Não era só um vestido...



Como em tantas outras vezes em que arrumei o meu roupeiro,reparei com algumas peças que não usava a muito , mas que também não tinha coragem de me desfazer delas. Poucas peças... mas o suficiente para ocuparem o lugar de outras que poderiam estar sendo usadas...
Peguei num vestido que adorava e que nem me serve mais... e pensei no motivo de estar tão ligada a ele... por que tantas vezes tentei retira lo e tornava a guardar na esperança de um dia voltar a usar... como se fosse parte de mim.
... no dia seguinte, de manhã, quando de novo o vi e já ia guardar para mais uma temporada no armário, sem uso...caiu inesperadamente um sentimento em mim...
Entendi que o guardava porque, de alguma forma, não acreditava que poderia encontrar outra roupa que me caísse tão bem como aquela... em que me sentisse tão bem como me sentia com ele... outra roupa... outra situação... e senti solidão...

Talvez não haja no universo sentimento mais profundo do que este: solidão interior. Aquela solidão da alma. A constatação fria e inegável de que, não importa o quanto eu esteja cercada de coisas e pessoas, ou o quanto outras criaturas tenham contribuído com a minha caminhada, na minha consciência eu estou sempre só, comigo mesma. Enfim, sós... Eis que, em algum momento da minha existência, minha consciência força me à transformação, à total, profunda e sincera revisão de tudo em que vinha acreditando. Ela faz me olhar novamente para tudo o que fiz, construi e aprendi e, de forma implacável, coloca me frente à frente com tudo que sou, de verdade, e nem sequer imaginava.

Não há fuga possível, não há como ou onde esconder-me. É como se todas as máscaras caíssem ao mesmo tempo e eu fosse obrigada a olhar num espelho vivo e límpido, onde estão reflectidas todas as minhas verdadeiras emoções, ideias, necessidades e tropeços. Meus medos e as minhas carências.

E, ao me deparar com tanto da minha verdadeira essência que eu desconhecia e ignorava, é como se algo se rompesse dentro de mim e criasse um imenso vazio, que me engole e deixa sem chão e sem tecto, flutuando, em completa suspensão. É como se eu vagasse dentro de meu próprio vazio interior.

As referências momentaneamente confundem se, como se, o tempo todo, eu estivesse seguindo um mapa falso, para um tesouro que idealizei, mas nunca existiu.

As crenças parecem diluir-se, como se não passassem de bonecos de açúcar, que criei apenas para me adoçar a existência, enquanto estava ocupada demais sonhando acordada.

As certezas se transformam em dúvidas, como se tudo o que eu sabia não passasse de um enredo destinado apenas a justificar a mim mesma.

O que fazia sentido fica pálido e borrado, como se o meu universo fosse apenas o produto de uma imaginação muito fértil, ou a lembrança de um sonho muito vivido, ou uma alucinação.

E tudo o que tenho é apenas a mim mesma, em toda a minha realidade nua e crua. Nem mais, nem menos. Sou eu me despindo para mim mesma, como nunca havia feito antes...

E, então, vem a dor... A dor de perceber que, talvez, essa solidão seja apenas reflexo de uma escolha, uma postura, uma atitude equivocada. A dor de saber que quem se afastou fui eu mesma, num movimento de defesa infantil e inconsciente, numa fuga assustada por medo de sofrer, ou de perder, ou de ser esquecida. A dor de me dar conta de que, o tempo todo, fugi apenas de mim mesma e que os outros apenas respeitaram a minha fuga, deixando-me fugir.

E a dor, às vezes, é tanta e tão grande, que faltam forças para sair do lugar, falta energia para fase-la parar ou mesmo para olhar para ela. Ela dói no corpo e na alma, dói por dentro e por fora, dói pesado e profundo.

Não pretendo anestesia-la, não pretendo também ignora-la. Não desta vez. Quero experimenta-la até a última gota, se possível, se eu suportar. Quero abraça-la para que ela se transforme em luz, a luz que ainda não tive coragem de buscar para me orientar nos meus caminhos.

Não quero apenas passar por ela, mas passar com ela, caminhar com ela, com partilhar seus segredos, conhecer sua história. A minha história.

No entanto, eu e ela estamos no mundo. E, estando no mundo, caminhamos com outras pessoas. Pessoas que estão em outros momentos, pessoas que têm outras necessidades, pessoas que só conseguem ver em mim o que já conhecem, sem conseguir, nem de leve, suspeitar do que também sou, e elas não conhecem e não conseguem perceber e compreender. E nem mesmo eu conheço bem...

E não há como explicar. Não há como colocar em palavras essa solidão que dói em meio a tanta gente, essa solidão plena que me faz sentir única como nunca me senti, essa solidão que me afasta de tudo e de todos e, ao mesmo tempo, quer desesperadamente estar em meio a outros que possam, ao menos, acolhe la, exactamente como ela é.

Não há como decifrar, não há como abrir o peito e mostrar o que está acontecendo bem ali dentro, onde a dor decidiu se instalar. Não há como mostrar o coração que dói, ao lado daquele que bate, pois só eu o sinto. Só eu sinto o que ele sente...

E, na nossa dor, somos cúmplices um do outro, nessa solidão que é triste, mas não é tristeza. Essa solidão que assusta, mas não é medo. Essa solidão que machuca, mas não deixa ferida. Uma solidão que é mais que estar sozinho, pois é solidão da alma. Entendi que para mim... aquele vestido tinha a ver com algo muito bom que vivi no passado... e que de alguma forma, por memórias equivocadas, não acreditava que poderia viver no presente... e foi com surpresa e alegria que me vi a pegar nele e noutras peças e por fim dei porque já não precisava mais ...

Comentários

  1. Nunca é só um vestido... e às vezes conseguir fazê-lo desaparecer é muito difícil...
    Todas as palavra têm um significado e uma pequena esperança na última sílaba. Um texto que se sente e de que maneira :)

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  2. esmagador...

    não acredito que tivesse sido um texto muito fácil de escrever...

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Revejo-me muito neste texto belo e "esmagador" - é mesmo essa a palavra, não há como fugir-. E acredito que muitos outros sintam o mesmo.

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