Fogo t'abrasse




Isto começou à meia noite numa cidade barulhenta e suja, com casas de pilares em decadência misturadas com campos de ervas sem nome de socalcos traiçoeiros, e hastes de bambu ultrapassando a altura de um homem.
Nunca soube o nome da cidade ou a etnia do seu povo, nem recordo as suas feições, excepto três.
Andava à deriva quando elas me apareceram. O que faz aqui? Não sei ,nem sei porque estou aqui. Estamos de férias, disse a mais velha, este é o lugar ideal para usar sabão de alcatrão e tirar o fedor dos sovacos. E riu-se. A mais nova disse eu quero goma de macaxera branca, por causa da sífilis, e riu-se perdidamente.
A mãe estava vestida a rigor, com um comprido vestido vermelho com lantejoulas e uma coroa de diamantes na cabeça loira. A mais nova e que também era loira, vestia um comprido casaco. É de marta, sabes? Toquei nas costas, senti a suavidade do animal.
Queres ir connosco à tasca? Aqui só há tascas, deves saber. Sorriu-me ironicamente. Anda, é lá que ele te espera , tens que vir senão somos culpadas.
Arrastei-me no vestido rasgado das ravinas da cidade, segui-as, elas riam por entre a multidão e na tasca lá estava ele, duro, alto, sisudo. Quem é? É o realizador, o teu realizador.
Mas não o conheço! Nem ele a ti, mas escolheu-te. Porquê? Para lhe pertenceres.
E ele diz, anda, já, quero possuir-te, já, agora mesmo. A mãe diz foge! Corro pelos matagais, tropeço nas pedras, corro, corro até ao centro da cidade.
Há um filme a passar, a multidão delirante assiste, não há telas no filme,ele projecta-se no ar, em todo o horizonte como a lua. Ouvem-se gritos bestseller! Bestseller!
Fujo,entro numa casa sem janelas nem portas, apenas um corredor imenso, chego ao fim, enclausurada, e as mãos dele apertam-me, o seu corpo aprisiona-me,e diz é agora, eu tinha-te dito, é agora, é já.
A respiração acelerada, o medo, e o desejo que me invade, irracional, como será, que me dará, que quer de mim, como será ?

Espere, eu vou, eu quero-o. Ele parou, tenso, sério, a imagem do erotismo puro, do desejo puro, da loucura que me transportou ao corpo dele e nele me desfiz. E depois, disse-me, agora vai, eu encontro-te por aí.
Olhei-o, pareceu-me ver ternura nos olhos duros.

Encontrei a mãe e a filha a beber shots. Já nos curámos, sabes? Diz a mais nova. (Creio que tive pena.) Quando o verei?
A mãe diz-me, já reparaste que estou vestida de cor de rosa com pompons, e vou ser majorette?

E riu-se, cuspindo para o chão.

A filha diz-me, já reparaste que já não uso o casaco de marta? Agora ando nua.
Toquei-lhe nas costas, senti a pele do animal. E disse-lhe, tens agora que curar a pele do acne e das espinhas.

Nunca mais as vi, mas também nunca mais voltei à cidade. Já não sei onde fica. Mas ele sabe.

Comentários

  1. Sempre fantástica na escrita, Fernanda Guadalupe.

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  2. Lazuli... woow, muito bom!
    Ainda bem que voltas sempre a esta cidade "alone" e deixas cá os teus textos :)

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  3. Inês, comparados com os teus....
    ADORO a tua escrita!!

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