A Grande Devoradora: A Morte da Inocência em 4 actos



Acto I: A Guerra


Há uma guerra a decorrer dentro de cada um de nós. É filha do medo e da ganância, foi gerada no seio da confusão, enquanto esta era violentamente penetrada pelo horror e a mesquinhez. Esta guerra não tem fim, vive e prospera nos corações corruptos, banqueteia-se dos pensamentos de engano e traição, da estultícia, enrola-se connosco em sevícias decadentes, na busca da vã promessa de compensação orgástica. Nos meandros dos nossos pesadelos, esta guerra ganha força, empurra-nos para o abismo das nossas paixões e embala-nos na cantilena da mãe, suaves e ignorantes, adormecidos entre estilhaços de nós próprios, fragmentados pelo devir infinito que nos leva a construir os nossos próprios abismos, os nossos sarcófagos de pedra, enterrados vivos entre o clamor da batalha que se trava na nossa mente, alma e coração. Sim, esta guerra não tem limites, não conhece tréguas e jamais poupa os vencidos. Nesta guerra só há vencidos, derrotados, generais depostos dos seus cargos vazios, corpos infinitos de soldados mortos, espalhados por entre campos sangrentos esquecidos, arrumados num canto escuro para que ninguém neles tropece no meio da corrida frenética para chegar ao topo da trituradora. Somos nós os soldados, as pernas decepadas para não mais correrem, os olhos vazios de esperança, o ódio destilado de lamas ensanguentadas e putrefactas, somos o riso medonho da loucura que nos acena um lenço branco de tréguas, enquanto os canhões rugem ferozes por entre a noite sem rumo, sem porto seguro onde lançar amarras, antes que a corrente nos arraste para longe, longe daquele momento solene que nos viu nascer, puros, inocentes, sem saber da guerra que nos esperava.

Há uma guerra a decorrer dentro de cada um de nós. E dia após dia, estamos a perdê-la. Porque somos fracos, corruptos, débeis, ou simplesmente ausentes. Não acreditamos que a guerra grassa sem travão, avança sem temor rompendo as hostes autistas que a ignoram. Não a reconhecemos no olhar dos que privam connosco, trabalham ao nosso lado, dormem na nossa cama, comem à nossa mesa, marcham lado a lado nas fileiras de ilustres desconhecidos, passo a passo, em direcção ao momento final. O momento em que tudo aquilo que conheceremos serão os cadáveres e prisioneiros que ficam para trás, as memórias de alegria e prazer, embrulhadas no jornal da edição de ontem, onde em vão procurámos notícias do fim desta guerra sem fim. Por fim, adormecemos, entre rajadas de balas que iluminam a madrugada, entre o rufar dos tambores, entre as vozes dos desesperados que imploram por um pouco de água que lhes mate a sede que aumenta desmesuradamente, à medida que todos descemos mais um degrau rumo ao nosso inferno colectivo.


Há uma guerra a decorrer dentro de cada um de nós. E caberá a cada um de nós decidir se queremos ser vítimas, mercenários ou testemunhas de todo o mal que fazemos a nós próprios.

Nesta guerra, não há vitória possível. Não há fim à vista. Não há saída. Não há saída…

Comentários

  1. O eterno conflito interior do indivíduo. Muito ALONE in the DARK. Gostei muito, Nuno.

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  2. "Nesta guerra, não há vitória possível. Não há fim à vista. Não há saída. Não há saída…"
    Gosto destes finais fechados, que não nos deixam a mínima pista sobre o que vai acontecer a seguir...

    À espera....

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