domingo, 5 de junho de 2011

Arquétipo





No princípio Deus criou os céus e as trevas e as águas e o fogo e as plantas e os bichos. E viu Deus que era bom. E foi a manhã de um dia eterno. E disse Deus: façamos o homem e que domine sobre tudo o que se mova sobre o universo. E lavou o mundo, expurgando-o para receber o ser sublime.

E porque Deus, sendo fêmea, só sabe gerar dentro de si, olhou o seu corpo gasto pelas gestações. E porque Deus, sendo imperfeito, não conhece a substância do divino, olhou as deformidades da matéria. E porque Deus, sendo finito, recebe a morte na taça da criação, olhou os elementos e rasgou uma vez mais o seu manto.

E disse: bebamos as águas, que são fluido da vida, para que o eleito seja transparente e tenha o ímpeto das correntes. E, depois de beber, foi Deus às florestas e cheirou a terra.

Mas o primeiro homem era informe e sujo. E ao tocar-lhe Deus sentiu os vértices do caos. E viu Deus que era mau. Tirou-lhe a vida e guardou-a entre os ramos dos seus cabelos. Beijou-o, deitou-o no regaço, enterrou-o e carpiu.

E disse: beijemos as trevas, de que se alimenta a luz, para que o eleito domine o ritmo das forças. E depois do beijo, foi Deus ao mar e provou o sal.

Mas o segundo homem era triste e inerte. E ao tocar-lhe Deus sentiu as pedras do sacrifício. E viu Deus que era mau. Tirou-lhe a vida e guardou-a dentro das lágrimas dos seus olhos. Acaricou-o, queimou-o, teceu um véu com as cinzas e chorou.

E disse: escutemos o fogo, que tem em si o fim e o princípio, para que o eleito conheça o silêncio e a purificação. E, depois de escutar, foi Deus às cavernas negras e contemplou os fios de luz.

Mas o terceiro homem era irado e vingativo. E ao tocar-lhe Deus sentiu um êxtase de lâminas. E viu Deus que era mau. Tirou-lhe a vida e esfregou-a nos lanhos da sua pele. Lambeu-o, afogou-o, banhou-se e sangrou.

E disse: comamos os bichos e as ervas, que são estéreis uns sem os outros, para para que o eleito saiba procurar além de si. E, depois de comer, foi Deus aos desertos ardentes e caminhou.

Mas o quarto homem era lúbrico e rude. E ao tocar-lhe Deus sentiu o acre da escuridão. E viu Deus que era mau. Tirou-lhe a vida e guardou-a no pó dos seus ossos. Chegou-o junto ao seu seio e alimentou-o com o branco leite negro veneno, esperou que secasse, varreu o mundo com ventos e gritou de dor.

Mas a agonia cedeu à lucidez. E disse: toquemos o céu que é o inverso da terra criada.

E subiu Deus às montanhas mas já não conseguiu levantar o braço exangue. Sem nada nas mãos, moldou o eleito com o vazio e com a sua própria alma. E uma criatura de barro surgiu-lhe no ventre, quase indistinta da sua carne.

Empurrado pelas vozes dos irmãos mortos guardados no corpo da mãe, o quinto homem rasgou-a antes de tempo. E para escapar à cegueira que já o agarrava e esmagava, deixou-se cair. E cresceram-lhe asas negras. E foi a tarde de um dia eterno.

E Deus desceu da montanha. E perseguiu o filho maldito. E viu que encontrara a música do tempo. E que procurara a poesia do horizonte. E que inventara palavras para todas as obras. E que escondera as imperfeições da criação com as penas das suas asas.

E ao tocar-lhe Deus sentiu o fel da loucura e do amor. E viu que era mau. Mas retirou a sua própria vida e guardou-a no coração do caído.

E na derradeira hora, Deus buscou a sua alma mais uma vez e criou outro ser, a mulher. E fê-la à sua imagem. Cada traço, cada veia, cada entrega, cada dor. E disse: uni-vos, frutificai-vos e multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a. E descansou nos braços dos seus filhos. E foi a noite de um dia eterno.

7 comentários:

  1. Gostei muito da escolha das tuas palavras ao longo do texto (principalmente aquelas que surgem depois de Deus ver que era mau). São palavras de manhãs e noites de dias eternos, como referes.
    "E viu Deus que era bom", uma única vez... muito interessante, Helena. Um texto recheado de significados.

    ResponderEliminar
  2. Divinal!

    Fiquei a tremer por dentro... mesmo muito bom
    ritmo, palavras, sons, textura... d'outro mundo!

    ResponderEliminar
  3. É por causa de textos como este que eu fico zangada por não publicares mais. Genesis segundo Helena, uma re-interpretação absolutamente soberba e sem mácula, como se quer qualquer texto divino e sobre o divino.
    Gosto, e faz todo o sentido, que aqui Deus seja fêmea, que das suas gestações não tenham surgido a perfeição. Gosto da angústia, da tentativa e erro deste Deus, de que o derradeiro dos homens tenha sido "empurrado pelas vozes dos irmãos mortos guardados no corpo da mãe, rasgando-a antes de tempo." Um texto perfeito sobre a condição humana, em tudo o que tem de divino e maldito.
    Genial, adorei. E quero mais disto, se faz favor.

    ResponderEliminar
  4. Fabuloso o texto, fabulosas as palavras...e Deus é fêmea, uma polémica que aqui não importa, faz todo o sentido no texto! Adorei!

    ResponderEliminar
  5. Helena, não sei comentar este texto, mas não posso deixar de dizer (sabendo que não conseguirei encontrar palavras para demonstrar) como o achei impressionante, arrebatador em tudo, no conteúdo e na forma (ficou-me marcado no peito e na memória).
    Pensei basear o comentário na minha interpretação sobre tuas palavras, mas na verdade é irrelevante, insuficiente, insignificante. Quando palavras sobre o divino se tornam divinais apenas podemos aplaudir de pé, agradecer, pedir que regresses e voltar a aplaudir de pé (e voltar a aplaudir de pé).

    ResponderEliminar
  6. Apoteótico nas palavras com uma das musicas minhas preferidas.

    Inquietante, agradável...reforça a coragem que necessitamos para respirar nalguns dias de solidão.

    muito bom. (E concordo com JGMefisto, apenas sou muito faladora:-))

    ResponderEliminar