Germes



Esfregou pela quinta vez o prato onde a cunhada comera o magro almoço que lhe apresentou nesse domingo, até ver nele o seu reflexo, as mãos vermelhas gretadas de higiene e raiva. Esfregou e nunca lhe parecia suficiente para remover todos os germes lá depositados pela brasileira feliz que o irmão escolhera para lhe infectar a vida de tropicalidades e sabe-se lá que espécies desconhecidas e fatais de micróbios comedores de carne.

- Você é muito fechada, Luísa. Se abre mais para a vida...

Abrir... Nunca gostou do verbo. Sobrevalorizado. A cunhada era uma deslumbrada com tudo, como se a vida fosse uma eterna festa de pátio com violeiros improvisados e churrasquinho a grelhar indefinidamente pela tarde fora. Mas Luísa sempre desprezou a futilidade imbecil da felicidade alheia, o deboche insultuoso do riso.

A luz de Inverno entrava pelas janelas da sala, tomando terreno timidamente pela casa fora, em câmara lenta, coada pelas cortinas de renda que mãe fizera há 30 anos, no tempo em que eram todos vivos e falantes; um pó de ouro que ela não permitiria a flutuar e a cair como neve sobre as figuras submergidas de uma redoma de vidro. O silêncio como uma presença física. Uma casa hoje convenientemente à sua imagem fria e asséptica.

Nas prateleiras, os álbuns de fotografias que todos os domingos, sentada no mesmo cadeirão, a mãe lhe pedia para rever, onde todos os elementos da família permaneciam a salvo, congelados no tempo, as crianças sempre crianças, ainda que agora se aproximassem dos 30 a passos velozes. Era assim que elas gostavam de se lembrar deles, memórias preservadas em âmbar, petrificadas cada qual no lugar a que pertenciam, como os bibelôs, as recordações de Viana, a Última Ceia desbotada por cima da mesa da sala, a colecção de selos do papá e o exemplar da “Cidade de Deus” de St.º Agostinho sobre a mesinha de cabeceira, do lado onde agora dormia o seu fantasma.

Esfregou pela sexta vez o prato mas a sombra da cunhada teimava em colar-se a ele e encardi-lo de vulgaridade, por isso esfregou mais forte. Tudo o que lhe passava pelas mãos perdia a cor de tanta lavagem; copos, pratos, porcelanas finas onde os desenhos iam sumindo e empalidecendo, roupas que não confiava à máquina por ser preciso arrancar delas o cheiro do mundo lá fora, do monóxido de carbono, do cio primaveril dos animais, dos adolescentes e das amendoeiras em flor, do riso obsceno das mulheres – que razão teriam para ele? –, o cheiro coalhado a suor e cerveja dos homens nos autocarros e no metro. Láforáporcariatodemtudatodáhora!

Os amuletos necessários para enfrentar o grande desconhecido viajavam consigo para todo o lado, bem guardados dentro da mala: um escapulário que o pai lhe dera antes de morrer, para a protegersenhordetodomal, e uma embalagem de álcool - conseguia ler o escárnio nos lábios e nos olhos dos outros sempre que a usava, depois de mexer em cada pasta de processo. Na quinta-feira, uma das colegas aproximou-se da sua secretária só para dizer: “Luísa... estás abaixo da tua média. Ontem, das nove ao meio dia já tinhas desinfectado as mãos 27 vezes, hoje ainda só vais em 15.”

Vá... riam-se... eu sei quem rirá por último, costumava pensar e nessas alturas vinham-lhe à cabeça imagens ilustradas de um apocalipse de BD, onde o Sétimo Selo se quebrava nas mãos de um cavaleiro embuçado num cavalo verde pálido, matéria em decomposição, vírus, pestepratodoseles! Só os imaculados serão salvos.

Esfregou o prato pela sétima e última vez e recordou-se dos resultados do hemograma em cima da mesa da cozinha, vigiados zelosamente pelo olhar de Salvé Rainha da Nossa Senhora de Fátima do calendário. Também ela parecia sorrir-lhe num esgarzinho condescendente e irritante, quem sabe se do alto de uma azinheira ou de uma nuvem dourada, como quem diz “Estás mesmo abaixo da tua média...” E de facto lá estão os linfócitos B (B de burros, B de bafientos, B de baixos), fracos e amarelos, a mirrarem na contagem, incapazes de guardar memória de ataques anteriores para produzirem anticorpos que a defendam da contaminação e do pecado do Mundo, anémicos Cordeiros de Deus sem espada nem escudo.

Enxaguou abundantemente a loiça, o olhar atravessando a janela da cozinha até à alameda de tílias e sonhou que a percorria dentro de uma bolha, pairando como a Nossa Senhora de Fátima, só que mais esterilizada e protegida contra o Armagedão microscópico que já começara lá fora, invisível a olho nu.

Comentários

  1. Muito, muito, muito bom!!!
    Adorei! Absolutamente genuíno e visceral.

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  2. Um texto-personagem que nos obriga a ser Luísa por alguns momentos, a ceder à compulsão, a absorver o seu ambiente claustrafóbico, em círculo, obsessivo, frágil, assombrado..
    Tens o dom de levar o leitor pela mão e puxá-lo para dentro dos universos que descreves e para dentro destes seres pária que gostas de conhecer e dar a compreender. Escrita muito tua, enraizada na realidade, brilhante como sempre...

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  3. Impossível não entrar na personagem e...olhar para as mãos. As fotografias intactas, vistas domingo após domingo..vi-as!
    Adorei, muito bom!

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  4. Bicho d'Ouvido, "escavando, lentamente, em direcção ao tímpano."... tudo o que escreves... uma vénia. Aumenta a frequência com que vens escavar para aqui, faz-me esse favor.

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  5. Assepssia da palavra numa prosa pura poesia.
    gosto sempre tanto do que (me) desinfectas...

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  6. quem escreve assim...não precisa de consulta de Magos... fantastico!!!

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  7. As tuas personagens têm carne, olhos, mãos e alma... são reais e genuínas. Gosto realmente e até ao momento de tudo o que me deste o privilégio de ler

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