O condomínio




É um simples prédio de subúrbio. Sem cor, sem varandas, sem elevador e sem porteira. Vulgar. Dois andares, paredes texturadas da Robbialac, espadas de são jorge em vasos de plástico e escadaria ladrilhada que todas as terças-feiras tresanda a limpeza e amónia.
Igualmente comum é o hábito que os residentes têm de pendurar placas de barro vermelho com provérbios na sua porta exterior. Estas jóias da sabedoria popular em suporte argiloso, colocadas um pouco acima do óculo da porta acabam por ter a mesma função que o dito, mas de forma invertida. Com a lente vê-se de dentro para fora, com a placa vislumbra-se algo de fora para dentro.
No rés-do-chão esquerdo do “Grão a grão enche a galinha o papo” mora a Dona Maria. A placa foi comprada há cinco anos em Porches quando, nas bodas de prata, finalmente conseguiu convencer o esposo a passar férias no Algarve em vez de ir à terra. A festa durou quatro dias, até que as saudades dos caracóis no café da igreja falaram mais alto. Foi nessa altura que a Dona Maria ficou viúva, num desditoso acidente com uma botija de gás mal fechada e um maçarico. Não fosse a maldita sinusite crónica do esposo, que praticamente não tinha olfacto... Não se aproveitou nada da casa de família. Passado o tradicional período de luto, a prendada dona Maria, sem filhos e sem netos, decidiu reformar o seu passado de mulher honesta... Literalmente. Os tapetes que fazia nos tempos livres foram trocados pelo tráfico de anfetaminas, ecstasy, ice... mas se lhe dessem tempo arranjava qualquer sintética. Outras tramas, outras teias. O emprego de auxiliar educativa foi providencial e agora controlava todas as escolas da zona em conjunto com a Dona Imaculada da básica nº 3 e a Dona Pureza da secundária do bairro social. O seu papo estava, efectivamente, cheio. E pronto para um reforma confortável.... à beira-mar.
Na porta do rés-do-chão direito está colada uma placa coerente com o facto de ser um piso térreo: “Quem a alto sobe, de alto cai.” A escolha é igualmente óbvia para quem conhece a vida da dona Graça, uma rica herdeira rural que se vê confinada àquela casinha devido aos maus investimentos do marido. Mas que podia ela fazer... o homem pensava em grande. Tão altas eram as montanhas que sonhava quão fundos eram os fossos reais em que tombava. “Quando surge uma oportunidade há que agarrá-la”, dizia. Nunca conseguiu agarrar o que quer que fosse. Mãos de manteiga. Também não conseguiu agarrar-se quando soprou aquela súbita rajada de vento no alto do miradouro enquanto se debruçava para ver melhor a paisagem. Já passaram quatro anos desde o improvável infortúnio meteorológico. Como o tempo voa. O mesmo, desgraçadamente, não se pode dizer do finado. A única que agarrou alguma coisa foi a dona Graça pois conseguiu salvar os magros restos da fortuna e garantir um tecto sobre a sua cabeça.
No primeiro direito mora a jovem Dona Ângela, que escolheu a placa numa daquelas casas de artesanato moderno fabricado em série. “O que não tem remédio, remediado está”. Foi este o sábio ditado que valeu à pobre rapariga há três anos atrás, na altura do precoce desaparecimento do seu companheiro. Era um bonito rapaz, mas tão viciado em futebol e jogos de computador que passava mais noites com a playstation do que com ela. As vezes que lhe dissera para prender aquela estante à parede. Só mais um jogo, só mais um jogo... Dizem que o rapaz tinha uma boa cabeça mas, infelizmente, não resistiu ao impacto. O destino prega-nos cada partida, hoje estamos aqui e amanhã não sabemos, não somos nada.... E nada aplica-se bem ao defunto... mas tinha um bom seguro de vida e há muita gente interessada em jogos no e-bay.
O primeiro e segundo esquerdo são o lar duplex da Dona Celeste. Herdou as duas fracções do marido e da sogra, uma mulher cujo amor maternal era tal que nunca conseguiu separar-se do filho. Era um sentimento tão abençoado que até a morte preferiu levá-los juntos, há dois anos. “Deus ajuda quem madruga” faz sentido para uma mulher que toda a vida saiu da cama às três da madrugada para fazer croquetes, empadas, pastéis, pataniscas e toda a espécie de salgados para vender. O marido não podia ajudar porque a sua sobriedade durava até às nove horas de amanhã, hora de abertura do Lidl com o seu acessível stock de vinho de pacote. Com grande empenho, a zelosa Dona Celeste passara os últimos anos a aprimorar uma essência concentrada de camarão que fazia com que o recheio rendesse o dobro. A sogra, que estava acamada, queixava-se do cheiro sempre que ela preparava aquele potente caldo, tal a sua alergia a estes crustáceos. Ainda por cima era hereditária. Não fosse a elevada alcoolemia e o marido nunca teria trocado os rissóis de peixe pelos funestos petiscos que o levaram a ele e à progenitora para o paraíso.... celeste. Por ironia do destino, era aquele mesmo caldo que agora dava algum conforto à casa da viúva ...e à do inspector da polícia, com quem montou um discreto negócio na internet. Ele arranja os clientes e ela trata da especialidade gastronómica. Cinquenta por cento cada.
No segundo direito não mora ninguém. Até há um ano atrás habitou lá um jovem poeta que se recusava a colocar a placa de barro na porta. Ofereceram-lhe várias:“Junta-te aos bons, serás como eles”, “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura” e, por fim, “Quem semeia ventos colhe tempestades”. Em vez disso, aquelacriatura bizarra colava papéis com poemas rabiscados a lápis. Todos os dias um diferente, todos os dias aquelas lengalengas que ninguém entendia. Morreu, inesperadamente, numa terça-feira, numa desagradável fatalidade envolvendo as escadas e um sabão Clarim. Certamente um erro da mulher a dias. Um desperdício de bom sabão, suave e cheiroso, que foi confiscado pela polícia. E claro, pronto.... o rapaz ainda era muito novo, estava na força da vida, tinha um grande futuro pela frente... O tímido vizinho foi chorado e carpido mas a verdade é aquele comportamento excêntrico estragava a harmonia do condomínio.
Harmonia. Sim, é esta a palavra. Ninguém pode negar que reina a concórdia naquele pacato prédio de subúrbio, mergulhado na penumbra das lâmpadas incandescentes e na sua placidez de gineceu. E entre as senhoras que lá moram a vida passa tranquilamente, na serenidade branca das rendas estendidas ao sol, na brandura do aroma de verbena nas gavetas, no sossego das conversas partilhadas com uma chávena de chá ... Enfim, na candura das pequenas coisas que dão sabor à vida e aliviam o fardo da solidão.

Comentários

  1. delicioso, divertidíssimo e muito inteligente!

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  2. "A arte não é a representação de uma coisa bela, mas a bela representação de uma coisa." Neste caso, de um texto :)

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  3. um texto muito inteligente, cheio de mulheres matreiras e dos fantasmas dos seus falecidos, e das suas bagagens pesadas. Um prédio cheio de cheiros, recantos de sombra e gente que quase nos respira ao ouvido. Adorei, excelente.

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