Degraus de madeira



Na manhã em que ele caiu pelas escadas, recebeu um forte aplauso de todos aqueles que acham que a queda só traz tristeza. A queda… e um novo acordar. A queda… e uma nova subida.

Na tarde em que ele pôs o pé esquerdo no primeiro degrau, ainda lhe doía o direito mas, mesmo assim lembrou-se da cara de todos aqueles que batem palma com palma ao mesmo tempo que acham que a queda só guarda mágoa. Recordou-se ainda de como é bom sentir a planta do pé a empurrar a planta que forra o degrau.

Na noite em que ele pôs o pé direito no segundo degrau, o pé esquerdo já morria de ansiedade para poder abusar da força da perna direita e redescobrir o terceiro. Suave toque, forte peso, grande vontade e “vamos a mais um degrau? ”

Na manhã em que ele caiu, ele sabia que cair só ia ser triste enquanto a queda durasse, porque à tarde já ia estar a iniciar a subida, e à noite já se ia lembrar sem grande esforço, como pôr um pé à frente do outro, acima do outro.

Já lá em cima, olhou para baixo, viu todos aqueles que acham que a queda só aspira melancolia e pensou “quantas vezes terei de cair pelas escadas para que eles percebam que após sacudir o pó da palma das mãos, a planta dos pés tem de ir agarrar mais madeira?”

Comentários

  1. Inês... sempre a meio caminho entre a prosa e a poesia...
    Tenho a sensação que todos os teus textos partem de uma só palavra, de que gostas muito, e depois desdobras com cuidado e engenho. Para além de contar histórias, fazes lindos colares de palavras....

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  2. “quantas vezes terei de cair pelas escadas para que eles percebam que após sacudir o pó da palma das mãos, a planta dos pés tem de ir agarrar mais madeira?” Esta está de antologia. :)
    Degrau a degrau sobes a escadaria das palavras, desafiando a gravidade com a leveza e a segurança da tua poesia serena. Excelente.
    Adorei a escolha de música. :)

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