O sorriso do rei



O esqueleto que passeia pelo campo de concentração, tem olhos, tinha olhos que viam acima e por cima das montanhas que existiam no seu dedo mindinho do pé esquerdo. Dói ter de transportar tantas rochas, terra, plantas, animais, poluição, em cima de um só dedo.
O esqueleto coxo que caminha pelo campo de concentração, tinha na mão direita e preso ao dedo anelar um iô-iô que subia e descia e marcava o ritmo dos seus ciclos respiratórios, os que sobraram dos seus pulmões fantasma, mas que ainda respiravam porque há coisas que nos atormentam para o resto da vida mesmo depois de já não fazerem parte dela fisicamente.

O esqueleto que deambula pelo campo de concentração adora bolas de sabão e gostava de as tomar ao pequeno-almoço acompanhadas por algodão doce barrado com as letras dos cartazes que anunciavam que o circo vinha a chegar à aldeia.
O esqueleto trapezista que sofre de aerofobia, gostava de jogar xadrez nas pedras da calçada que estavam no chão da biblioteca e era aí que via a dama a fugir da torre com o bispo a cavalo, deixando o rei amargurado a comer os peões e a beber sumo aos quadradinhos pretos e brancos.

O esqueleto coxo, trapezista e rei tem o sonho de ser aquático para nadar em mares de prata e desta forma sentir que os ossos já não pesam tanto, nem as montanhas, nem o iô-iô. Talvez amanhã haja uma grande precipitação atmosférica e a chuva ácida encha as paredes que terminam em arame farpado. Talvez amanhã o esqueleto esteja a tomar o pequeno-almoço debaixo de água no campo de concentração ao mesmo tempo que se concentra naquela palavra esquecida. Aquela palavra que o rei sentia pela dama. Aquela palavra que nasce naquele órgão que ele já não tem, mas que em silêncio ainda se ouvem os seus batimentos. Nos dias em que recorda a palavra quer chorar mas, o esqueleto que vagueia pelo campo de concentração, reparou que está sempre a sorrir. É o pior preço que se pode pagar por ser esqueleto… sorrir para toda a eternidade sem poder deixar cair uma única lágrima.
Ele sorri para mostrar o desgosto que sente por a ter perdido. Ele não chora para poder dizer que a ama.

Comentários

  1. um "Inês Isabel" genuíno, fantástico, como sempre ;)

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  2. Sou tua fã.E este teu texto está pejado de imagens claras, as personagens estão vivas, em movimento e eu vejo-as. Parabéns por esse talento. Bjs

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  3. Já não é (ines)perado que teu texto seja fabuloso. É uma certeza.

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  4. Sensibilidade é uma qualidade essencial para quem deseja viver a vida em toda a sua plenitude.A tua escrita tem a sensibilidade totalmente desperta!! adorei:))

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  5. Tenho a sensação que se quisesses conseguirias descrever ao pormenor o teu interior. Tens essa qualidade de poucos. Que bom ler-te.

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