A Grande Devoradora: A Morte da Inocência em 4 actos (Acto IV)

Acto IV: Paraíso Perdido




Avançamos hesitantes. Arrastamos connosco as feridas de guerra que, para sempre, nos marcarão quem verdadeiramente somos, soldados ou generais, todos fazemos parte do rol de testemunhas que um dia assistirá ao derradeiro sonho do Homem. E porque sonhamos, sabemos, sabemos que a obra ficará incompleta, que pelo caminho deixaremos estilhaços de esperanças inférteis que nada irão gerar a não ser um enorme manto branco vazio de significância ou actos de glória. Não há glória no inferno colectivo em que optámos viver, não há plenitude da alma quando se soçobra por entre mentiras e a pequena mesquinhez do quotidiano, não há êxtase maior quando a exultação é a do prazer menor do momento, da oportunidade, da violência exalada pelos poros de uma sociedade doente, decadente, diferente daquilo que foi o sonho das eras distantes, quando a Terra foi semeada por deuses e astronautas, qual Jardim do Éden, decorado de fantasia e benevolência, uma esfera azul e verde a pairar sobre o firmamento, para deleite do Criador, a sua Opus Magna. Mas o verde tornou-se negro e o azul vermelho, à medida que a mente criminal e egoísta da criação poluía de modo insensato, incauto e hedonista a obra dos mestres, ao avançar pelo Jardim, tornando-o vazio à sua passagem, branco aos olhos de quem derrama eternamente as suas lágrimas de pesar e desgosto. Contudo, avançamos, rumo a algo que, aqui dentro, sempre nos soou a familiar, embora o medo nos faça constantemente olhar para trás, o medo que a grande devoradora nos apanhe e nos faça reféns de sua espiral quebrada para todo o sempre…


A morte da inocência tornou-se indelével nas páginas da História, marcada a fogo no Livro dos Dias, tingindo de vermelho a Serpente da Árvore da Sabedoria, deu cor ao fogo que nos consome por dentro, o fogo da guerra incessante, o fogo da luz branca que nos cega, o fogo da paixão e da luxúria que insistimos em arrumar no mesmo coração onde guardamos o amor. Pois estas são imiscíveis, são energias contraditórias mas complementares, sem contudo nunca se misturarem, como sangue e fogo e ar e luz.

Algures em nós, dentro de um compartimento secreto, onde a guerra não chega, onde a luz é de todas as cores, onde o sangue flui livre e nutre com vigor a nossa prima essência… algures ai está a entrada de volta para o Jardim, de volta ao seio da Mãe, onde o nosso tecido se une a um desígnio maior, de compreensão, humildade, religação (tantas vezes mal interpretada e denominada de 'religião') com a rede de vida que nos suporta, cooperação entre mentes empenhadas e protecção dos mais frágeis. Redescobrimos que em cada um de nós existe um pouco de paz, redescobrir em cada um a arte da cor e a união do sangue entre a grande família do Jardim.


Quero esse sonho. Quero sentir-me assim, antes de adormecer, por fim. Sentir que um dia, para lá do sonho, cada um de nós poderá recuperar a sua inocência ao deparar-se com as portas do Paraíso Perdido.

Comentários

  1. EXCELENTE!!
    Nostalgia.
    Nostalgia do futuro, de um futuro anunciado, de uma futuro prometido, no presente que apenas nós poderemos e deveremos viver, entregando-nos a cada instante, como se fora o derradeiro, como sendo o mais importante, o ÚNICO.
    Há aqui palavras que perpassam sonhos e sonhos que trespassam utopias. Mas é de utopias que também alicerçamos os ideiais, os magníficos ideais que não devemos olvidar e que tudo tentaremos para os tornar «reais», reais até neste mundo tão crú e reles que os homens e mulheres caídos amordaçaram e amesquinharam, mas, contudo, ainda belo, tão belo que nem a nossa imaginação o consegue descrever.
    Obrigado, Nuno, por mais um momento no tempo e no espaço que tem que ser lido e imaginado de modo intemporal, além de qualquer local humanamente conspurcado.
    Desculpa a referência mas tem muito a ver com um livro que tenho por publicar e que sei, estou certo, que será estranho para algumas pessoas que tiverem a incómodo de o ler (se vier a ser editado); chama-se «Breve história... entre o inferno e o paraíso». Fala da história, em 3 actos, de uma qualquer Humanidade (passado, presente e futuro) e tem uns extras, que abordam o sonho, a utopia, o inferno, o paraíso... tudo escrito na forma de poesia... Não era suposto falar de nada disto aqui, mas o teu fantástico conto encorajou-me, impeliu-me a isso. Há muito mais a ligar-nos do que imaginamos e o que supostamente nos separa não passa de ilusões, diáfanos véus que se nos apresentam como pesadas, frias e medonhas palas metálicas... Como diria, p.e., Carl Sagan, por isso mesmo, estamos condenados a cooperar :)
    O Paraíso fica mesmo aqui ao «lado», basta atravessarmos o lodo (repare-se que lama e alma se escrevem com as mesmas letras... e tão miseravelmente se utilizam pelos mais básicos mortais), enfrentar o nosso demónio privado, desafiar o inferno em que vivemos e seguir a luz que em nós jamais morre e nunca morrerá... porque não nos pertence ;-) Nós é que Somos uma tímida imagem do seu indescritível esplendor!

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  2. Quando a noite se vai e a madrugada se espairece, ainda estou contigo.
    Quando o dia nasce e o sol te segue, ainda estou contigo.
    Quando o vazio se instala em ti, ainda estou contigo.
    Quando a dor estremece, ainda estou contigo.
    Quando encontrares o paraíso, estarei contigo.
    E Ele dirá, que estais vós aqui a fazer?
    E responderemos: Porque nos chamaste, na penumbra dos tempos.

    Não vale a pena comentar mais nada. Tu sabes, e eu sei.

    Fernanda Guadalupe

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  3. "Algures em nós, dentro de um compartimento secreto, onde a guerra não chega, onde a luz é de todas as cores, onde o sangue flui livre e nutre com vigor a nossa prima essência… algures ai está a entrada de volta para o Jardim, de volta ao seio da Mãe, onde o nosso tecido se une a um desígnio maior, de compreensão, humildade, religação (tantas vezes mal interpretada e denominada de 'religião') com a rede de vida que nos suporta, cooperação entre mentes empenhadas e protecção dos mais frágeis. Redescobrimos que em cada um de nós existe um pouco de paz, redescobrir em cada um a arte da cor e a união do sangue entre a grande família do Jardim."

    Uma "imagem" vale por mil palavras, a imagem está cá. Escreveste-a.
    Gosto muito, terei de ler os anteriores capítulos, como SEMPRE.

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  4. "A Guerra"
    "A Aurora Branca"
    "Sangue"
    "Paraíso Perdido"

    Nuno, ... os teus textos foram encontrados, e mesmo com guerras, auroras, sangue e paraísos, nada consegue destruir a fortaleza das tuas palavras. Forte, muito.

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  5. Nuno tu deixas me sem palavras...é tão forte a tua escrita,sinto a no fundo da minha alma é como entrar num estado mediativo!!!obrigado Nuno Oliveira:)))

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