Cinzas




Na fatia de tempo que sucede o último suspiro e a queda na noite,
As irmãs siamesas
Impulsionaram-se em música.
Com a ponta dos dedos, extensão do coração, e as cordas da viola, extensão das da voz
Porque não suportavam a maresia.


Na véspera do solstício,
O vinil
Tocava chorinho chorando
E abrindo os olhos do mundo com a sua nudez
Porque a voz assim o ordenava.

Na quarta-feira de cinzas,
O velho preto com uma pala no olho direito e guitarra nas mãos
Sibilou como um réptil ao ouvido da presa
Como quem cauteriza a sua própria ferida
Porque tinha necessidade de vestir-se em sonâncias.

No momento em que a lua atordoa os telhados,
A amante morta
Inventou um país sem rios
Com os seus dedos de aranha
Porque não podia ceder à perda de memória.
Porque o amor que encontrou ao virar da esquina perdura na memória, na voz, nos gestos.
Marcado na alma e preso na palma da mão.

Todos os dias,
O homem que desenha mapas

Come pétalas de rosas
No ponto continuo costurado entre ele e a agulha
Porque anseia estar só e desligar o caos que a todos nos une.


E eu
Escrevo uma poema
Sentado no chão encostado ao segundo poste, depois das escadas da velha casa com faixa azul, onde te pedi um fio de cabelo.

Comentários

  1. Uma galeria de personagens dignas de um filme do Tim Burton. Adorei. :)

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  2. Um poema que nos transporta... sem ponto de partida ou chegada :)

    Boas-vindas aO homem de vinil e a amante de mãos siamesas

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  3. Um poema heterodoxo, em que a substância do "eu" poético se perde nos "outros".... :) Muito interessante. Esperamos mais textos homem de vinil e amante de maõs siamesas.

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  4. O nome do autor um título de poema. o poema uma canção. belo.

    Anamar
    (não consigo comentar com o meu link:-(

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