Pobre Edward O. (Parte III de III)

Parte III: A Cidade Esfomeada

javascript:void(0)


Cena 1. Onde estás Edward O.?

Dia após dia após dia. Edward O. acordava cansado de vazio, podia confirmá-lo sempre que olhava ao espelho. Nada olhava de volta, a não ser um profundo e negro buraco, onde um dia esteve sua alma. Não havia surpresas, excitação ou alegria. Edward O. era um escravo da rotina, retido dentro de si mesmo, esquecido do ser que um dia nasceu de sua mãe, esquecido pelo mundo, perdido dentro de pesados maços de livros e processos. 

Onde estás tu, Edward, onde te escondeste? Ainda te posso ver ai, por de trás esse baço olhar, escondido pelos milhares de anos que te pesam nesses ombros descaídos, com as palavras presas nos lábios hirtos de pesar, agarrado a nada, esse nada que te enche o peito e te sufoca, dia após dia após dia.


Cena 2. A mancha de tinta

“Rapaz, tens aqui as facturas e os balancetes do primeiro trimestre. Confirma tudo, eu vou ali receber uma sobrinha que veio de fora, não quero ser interrompido, compreendes?”

Lá dentro, no salão, uma mãe trás o seu menino, talvez com 6 ou 7 anos, para comprar uns sapatos de cerimónia. Ela é austera como o seu negro traje de viúva, rígida como uma raiz de cerejeira, de olhar furtivo e aterrador. 
Segue com impaciência os movimentos do petiz, o seu braço tenso como uma mola, pronto a disparar um tabefe à primeira desculpa. Eis que surge o primeiro, mal o infeliz gaiato ousa coçar o nariz… Este não chora, grita ou sequer soluça. Apenas se encolhe e olha para o chão. Olha para os seus pés e suspira. 

Edward O. vê tudo, regista cada momento daquele triste quadro, toma nota, em sua mente, grava-o a ferro e compara. Compara com a memória da sua infância. Com a memória de sua mãe, austera como o seu negro traje de viúva, rígida como uma raiz de cerejeira e tão afável como um violento incêndio de Agosto. Será que o menino pelo menos conheceu o pai? Ou terá este também morrido na guerra, lá longe, para além do mar, demasiado longe para cantar baixinho e adormecer o bebé, aninhado em seu berço, a criar sonhos e memória frágeis e assustadas. 
Está frio, tanto frio… Será que o menino sabe que a sua mãe também tem frio, sozinha no seu espartano leito, sem o calor de seu homem, levado para longe em nome da pátria, muito para além da desolação e dor que esmaga este coração de mãe e o deixa seco e atrofiado, como sua alma. 

Não, o menino ainda não sabe o que lhe falta, ainda é feliz, pois acaba de esboçar um sorriso para sua mãe que por um fugaz momento, quase sorriu de volta. Quase. Edward O. franze a testa e tenta recordar-se da última vez que sorrira, mas é em vão…

Volta à sua secretária, ainda meio absorto pelo constrangedor episódio. A distracção leva-o a derrubar um tinteiro e a espalhar uma pequena mancha de azul metileno sobre o papel amarelecido. Num gesto rápido e quase atlético, consegue apanhar o tinteiro antes que haja mais estrago. Senta-se e retira os óculos para esfregar os olhos. Ainda meio atarantado, olha para a mancha, que alastra devagar. Retrai-se na cadeira e tenta focar a visão, abrindo com força os olhos e piscando vigorosamente. Quase diria que a mancha tenta mover-se na sua direcção, se aproxima para lhe dizer algo, para lhe sussurrar um segredo incontável. Parece até mudar de cor, tornando-se espessa e negra, com um formato cada vez mais improvável, parece quase… um anjo!

A tarde termina abrupta e veloz, o Sol aproxima-se do horizonte e é chegada a hora de ir para casa. Não há qualquer ilusão, apenas o peso de mais um dia que se aproxima do seu fim…


Cena 3. O Rio

A violência da cidade encandeia-nos, com gritos de âmbar e carmim, rasga por entre as muralhas do exílio que nos auto-impomos, esconde-se ao anoitecer e desperta os lobos do seu torpor. A noite cai e a cidade está esfomeada…

Edward O. lembra-se vagamente de um tempo em que as crianças brincavam no jardim, os mais velhos davam a mão aos mais pequenos para os ajudar a subir ao banco de pedra, os rapazes gritavam enquanto se digladiavam por uma bola de trapos e as meninas brincavam às mamãs com as suas bonecas de faces de porcelana. 
Parecia impossível que ali houvesse medo, raiva, luxúria ou simplesmente, falta de sentimentos de compaixão e solidariedade de uns para com os outros. Hoje é cada um por si, esfomeados, encadeados pelo brilho ruidoso do farol que os orienta em direcção ao lugar que lhes é reservado, assumindo a posição de eleitos, escravos e senhores, todos se empurram e esmagam quem se lhes atravessar.

O caminho é rigorosamente sempre o mesmo: das traseiras para a ruela, da ruela para a avenida, da avenida para o beco. Mão no bolso. Chave à porta. Átrio, escadas, nova porta. Nova chave. Casa. 
Mas hoje vai ser diferente…

Começou a chover ainda a tarde ia a meio e, meu Deus, como chovia! A ampla avenida parecia agora um largo e negro rio, impossível de atravessar, onde apenas alguns carros mais afoitos tentavam em desespero cruzar, quais seixos aplastrados a rodopiar saltitantes, ficavam pelo caminho, não conseguindo chegar à outra margem. 

Edward O. encolhia-se, quase desaparecendo dentro de seu sobretudo e escondido pelo chapéu, desaparecia de vista em direcção a um atalho, uma ruela estreita e sinuosa, ladeada por decrépitas roseiras e velhos choupos. Mas, há medida que subia a íngreme e soturna ruela, Edward O. sentiu que não estava só, alguém o seguia. 
Subitamente, sente no coração uma pontada de dor forte, como se fosse o gume de uma faca a penetrar lento em seu peito. É a ansiedade que se apodera de ti, oh pobre Edward O.


Cena 4. Um segundo

- Senhor, por favor, tem lume? -

Mas quem é que se lembraria de, a meio de um voraz temporal, perseguir Edward O. para lhe pedir lume? Olhando à sua volta, perscrutava a escuridão mas nada via. Sentia-se como uma erva sacudida pelo vento da tempestade, mantinha-se agarrado a si mesmo, mas ciente de que nada era perante tal força imensa. A força do destino.

- Por favor, tem lume? Pode ajudar-me?-

Edward O. virava-se lentamente para o homem atrás de si, vendo-o primeiro com o canto dos olhos, conseguia descortinar apara além da sua retina baça um enorme vulto negro que lhe apontava uma arma.

- Devagar agora. Dá-me a tua carteira e o que tiveres nos bolsos do sobretudo. Mexe-te homem, sem surpresas nem sobressaltos. Passa-me já tudo o que tens! –

Edward O. 39 anos. Sozinho no mundo. Contemplava o Anjo Negro que o viera libertar. Sentia algo vibrante e inquietante dentro de si. Era vida, vida que lhe escapava e agora pulsava forte! 

- Mas estás parvo ou quê? Mexe-te idiota, passa para cá essa carteira, tu não me desafies! Queres levar um tabefe? – 

Num acesso de clarividência e auto-conhecimento, Edward O. tomara uma decisão. Olhava fixamente o seu formidável oponente e, com o olhar iluminado de um inesperado fulgor, sorri e empurra-o contra a parede!

Num segundo, Edward estaria livre. Assustado e atónito, o pobre assaltante dispara inadvertidamente a arma ao embater contra a parede, mas à medida que o dedo pressiona o gatinho e a bala inicia a sua viagem rumo ao coração acelerado e em êxtase de Edward O., este sonha com tudo o que sempre desejara, com o homem que gostaria de ter sido, com a glória de ser honesto consigo mesmo e a certeza de que era o dono de seu próprio destino...

Edward O. 39 anos. Jaz morto no chão de uma ruela. Qual cordeiro sacrificado aos lobos, a cidade acaba de o devorar. À medida que o sangue escorre, arrastado pela chuva em direcção ao grande rio que alaga a grandiosa avenida, a sua alma desprende-se de um corpo gasto e vazio. 

Finalmente, é livre…

Comentários

  1. Cada um de nós com um bocadinho de Edward O.
    Que palavras usar? Tenho dificuldade... a tua escrita é mesmo um desafio gratificante para quem está a ler. Parabéns Nuno :)

    ResponderEliminar
  2. Edward O. vive os dias entre o vazio e a revolta, entre sonho e a realidade. Gostei da comparação entre o universo interior e o universo exterior do personagem. Julguei que ias salvá-lo à última hora. Mas teria sido demasiado óbvio... :)
    Muito bem escrito, muito cerebral, prende-nos até à ultima frase este personagem quase kafquiano. Só me fica uma dúvida: a morte seria mesmo a única libertação possível para o pobre Ed? Parabéns, mestre. Está cinco estrelas.

    ResponderEliminar
  3. "Don't tell me the moon is rising! Show me the glint of light on broken glass", dizia o Chekhov. Foi o que fizeste. Vi, senti, voltei atrás para reencaixar as coisas no lugar ou fruir mais uma vez as palavras de algum momento.... O meu favorito até agora...

    Tu, a Cristina, a Inês, a Sandra, o João.... Começo a ficar sem imaginação para elogios... ;-)

    ResponderEliminar
  4. "When the routine bites hard and ambitions are low, And the resentment rides high but emotions won't grow, And we're changing our ways, taking different roads..." (IC)
    Then death, death will shake you from life, again...
    This is my adaptation of an historical lyric for a great story.
    Congratulations brother!
    Excellent work!
    (but like EarWorm i may ask: "mother did it need to be so high?" (RW))

    ResponderEliminar
  5. Obrigado a todos pelos gentis, entusiasmantes e exagerados comentários :)

    CC e AO, não me foi dado a escolher o destino de Edward O., a minha missão foi contar o que se passou, e o que se passou foi tal como descrevi ;)

    ResponderEliminar
  6. Parabéns!! muito bom Nuno, gosto sp tanto de te ler...:))

    ResponderEliminar
  7. Só posso dizer que gostei muito de ler.
    Desculpa a falta de imaginação ou capacidade para comentar o teu conto e optar por deixar um comentário ao estilo de AO.

    "And only the dead go free
    So...please hold my hand
    As we blundre through the maze
    And remember
    Nothing can grow without rain
    (Thunder)"
    (RW)
    http://www.youtube.com/watch?v=aQoZf04pEjc
    ;-)

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

#LoveLetter_AITD