobre coitada. Os casos de violação são sempre complicadíssimos. Ter perdido o bebé deixou-a profundamente traumatizada... Aumentou a dose de Diazepam como lhe disse?

Comentários

  1. Gosto de ti porque não tens medo de fazer arte com os temas mais dificeis. Porque os teus textos perturbam e nos tiram da nossa zona de conforto. E porque, sob a capa do politicamente incorrecto, deixas ao leitor a missão de julgar e decidir. Tudo isso está neste conto.
    De gelar a espinha (e sim, é um elogio... :D)

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  2. Incrível a capacidade que a tua escrita tem de me absorver para a história... as personagens falam-me ao ouvido e eu só consigo falar no fim. Sim, a "dose foi aumentada"... fantástico :)

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  3. Quando sentimos internamente um movimento forte, uma emoção e ao respirarmos lentamente algo já se tornou diferente...é o que sinto ao ler te de cada vez encontro sp algo novo...aprendo e cresço...fantástico:)

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