sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Memory



Memory...

All my Life I have been Nothing but a Memory...
An Opaque Illusion of what I really am...

All my Life I ran away from the Darkness in the Middle of the Night...
I Shouted Ideals without Raising my Voice...

All my Life I poured Tears without really Crying...
Went Mournful to my own Funeral...

All my Life I wrote Senseless Novels...
I’ve Injected the Poison of Words in my Veins...

And I Flew...

Flew without a Right Destination...
Flew away...

All my Life I have Felt Storm in my Eyes...
Eyes without a Face that could Save my Prayers...

I never Understood if it was Fear or Desire...
I never Understood the Threshold of a Lie...
I have Never Lived an Ordinary Life...

All my Life I have been Nothing but a Memory...
Not a Photographic Memory Though...

Perhaps a Faded Image of the Child I once Was...
Perhaps a Cruel Image of the Man I Became...

The Hurts and the Memories cannot be Erased...
The Silent Voids will forever Echo...

I Am Someone who watches Life by the Window just a Memory...
I Am Someone…Like all of You...

A Memory Reflected on the Life’s Mirror...

Manobra de Heimlich





A associação nacional de socorristas de inspiração Trotskista vem por este modo demonstrar o seu repúdio pela manobra de Heimlich. Esta manobra é violenta, não respeita o espaço pessoal do paciente, o seu nome alemão, para além de demonstrar conotações neo nazis, tem uma sonoridade agressiva típica das sociedades falocentricas cristãs.O mundo está a mudar e como tal certas técnicas obsoletas tem de ser erradicadas dos manuais de socorrismo. Já o "Manual de socorrismo" escrito por Sócrates defendia uma técnica de eliminação de detritos do esófago através de uma técnica hermêneutica. Mas foi durante o regime nazi que a manobra de Heimlich teve a sua verdadeira implementação, o "Socorristisch Almanak" escrito por Mengel defendia uma técnica aplicada com luvas de couro e soqueiras. Em Espanha e Itália esta manobra também foi adoptada, tendo em Itália ficado com o nome de "A gravata de Hercules"(em tom de curiosidade o cartaz que explicava esta técnica apresentava um Mussolini em tronco nú e vestindo uma tanga de leopardo abraçando um italiano engasgado). Em Portugal a manobra de Heimlich não teve grande aceitação, em virtude das relações diplomáticas bissexuais entre Portugal e os Estados Unidos da América, os socorristas portugueses continuaram a aplicar a palmada nas costas.A associação de socorristas portugueses de inspiração Trotskista vai apresentar no próximo Sábado uma palestra onde vários especialistas mundiais vão apresentar técnicas alternativas. Hamir Trotz, da Albania, vem apresentar uma técnica nova baseada no uso de canhamo. Todos os que querem lutar contra a manobra de Heimlich serão bemvindos.
Um abraço e a luta continua
Francisco Rosas

O Amor... (1)



Nota: este texto já tem uns certos anos mas ainda não
foi publicado em livro... ou em qualquer outro local...
(até agora)
Ainda que seja algo «pueril» é uma forma de Vos desejar
algo de muito bom, num novo ano que, espero, seja o Melhor!
(a dedicatória original é demasiado óbvia, por isso alterei
o título original que IC imaginou e imortalizou :)
...

O Amor Aproximar-nos-á (1)


Quando nada parece estar bem
e a rotina preenche o dia
a ociosidade nos retém
numa mórbida vida fria.
Assim é tempo de reagir bem
e vencer a negra monotonia.
Então o amor,
o Amor aproximar-nos-á novamente.

O fascínio já não funciona
porque não passa de uma ilusão
a emotividade já não aprisiona
porque era apenas uma paixão.
O pulsar da nossa alma,
ecoa bem fundo no coração.
Assim o amor,
o Amor aproximar-nos-á novamente.

Sei que ainda choras no teu leito
ao pensares nos tempos volvidos
ergue a tua cabeça, abre os olhos
e rompe a direito!
Sou eu quem supera os erros cometidos.
O sofrimento ensina o nosso eu imperfeito.
A dor purifica os nossos sentidos.
Por isso o amor,
o Amor aproximar-nos-á novamente.

Quando o desespero se apodera
do teu frágil corpo inseguro
é o deslumbramento quem lidera
e te encerra para lá do muro.
Então dar-te-ei forte alento
conduzindo-te a porto seguro.
Aí o amor,
o Amor aproximar-nos-á novamente.

Podes contar comigo
até ao final dos tempos
serei sempre teu amigo
em todos os momentos.
Sabes que nunca te esquecerei
não importa quais os ventos.
Porque o amor,
o Amor aproximar-nos-á novamente.

06.Julho.1992

Boca de Cena



(este texto tem personagens reais e outras fictícias. O espaço onde decorre a acção é mesmo o Teatro-Estudio Mário Viegas - traseiras do teatro S.Luis)

A noite estava escura. Seguia pelo Chiado à meia noite, hora estranha, em direcção ao teatro que me viu nascer. Vinte anos depois regressava ao meu berço de actor e reencontraria o "pai" que me viu nascer para o teatro. Aos quinze anos lembro-me eu, com a bela peça de Almada Negreiros, "Antes de Começar". Perdi-me de amores pela actriz que fazia de boneca mas perdi-lhe o rasto.
Ah, divagações, divagações! E nem sequer falo do meu berço! Nasci para o teatro na Companhia Teatral do Chiado, meu "pai" o brilhante actor Simão Rubim. Não sei como está agora, não o sei, não o vejo vai fazer quase dezasseis anos. A saudade é muita.Chego perto do teatro, saúdo a alegre foto do Mário Viegas. [O quão foste inspirador Mário, tu e o teu modo de vida. Pena não te ter conhecido antes de te teres apagado deste mundo, pena.]
Entro no teatro. A porta da sala chia com o mesmo som de sempre. Rio-me satisfeito. Desço dois degraus querendo acender a luz. Mas esta acendeu-se sozinha, o pano estava corrido. Ouvi uma voz, estranhamente familiar.
- Sentem-se, sentem-se. O teatro está prestes a começar. A peça de hoje apresenta-se com o nome de "Loucura".
Aquilo assustou-me um bocado mas pensei que era apenas uma surpresa. Sentei-me a meio da plateia. Três séries de três pancadas furiosas ressoaram na madeira do chão do palco. Eram as pancadas de Moliére. O que quer que fosse ia começar.
O pano abriu-se lentamente. Á boca de cena um holofote furioso desfocava o palco. Um pesado objecto foi arrastado pela madeira do palco. Tinha os contornos de uma cadeira e transportava-a um humano. Com contornos de homem, corpulento.
- Quem está aí?- perguntei, a medo.
- Senhores e.......senhores procederemos aqui à tentativa de desfiar a miséria da mente humana! O sentimento mais vil do Homem: o ódio. Convosco dois actores fantásticos. Quem diria? Directamente de Inglaterra: Gustavo Santos. Maravilhoso actor. - ouvi, incrédulo.
- Quem está aí? - tornei a perguntar - Como sabes o meu nome?
- Ora, ora acalmai-vos querido público! O segundo actor, o louco, o doido varrido, José Albergaria.
Não queria acreditar! O meu companheiro dos primeiros anos de actor! O outro protegido do Simão Rubim.
- José! Que surpresa! Não esperava encontrar-te aqui! - gritei.
- Pois! Nem eu! Porque não voltas para Inglaterra? Não fazes cá falta! Não achas que Lisboa é pequena demais para dois Hamlets?- gritou, furioso e o holofote baixou de intensidade mostrando dois olhos vermelhos de raiva.
- Que se passa? - perguntei.
- Tinhas mesmo de concorrer para o papel que eu queria? Tinhas? - perguntou ele.
Fez-se luz na minha mente. Concorri há duas semanas para o papel de Hamlet na mega-produção nacional e fui escolhido.
- Mas porquê tanto alarido?
- Porra!!!! Não te lembras Gustavo? O único papel que realmente ambicionava! Quatro anos a ser sempre o segundo! Tu foste embora lá para Inglaterra. Eu consruí a minha carreira a pulso! Agora reapareces do nada e dás cabo do meu único sonho! Laertes disseram eles. Que eu ficava com o papel de Laertes!!! Que tinham encontrado um actor revelação que era esplêndido para o papel de Hamlet. Espumo de raiva ao saber que és tu. - a loucura das suas palavras inundava o palco.
- Calma José! Laertes é um excelente papel e tu sabes que és um excelente actor.- tentei acalmá-lo.
- Pois claro, é.Ufa! Parece que se tinha acalmado.- Mas é um papel secundário, Gustavo, se-cun-dá-rio!!!! - gritou ele, a plenos pulmões
O meu coração corria veloz. Não me sentia seguro ali.
- Calma José, por favor. Vamos conversar. De certeza que podemos chegar a um acordo, se falarmos...- tremia-me a voz, os olhos do José eram piores que punhais, trespassavam-me o coração sucessivas vezes.
-Se? Eles disseram-me que não aceitavam mais ninguém para Hamlet! - a respiração dele tornara-se sonora, a raiva estava a transbordar. - Que tu eras uma obra-prima em forma de actor! Nem imaginas o quanto eu quero matar-te! Volta para Inglaterra! Desaparece-me da vista!
- Mas eu não posso! A minha vida agora é cá! - disse.
- Ah!Ah!Ah! Se não mudas de terra, vais para baixo dela! Ai juro-te que vais! - disse, rindo-se como um louco.
Uma coisa saiu lentamente dos bolsos do José. O holofote baixou de intensidade. O quê? Uma pistola! Apontada a mim!
- Estás com medo agora? O grande Gustavo a tremer de medo. Está carregada sim, se queres saber. Gosto disto agora, pela primeira vez sinto que tenho poder sobre ti. - ele estava fora de si, sentia a sua raiva a controlá-lo.
O meu sangue gelou. Estava com um pé do lado da morte e um pé do lado da vida. Tudo dependia do dedo indicador da mão direita do José, instável sobre o gatilho.
- Não faças isso! José, tu não queres sentir-te culpado por uma morte, José!
Um passo apressado ecoou no chão do palco e caiu em cima do José. Ouviu-se um tiro. Ufa! Acertou num holofote que se estilhaçou.
- Agarra Gustavo. - gritou o homem que me atirou de seguida a pistola.
Agarrei-a imediatamente e apontei-a ao José. O homem largou-o e juntou-se a mim.
- João? João Carracedo? - identifiquei quem tinha aparecido.
- Eu mesmo.
- Como vieste aqui parar? - perguntei
- Quando vi o José aqui entrar espumando de raiva e com o que parecia ser uma pistola senti que algo estava mal.
João Carracedo pode ser talvez um "tio" para mim no teatro. Amigo do Simão, ajudou-me a começar. Estava bastante mais velho e grisalho mas contente. Reparei que mantinha a mesma energia de sempre. Sorri. Estava safo. Por agora.
- Mas tu passaste-te? - gritou o João ao José.
- Tu devolve-me a pistola Carracedo. Já não mandas em mim. - sentia-lhe a voz mais fraca, mas José ainda não tinha despido a máscara de mau. Mas os olhos denunciavam-lhe a fraqueza que via neles crescer. Ele ainda temia o João.
- Agora sim, mando. Estás obviamente louco. O que é que te deu? Passaste-te de vez! - disse o João.
José tentou explicar-lhe mas a raiva entorpecia-lhe o discurso. A raiva torna-nos loucos, sabiam? Expliquei eu então a história, devagar.
- Mas tu passaste-te mesmo José. Um papel numa peça não vale uma vida. - desabafou João quando percebeu a estória.
- Ai isso é que vale! Então e o meu orgulho? - ripostou José.
- E querias ser acusado de homicídio? E a imprensa? disse eu.
- Ora bem. Aí é que tinha tudo preparado para que parecesse um acidente. O grande Gustavo, não suportando a intromissão dos media, suicida-se. E no teatro onde nasceu! Que grande manchete, einh? - disparatava, tudo o que dizia fazia sentido mas era horrível de se ouvir. - E depois o testemunho do José Albergaria o grande amigo que sente muito a sua falta. Que comovente.
- Estás louco José. Louco- dissemos em uníssono, eu e o João.
- Pois. Louco de amores pelo papel que me roubaste! Dá-mo, filho da mãe! Ele é meu! - gritava José.
Num ímpeto, não temendo a pistola que eu segurava atira-se de caras para mim e para o João Carracedo. Tropeça na beira do palco, cai. Ainda tenta perseguir-nos. O João Carracedo empurra-me para a saída do teatro. Fecha a porta. O José grita:
- Abram a porta! Cobardes! Lutem comigo!
- Olha que manchete. "Famoso actor passa a noite fechado no teatro." É para aprenderes a ser humilde. - disse o João Carracedo, no meio de risos, trancando a porta do teatro. - Vai ser o teu momento de boca de cena! Aproveita! Anda Gustavo, temos uma imprensa para informar.


Segui-o pelo Chiado. Acabou por dizer:
- Vamos. Amanhã é outro dia. Outra peça de teatro a representar em que não sabemos o nosso papel nem as nossas falas. A vida é um teatro. Há-que saber improvisar.

Suicidal Way




Suicidal Way (1)

A denial
On the verge of pain
An opportunity
To live again
A simple thought
On the turmoil of despair
A hidden way
To release the strain
Of dark emotions
Pushing us away…

2010-11-07

Suicidal Way (2)

You know
I just can't stay
It's my suicidal way
And that's why
I can't play anymore
Cause I know
As you also know
There are things to do
And there is a way to go
Before and after the flow
Forever and more
We have to stay
No more and no less
Than the time to find the way
And when we find it
It will be time to leave
And to touch another Way!
...
(And by the way
Where's the next way?
As a friend might say:
Which way from here?
Well, I know another way!
And life, if you may,
Is such a kind of suicidal way.
There's always a way
With no way out...)

2010-12-31

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Gota a Gota no Fio da Navalha




(Edgar Allan Poe a mais, lol, este texto arrepia-me, custa-me a crer que o escrevi - ah, já agora, têm duas opções de banda sonora :P)

Sentia-me no fio da navalha, literalmente.Estava preso no chão e em cima de mim, uma navalha pendular sustida por uma tina de água com um pequeno furo. A minha condenação à morte: gota a gota. A minha acusação:ser revolucionário. Vim parar a esta prisão à uns três dias, a navalha estava agora a uns escassos trinta centímetros de mim. Fui preso pela minha imprudência, estava a uns escassos momentos da morte e continuava a rir. O meu trabalho estava feito, era indiferente a minha morte ou a minha vida.Sentia medo, é verdade, a navalha resplandescente sustia-se instàvel sobre mim. A qualquer momento algo ou alguém podia fazê-la desabar e era o fim. num rasgo de vento seria cortado ao meio como o mercador de carne corta galinhas, vacas e porcos. O sangue fervia-me nas veias mas ria, ria como um louco que acreditava na vida depois da morte. Como se obtesse alguma vez a redenção divina! Pelo menos depois dos actos que cometi. Tinha como companhia os ratos. Bichinhos incansáveis que incessantemente roiam as cordas que me prendiam. Faziam-me cócegas quando se aproximavam da minha pele ensanguentada pelas chicoteadas, talvez fosse por isso que ria tanto.Nasceu o dia. O calor ofuscante da luz que emanava da minúscula janela do meu cárcere incidia furioso sobre a tina de água que lentamente se deixava evaporar. As horas foram passando: gota a gota. Ao cair da noite ouviu-se um raspar violento de metal na pedra. Nem um grito, nem um único grito.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Espera...

(recuperado d'outros tempos, n'outros lugares)



O dia está cortante. Sopra um vento frio que arrepia o mais intrépido viajante, mas eu não me demovo. Sei que ela vai chegar...


Foi num distante Novembro que a vi pela primeira vez, qual anjo a descer dos céus, vi-a a descer do eléctrico no Terreiro do Paço, tinha eu acabado de desembarcar. Depois das atrocidades e paisagens inesquecíveis que vira durante a minha estada em Moçambique, deparo-me com uma visão de doçura imensa e perturbante inquietude.

Lembro-me de vislumbrar por instantes um branco e torneado tornozelo que espreitara por entre a alpergata e a saia negra rodada, que durante aquele efémero pedaço decidiu não a cobrir até aos pés. Ao subir os meus olhos fui devorando avidamente cada centímetro da bela criatura, com a gula de quem jamais vira tão bela donzela e a cobiça infantil pelo brinquedo proibido...



Ah, este cachecol de lã é tão aconchegante. Foi o meu neto Jorge que mo deu, num destes natais já idos. Ele sempre foi o neto que mais me apaparicou.

Oh céus, porque acena aquela senhora para mim?
O que diz ela? Que é hora de almoçar?....



Eu sei que ela vai chegar, espero não estar atrasado!
Porque é que não me deixam estar aqui em paz?!?! Que raiva, dá-me vontade de os esbofetear, como os cabrões dos farruscos quando não queriam dizer onde andava a Renamo. Aqueles filhos da mãe, iam buscar as armas à África do Sul e depois entravam pelo mato adentro, matavam tudo o que viam da Frelimo, ou branco. Nem as impalas e as palancas escapavam, serviam de pasto aos esquadrões de ladrões e assassinos. O Cabo Pimenta é que a sabia bem, era espancar os gajos e queimar-lhes as palhotas, desatavam a palrar feito loucos, pena que não se percebesse quase nada do que os sacanas diziam...



Ela está atrasada, tal como da outra vez...

Iamo-nos casar daqui a uma semana, e ficámos de ir comprar as alianças ali na Rua do Ouro, num ourives amigo do meu pai, cujo filho, o Raimundo, também estivera comigo em Tete. Mas esse desgraçado não voltou. Uma mina arrancou-lhe as pernas, a virilidade e a alma. Tinha a mulher e duas gémeas de 1 ano à espera. Não aguentou o desespero e a angústia. Dois dias depois do acidente enfiou a Mauser na boca e nem se despediu de mim...


Lembro-me de quando a Laurinha nasceu. Claro que lembro! Como me haveria de esquecer desse dia... Vinha eu a correr pela Fontes Pereira de Mello acima em direcção à Maternidade, depois da tia Aurora ter mandado o ajudante de mercearia avisar lá na redacção do jornal “O Século”, onde agora me dedicava à tipografia. Logo eu, um catraio nascido em Montelavar com ambições de ser marinheiro, fui parar ao Exército onde servi 3 anos e andava agora a montar as páginas de um jornal que nunca antes lera...


- A menina está cheia de febre, Augusto! Vai-me ali à botica e pede para falar com o Sr. Gentil. Ele que te dê o chá e que ponha lá na conta. Augusto? Augusto!?!? Estás a ouvir?? –
Não era só a menina. Volta e meia eu tinha um violento ataque de febres, era a malária, uma velha companheira que viajou comigo para além das margens do Limpopo. 3 Semanas de espera desesperante, a ser atacado por mosquitos e ‘turras’. Curioso, foi do inimigo mais pequeno que levei a maior mossa...



Ela ainda deve vir antes das 7. Já era costume atrasar-se, punha-se à conversa com as colegas no portão da fábrica de bolachas da Aliança, ali para os lados de Alcântara. Era matemático, mulheres a dar à língua, eléctrico perdido. E eu a moe-las no Cais do Sodré, a andar d’um lado p’ró outro, saltando até à Ribeira para um pastelito de bacalhau ou um pratinho de jaquinzinhos. Eu chegava sempre às 6 em ponto, tinha tempo para tudo, quase que dava para ir até ao Comércio e meter-me no Cacilheiro, ir até à outra banda e voltar...



Está cada vez mais frio, começo a enregelar.

Ah, valha-me este cachecol de lã quentinho. Foi o Jorge que mo deu, o meu neto Jorge, o filho da Laurinha. Por falar nela, por onde anda?... Nunca mais me veio visitar! Aquela menina, eu que esfarrapei a cuidar dela, a pô-la na escola comercial para ela aprender a ser Secretária. Agora, que é chefe de repartição ali nos Fanqueiros nunca mais teve tempo para o velhote. O que diria a mãe dela se fosse viva! A minha Eugénia, a mulher mais boa e generosa deste mundo,... Nunca me hei-de esquecer de quando a vi a sair do eléctrico, naquela manhã de Novembro, um sorriso de fazer os anjos da Sé roerem-se de inveja, linda que ela era. Chegava sempre atrasada, abençoada. E eu ali a moe-las, a passarinhar de um lado para o outro...


Ela deve estar mesmo ai a chegar, está quase na hora. Depois vamos até ao Rossio comer castanhas e dar um pulo à Ginjinha antes de ir para casa. Como eu gosto do mês de Novembro, mesmo com o frio e a saudade.

Resta-me esperar por ela, aqui encostado ao varão da paragem do eléctrico. Tenho que ser paciente. O Doutor está sempre a recomendar-me paciência, para eu tomar os comprimidos, para eu não estar sempre a fugir para a rua, que eu tenho que fazer um diário, que me ajudava a combater a doença. Ele diz que o meu cérebro está a morrer e que eu vou perder a memória, e por fim a mobilidade, até à morte. Perder a memória, como se eu me fosse esquecer da Laurinha, da Tia Aurora, do Raimundo, de Moçambique, do Jorge, e da Eugénia, da minha querida Eugénia.



Que frio que está aqui fora, mas porque é que o malvado eléctrico nunca mais chega?!?

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Cocaine




COCAINE

-OH YEAHHHH!!!!!- quase que grito enquanto sinto uma a coca a entrar pela narina esquerda à velocidade de um TGV.
Pois é pá, hoje em dia um gajo precisa de uma ajudinha extra e não há melhor forma de viver a night do que com um cochezinho de coca nas ventas. Tás a ver?
Devo dizer que a merda da coca está bué cara e eu nem sei porque uso palavras como bué e cochezinho porque na verdade eu tenho uma licenciatura em Direito e devia estar a usar expressões como ónus da prova etc e tal.
A pior cena da coca é o ranho, um gajo fica a produzir tanto ranho como um puto alérgico em plena Primavera, mas o preço também é um grande problema.
A noite tá bacana, eu tou todo acelerado e tou mesmo numa de divertir. O primeiro obstáculo é o porteiro da famosa discoteca que eu costumo frequentar, cujo nome não digo mas digo já que começa com uma letra pouco usada em português tipo o K. O cabrão do porteiro é uma espécie de cão pisteiro que sente o uso de substâncias alteradoras do humor, sejam elas álcool, coca e haxe
Eu abro muito os olhos para que ele possa ver que não tenho nada de errado.Para mostrar que estou concentrado coloco os braços para baixo, com as mãos abertas, para funcionarem como lastro para me equilibrarem. Não que eu esteja aos tombos, simplesmente apetece-me andar mais rápido e quero parecer normal.
- São dez euros - diz me o animal.
Coloco-lhe discretamente a nota de dez na mão, como se fosse uma operação ilegal, enquanto observo o físico hipertrofiado obtido á conta de milhares de litros de esteróides cósmico radioactivos da união soviética e pergunto:
- Andas na musculação? Levantas ferro? Tomas alguma cena? Pareces bué grande…- e fico a olhar para ele a sorrir enquanto sinto arrepios na espinha que me impelem para a frente e quero abraçar este gajo, dar-lhe uma grande palmada nas costas , convid- lo para almoçar comigo. Quero ser padrinho de casamento dele, quero conhecer a família dele. Ahhhhh meu granda filho da puta…
- Pode entrar - diz me o gorila com cara de parvo após eu parar.
"Cuidado a cocaína provoca diarreia verbal" era o que devia dizer nos pacotinhos, mas os cabrões do colombianos estão a lixar-se para os clientes.
Adoro esta discoteca, um gajo entrae é só gajas decotadas, penteadas, ensaboadas, enceradas, bem cheirosas de classe média alta.
Mamas plásticas em peles massacradas pelo solário que mais parecem sofás de cabedal marroquino.
A primeira coisa que faço é tropeçar no degrau e só não me espalho porque consigo manter o equilíbrio num voo que me parece de 3 metros e acabo por me agarrar a uma perna enorme e musculada.
- Então pá?- pergunta-me um desses betinhos, com um cabelo de puto de 5 anos, que veste sempre um fato para sair à noite.
- Então pá? Vê lá se aprendes a falar como dever ser- ataco imediatamente e vejo o miúdo a encolher-se como um ninja que entrou na casa do Chuck Norris por engano
- Peço desculpa já venho.
Desato a correr para a casa de banho no piso de cima, tranco-me num dos cubículos próprios para quem consome “cenas”. Não acredito que estes cubículos metalizados da era pós conquista espacial tenham sido feitos para o pessoal cagar .
Saio da casa de banho e sinto-me o Butch Cassidy e o Sundance Kid, os dois ao mesmo tempo , mas desta vez eles não morrem porque eu sou invencivel.
Observo o espaço à minha volta. Betos, velhos,putas e pré putas.
Não é complexo de classe este sítio é mesmo um antro de podridão e decadência. Num estado normal este sítio talvez me provocasse nojo, alergia moral. Mas hoje não, agora não…
Dirijo me ao bar.
- Whisky cola!- grito acima da multidão, para o paneleirote que está do outro lado a servir bebidas. Quando me viro choco com uma rapariga e ela sorri para mim. Eu sorrio para ela e viro-me de costas...
Eh pá!!!
Viro-me de novo e vejo cerca de 7 raparigas naquele espaço e não reconheço nenhuma. Sorrio para uma de cada vez até reconhecer o sorriso daquela que me sorriu. Algumas sorriem mas eu não encontro aquela que me sorriu.
Fim do round 1. Perco aos pontos e regresso ao canto.
"Cus não aguento este combate"
"Tens que largar a coca pá, foi isso que deu cabo do Mike"
"Eu sei pá, mas só mais uma linha para me aguentar, as luzes são fracas e sem ela não vejo nada"
Mando abaixo mais uma linha e sinto-me o Hulk. Sinto-me um couraçado grande e verde.
- Então pá ?!- toca a sair daí - grita me um gajo do lado de fora da porta.
- Que foi? - pergunto ao deparar com um betinho magricelas.
- Tou à rasca pra cagar meu.- diz ele segurando a barriga, para acentuar a demonstração da vontade de arrear o calhau.
Não acredito...
- Pá isto não serve pra cagar meu.
- Tou-me a foder pá - diz ele empurrando me.
Merda do puto, meto-lhe um pé à frente e faço com que ele caia numa enorme poça de mijo tóxico.
- Seu filho da .... - não oiço o resto porque saio da casa de banho e regresso à disco propriamente dita.
Continuo a beber, fumo um maço de tabaco, meto mais umas linhas e já começa tudo a bater com força. Sinto a cara cada vez mais dormente, os lábios estão moribundos e sinto não os conseguir controlar, as minhas palavras ficam imperceptíveis aos outros.
No entanto nestes momentos de decadência física, em que me torno numa massa de carne entorpecida quase que fico iluminado num momento puro de lucidez, como se a mente se sobrepusesse a um corpo fraco.
Mas que raio faço nesta discoteca cheia de gente que nada tem a ver comigo? Com os seus sorrisos distorcidos e aberrantes, que olham para mim com desdém.
Pessoas com vícios, promíscuas, alcoolicas...bem não sou melhor que eles e como tal deviam me abraçar todos e dizer:
-Tá tudo fixe meu...
Mas não, eu sou o espelho daquilo que eles são. Que se foda vou-me embora.
Saio para a rua com as pernas bambas. O ar está gelado e a primeira inspiração de monóxido carbono e dióxido de carbono, com um pequeno travo de rio Tejo, fazem com que os meus pulmões se sintam aliviados.
Caminho pela rua em direcção ao carro e oiço putos novos a falarem alto, devido à excitação das primeiras saídas.
-É aquele ali - grita uma voz atrás de mim.
Vejo o beto que eu fiz tropeçar e também vejo os seus 4 amigos. Quatro anormais, desfigurados e embrutecidos do rugby.
Um punho acerta-me em cheio na boca e eu caio na calçada.
Cai sobre mim uma chuva de pontapés e murros. Acertam-me na boca, na cabeça, no tronco. Tento encolher-me para proteger a cara e o tronco, mas um dos betos começa a dar-me pontapés na base da espinha para que eu desenrole e consegue.
Tenho o corpo entorpecido e os sentidos embotados por isso nada me dói mas sei que amanhã vou estar todo rebentado.
s gritos dos putos chamam a atenção dos seguranças da discoteca que quando chegam ao pé de mim ajudam-me a levantar.
- Quer chamar uma ambulância, senhor?- pergunta-me um deles.
Respondo um não arrastado e disforme, enquanto sinto sangue a sujar-me a camisa.
Dirijo me para o carro, uma merda de um BMW , conseguido com a merda do ordenado ganho devido ao meu emprego como advogado a defender traficantes de droga e burlões autorizados.
Abro o porta bagagens e tiro aquela cena que serve para mudar os pneus, subo ao capot e começo a bater com toda a força no pára-brisas.
- Que se passa aqui?- grita um policia gordo e de bigode - Saia já daí.
- O carro é meu!!!- grito atirando os documentos contra o polícia. Mas quando atiro os documentos sinto os pés escorregarem e caio da capota do carro directamente para o chão.
Oiço o meu pescoço estalar ,fico a olhar para o céu escuro e para o rosto gordo do polícia que me segura mão diz:
- Tenha calma, vai ficar tudo bem…

Instinto



A História dos Dias...
Escrita pelo Punho da Culpa...

O Instinto...
A Lógica do Receio num Quadro de Van Gogh...

É a Assinatura Ideológica do Tempo...
Numa Pintura de Dalí...

É a Arte do Medo...

Quando as Lágrimas são os Minutos...
Que Cobrem os Nossos Dias...

Quando as Dúvidas nos Sobressaltam á Noite...
Alimentando-se dos Nossos Fantasmas Shakesperianos...

O Instinto é Cego...
Por não Ver Dentro e Adentro...

É Surdo...
Por não Ouvir a Palestra do Bom Senso...

É Mudo...
Por não Falar a Linguagem do Sentimento...

Não Sente o que Não Deixa Sentir...
Não Ama por Não Saber Existir...

O Instinto são Sinais do Vazio...
Desse Vazio Imenso vindo do Frio...

Links Sensoriais de Raízes Analógicas...
Visões e Palpites ao Sabor do Erro e da Suposição...

É Dúbio e Fabrica Inimigos Imaginários...

É uma Cascata Inverosímil numa Caldeira de Fogo...
Um Funeral de Ideias na Licenciatura do Silencio...

A História dos Dias...
Escrita pelo Punho da Culpa...

Sinais de Pânico que Queimam a Razão...

Ser Transparente...
Não é Aprisionar a Alma num Rochedo de Certezas...

É Colorir de Vida Pedaços de Nós...
Nos Pedaços da Vida Alheia...

Como Quem Semeia...
Pedaços de Vida Assim...

Não És a Luz...Porque Vives no Pecado...
Porque a Noite É o Teu Amante...

E o Instinto o Psiquiatra das Tuas Incertezas...

Acendes a Fogueira...
E a Luz Apaga-se...

Quando Fechas os Olhos Acordada nos Teus Pesadelos...

A História dos Dias...
Escrita pelo Punho da Culpa...

Mea Culpa...
Olhei para Ti...E Vi Vida em Mim...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Private Emotion

Rebenta num pranto, depois da pesquisa dos resultados das análises, na internet.


Sempre o soube. Mesmo que a melhor amiga ( que é médica!) lhe diga que não é bem assim. Que se deixe de armar em médica.

Mas ela, sempre soube que iria ser assim.Quantas vezes irritou a família e os amigos, com a frase: "Sei que vou morrer aos 50 anos".


Depois da explosão de lágrimas em soluços que deixaram sulcos no peito e nas mãos, é abraçada com força, pelo homem que a ama e lhe diz que não está sozinha.


Mas ela foge, isola-se. Não quer ninguém. E faz prometer segredo.


Um segredo que não sabe onde a levará.

Pensa que recentemente, a vida lhe deu uma oportunidade. A qual quer retribuir, dando o melhor de si.

Depois, baixa os braços, o corpo amolece, a alma moribunda num desistir doloroso.

Com quantas Primaveras se inventa uma vida nova?

Quantos olhares são necessários para que o sorriso permaneça?

Adormece exausta. Sem saber se quer acordar.


Amanhece com a pressa de compromissos a cumprir.

Apressa-se. São 7.30h. Vai para as aulas. Os colegas estranharam-lhe a ausência. E mimam-na.


O amigo com que viaja percebe que ela não está bem, apesar da conversa normal . Mas o sorriso perdeu algum brilho. E as olheiras...Tenta não se isolar, como da ultima vez. Almoça em grupo. Conversa com uma amiga.

Diga o que disser, ninguém entende.

Assim, guarda o segredo.

Lamenta a explosão de lágrimas do dia anterior. Mas aliviou-a um pouco.

A voz da filha dá-lhe uma energia inexplicável. E aparentemente inesgotável.


Regressa a casa. Mantém os projectos. Não desistiu dos sonhos.

Senta-se em frente ao computador. Ouve música e liberta-se em palavras.

O maior receio é que sintam pena dela.

Assim, é a mulher alegre e optimista.Enérgica, curiosa, aventureira.

Age como se não houvesse medo.

Mas sabe.


E com o segredo nas mãos, atravessa a inevitabilidade do momento em que sabe quando partirá.

E sorri.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Clube de debate


  • Sentem-se, por favor. Hoje não vamos ter uma sessão nos moldes habituais. Não vamos procurar paradoxos, validar silogismos, chegar a consensos, ser críticos ou analíticos... Não vamos debater o que quer que seja. Para variar, em vez de nos ouvirmos a nós próprios vamos realmente ouvir os outros. A única pessoa que tem o direito de fazer perguntas sou eu e não há respostas certas, lógicas, inteligentes, interessantes, verdadeiras... Hoje limitamo-nos a aceitar as ideias que quiserem partilhar com o grupo sobre uma pergunta elementar. Estamos de acordo? Então aqui vai ... Viver não é simples. O que fazes para te manteres vivo?
  • Que pergunta estúpida, professor...respiro, como, bebo....
  • Não é só isso... como tu bem sabes. Quem vai começar? Tu?
  • Pode ser. Eu protejo-me antes de embater contra a realidade.
  • Como assim?
  • Sou como a Blimunda do Saramago Todos os dias, antes de levantar as pálpebras, tacteio os livros na estante, retiro um, abro-o e e leio algumas passagens. Os meus olhos de ver ficam guardados entre aquelas páginas e assim posso enfrentar a realidade com os olhos da ficção. São como um filtro que torna a vida menos corrosiva, menos humilhante ou menos monocórdica. A fuga é a minha estratégia de defesa mas olhem que nem sempre corre bem. Hoje, por exemplo, calhou-me um Kafka e está a ser um dia difícil. A vida está a encostar-me à parede.
  • Não há estratégias infalíveis, pois não? E tu?
  • Bem....Resigno-me. Não adianta lutar. Sou como uma manhã de nevoeiro sujo e não sei ser senão indolente e inerte. Não sei fazer outra coisa senão entregar-me de braços caídos e fazer o que me mandam. Tento manter-me assim, na corda, a mover-me lentamente para manter o equilibrio. Não quero cair para qualquer dos lados, nem o da morte, nem o da vida...
  • Mas se nada te tira desse marasmo, o que fazes neste clube?
  • Confirmo a minha tendência para ceder. Cedo as minhas ideias trocando-as pelas dos outros mesmo sabendo que os argumentos são sempre tão inconclusivos quanto os meus.
  • Aceito. Mas não chegar a conclusões não é necessariamente mau. E tu?
  • Para mim a vida é carne contra arame farpado. Tem de rasgar, sangrar, doer e voltar a cicatrizar. Em relação à sua pergunta, a resposta é curta. Simplesmente cerro os punhos e os dentes. Só isso. Não tenho mais nada a declarar.
  • Parece-me suficiente. E tu?
  • Devo parecer estranho mas não me custa nada viver. Sou feliz. A escrita dos meus dias sai-me naturalmente, sem esforço, sem ensaio, sem rascunho e sem emendas. Pensava que era normal mas pelos vistos sofro de um raríssimo optimismo patológico.
  • Professor, desculpe lá, mas não posso deixar de comentar. Ouve lá, tu és mesmo... frívolo. Eu nem consigo materializar o que dizes. Como podes ter a audácia de achar que vês a felicidade se ela está tapada pela muralha dos que nunca sequer ouviram falar dela. És como aquele malta que vai para a Índia atingir o nirvana entre pedintes de mão estendida. A abstracção total. Dizes essas coisas para te invejarem mas eu não te invejo, condeno-te...
  • Pára! Tinhamos estabelecido que hoje não haveria réplicas. Ouvir e aceitar. Mas diz-me... Achas que as pessoas condenam-te por seres feliz?
  • Condenam-me, sem dúvida. Eu próprio condeno-me às vezes.
  • E isso não macula esse teu optimismo à prova de bala?
  • Estranhamente, acho que não. Para ser feliz não posso dar crédito total à minha própria consciência. Sinto-me inteiro. Só tenho pena de, por vezes, pensar que tudo isto é apenas uma sensação. E a verdade é que eu não tenho a certeza se uma sensação pode ser chamada de vida.
  • Pois.... E tu?
  • Para me manter viva eu vejo isto tudo como um palco, como dizia o inglês. Esteja eufórica ou a chorar dobrada sobre mim, a ver o mundo do alto do meu orgulho ou com a cara encostada no chão e um pé sobre a nuca, dominante, passiva, predadora, presa ... não interessa. É uma peripécia na minha tragicomédia. É apenas uma cena que pouco vale comparada com o todo. Só tenho medo do epílogo, do julgamento do outro lado da cortina final. Esperem.... minto. Também tenho medo que agora, enquanto estou no palco, as luzes de cena não me permitam ver que a sala na realidade está vazia e ninguém se interessa por mim.
  • O velho medo da solidão... E tu?
  • Quando era mais novo era fácil estar bem com a vida. Estava apaixonado por ela de uma forma obsessiva, achava que não tinha defeitos e prostrava-me ante a sua infinita beleza como se de uma obra de arte se tratasse. Agora é diferente. À primeira vista o mundo continua a parecer-me esculpido ou pintado por ser perfeito demais para ser obra do acaso, entendem? Mas já não sou ingénuo e percebo que os belos pigmentos ocre na realidade são urina de vaca e os lindos tons sanguíneos são ferrugem. Não deixa de haver beleza mas passa a ter uma escala humana. Por isso, para manter-me vivo, já não entro em combustão. Sei que mais tarde ou mais cedo o bolor vai aparecer...
  • A ataraxia costuma vir mais tarde na vida. E tu?
  • Também não tenho muito para dizer. Para sobreviver aceito que estou aqui para fracassar. E não tento mudar porque sei que se o fizesse não teria sucesso, percebem? Falho sempre, mas sempre de acordo com o esperado e, neste aspecto, a vida torna-se suportável.
  • E se alguma vez fores bem sucedido?
  • Não há hipótese porque nem sequer tento.
  • Mas acabaste de ser bem sucedido ao explicar-nos essa tua postura. Todos compreenderam.
  • Pelos vistos falhei... senão o professor não teria feito essa última afirmação.
  • Touché. E tu?
  • É simples. Penso que sou um ser único e que todo o mundo foi criado com o único objectivo de servir de cenário para que eu possa viver a minha vida em pleno. As minhas escolhas, os desígnios do meu arbítrio, são a única referência para todos os restantes seres do universo. Tudo parte de mim e tudo termina em mim.
  • És um deus?
  • Não. Deus é inseguro e precisa que o confirmem, que o venerem.... Eu não. Eu sou a verdadeira plenitude. Sou o centro de todas as coisas mesmo que não as tenha criado e que a sua existência me seja indiferente.
  • Estou a ver que para ti a vida é fácil. Não sofres, portanto?
  • Sofro sim. E vejo os outros sofrer. Mas unicamente para que a ideia de sofrimento se materialize na minha consciência. Para mim é um acto vazio.
  • Porra! Que egocêntrico....
  • Não comentem! E tu?
  • Não sei explicar tão bem como eles mas acho que estou viva porque pertenço a alguém e, algures no mundo, há alguém que me pertence.
  • O príncipe encantado, a alma gémea?
  • Não, não é uma questão amorosa e nem sequer acho que seja só uma pessoa. Tenho apenas a convicção de que em algum momento a minha vida será determinada por alguém e vice-versa. Não posso falhar tal como espero que não me falhem.
  • Mais claro impossível. E tu?
  • Não gosto de falar sobre mim professor mas manter-me vivo é uma certeza, não é algo em que pense. A vida é tão rara. A probabilidade de ter existido enquanto ser inanimado é esmagadora mas.... eu estou vivo. Não posso, nem quero, recusar esta dádiva.
  • Sim senhor. Isto promete. Vamos continuar. E tu?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Dois Dedos de Conversa...



(para todos os loonies porque toda a gente guarda no coração a terra onde nasceram)

Do alto de cada uma das tuas colinas,
Lisboa,
Caem sonhos, futuros incertos,
Passados que o tempo não apaga,
Vidas que a água não lava,
Manta por Clepsidra estragada és,
Lisboa...


Não te vejo passado, nem presente,
Nem futuro, amiga...
Vejo-te dentro de uma única estória
Tecida pelo mais puro fio de oiro
Pelas mais habilidosas mãos
Nos meandros do Mundo.


Foste tecida com as vitórias de Roma
Com os amores de Veneza
Com a arte de Florença, a ciência Francesa
E fiadas e fiadas de sonhos.


Teceram-te lendas
Mouras encantadas chorando nas ruínas
Da cidade muçulmana que foste
Campos de alfaces que
Te mataram a fome, Lisboa.


Cheiras a sangue heróico
(Mais, estás impregnada dele)
Até parece que, se fechar os olhos
e me deixar cair, cair, cair, cair
No âmago da tua história
Consigo ouvir nas pedras o roçar dos gumes
Afiados na carne fresca
Espadas batem e rebatem
Espadas que te conquistaram.


"Viva El-Rei D. Afonso Henriques!"
Ouço, junto à quieta estátua
No castelo altaneiro
Consagrado a S.Jorge
Que, como tu Lisboa,
Venceu o dragão (inglês)


Até pareces um palco
Onde se representa um épico
Personagens que partiram e voltam heróis
Personagens que partiram e não regressaram
Personagens que vagueiam, sós...


Mas espera! Ouço os sinos da Sé!
Uma, duas, três, quatro,...doze badaladas
É meio-dia, pardo e lento
Como os lagartos a aquecer ao sol.


A velha Sé, austera como sempre
Cada grão, sua história
Cavaleiros, mouras, amores desencontrados
Heróis criados, reis coroados
E mais outros tantos ainda por encontrar.


Caminho, pelas tuas vielas,
Onde o povo sempre soube lutar
Força da terra nunca lhes faltou
E houve sempre alguém, por mais espaçado
Que o tempo parecesse, para os liderar.


E os cafés! Ah, os cafés e os botequins
Onde revoluções se preparavam no mais absoluto silêncio...
E almas criativas conquistavam a imortalidade
Lançando palavras sentidas a despique
Divertindo, enfurecendo, emocionando gerações...


Repara no Nicola, ainda lá vive
O espírito do Casanova português
Cujos sonetos e piadas jorravam para fora da sua boca
Da mesma maneira que o vinho jorra para dentro de
Um bêbado qualquer.
É Bocage que lá vive
O homem dos mil amores.


E sentado, no Martinho da Arcada
Estão cinco homens onde só vemos um
Cinco esses, às vezes mais,
Mas veremos sempre um.
Pequeno, atarracado, perturbado por Calíope
Que lhe fez pensador, quando lhe doía
Que não sabia viver no seu tempo
Pessoa era, mas só de nome.


Também no Tavares, nobre restaurante
Que se te faltar a atenção não o vês
Vive um nobre revolucionário
E as suas personagens
Eça de nome, Queirós de apelido
E uma imaginação imensa.


Estes poetas, Estes escritores,
São apenas uma amostra
Porque a tua criação, Lisboa
Assombra o mais erudito dos eruditos
Hà tantas histórias e estórias em ti
Que nem sei
Nem tu sabes
Por onde começar.


Vejo o Nobre Chiado à minha frente
Ao lado a Baixa, sua irmã
Pais da madeira dos palcos
Das cortinas vermelhas
Do rouge das caras
E dos holofotes.


Pais dos seres humanos de mil caras
De mil nomes, mil emoções
De mil sentimentos.
Um dia reis, outro dia doutores
Outro dia o mais pobre dos mendigos
Outro dia o mais pobre dos Homens.


Tiveste de tudo um pouco
Galãs, divas,
Comédias e tragédias a despique...
Pouco dinheiro...
Cadeiras vazias...

Mas sem vacilar avanças
Por entre os Vicentes, os Saramago
E os Sttau Monteiro.


Porque Portugal tem magia e heróis de sobra
Para alimentar o pó de palco
Até à eternidade e mais além...


E até no teatro
Heróis tiveste, Lisboa
Que te encham as medidas de memória
Porque se um português só cai
Com a bala cravada no corpo
Mas o último tiro da sua no inimigo
Lisboa só se considerará conquistada
Na última pedra marcada
Só, na última.


Tivemos o nosso Viegas, Mário
Cujo amor à madeira que ressoava
Ao som de cada aplauso era
Amor Shakespereano
Que recitava poemas como quem
Segurava um diamante nas mãos
(Aí não estava, mas em todo ele
Pessoas assim são jóias)
Viegas da expressividade, do ardor
Mário Viegas que a clepsidra apagou
Cedo demais.


Tivemos os nosso revolucionários
O Estado novo raiava e continuavam
Sttau Monteiro à proa
S.Julião da Barra a arder
E ainda continuavam a gritar:
"Felizmente, felizmente há luar!"


Não há como parar o movimento perpétuo
Em que vives Lisboa
Alimentas-te continuamente
Da sede dos Homens
Que em ti, amiga,
Vêm beber do cálice das Musas


Logras-te chegar mais longe
Pediste graça divina
E na Sra. da Graça
Sobes mais alto
Só para te admirares Lisboa
Quão vaidosa, quão vaidosa és...


Desces o Ouro e a Prata
Viras para a Augusta
E no fim, voltas a afirmar
Sobre o arco que a tua gente construiu
Que és nobre como Roma
E o triunfo que demonstras
É justo e teu
Conquistaste-o.


Á tua frente estende-se o Terreiro do Paço
Ao centro D.José parece indicar o caminho do mar
E respiras a reis, ministros e intrigas
Neste local onde o Paço houve
Até se ouvir gritar: "República!"


Seja um rei ou rainha
(Alguém da velha guarda)
Seja presidente ou general
Seja quem for, Lisboa
Sempre tiveste líder
Sempre foste líder
Nobre Lisboa


Foste poder, és poder e serás poder
Poder para gerir um país
Poder para ser líder de um país
Poder para seres forte, corajosa


E com os olhos cravados no rio
Vejo o teu apogeu
A Lisboa do mar, das Caravelas
A Navegar, navegar, navegar
A dar novos mundos ao Mundo
A dar ilhas e mares
E terras e lares
E culturas (aos milhares)


Destes Gamas e Álvares Cabrais
Soltaste-os no azul do mar
Esperaste luas e luas
Até que voltassem


Uns voltaram cobertos de glória
Outros tornaram-se alimento do mar
Ficaste para a história Tejo
Pelas conquistas que viste partir
Pelas conquistas que viste chegar
Pelos milhares de almas a chorar na areia
Pelas famílias desfeitas, pelas noivas por casar
Só para que fosse teu o mar...


E lavo os olhos no rio
Ouço o buzinar dos carros
Pessoas a gritar
Como se o apocalipse fosse amanhã
Sem pressa, sento-me à beira das àguas
E contemplo o teu apogeu...

Olha Lisboa, anoiteceu...

sábado, 18 de dezembro de 2010

Pó dos Livros



Tenho Arquivado na minha Memória Digital…
O Pó dos Livros Amadurecido em Casta de Papel Timbrado…
Projectado numa Alma que Não Sei se Existe…
Mas que Ouço em Surdina nas Entrelinhas das Palavras…

Tenho a Partitura dos Afectos na Minha Memória Digital…
O Pó dos Livros Amadurecido em Casta de Papel Timbrado…

Quando Inspiro a Fragrância do Imprevisto ao Deslizar de Página em Página…
Quando Acordo a Criança que Dormita no Silencio do Meu Âmago…
Quando Sopro por Entre Dedos as Labaredas da Recordação…

Tenho Arquivado essa mesma Partitura de Afectos…
Pois sou o Sumo Pontífice das Histórias que Inventei…
Ao Saltitar Impunemente nas Margens Flácidas do Tempo…
Ao Usurpar Revigorando o Frenesim Shakesperiano das Palavras…

Viajei numa Odisseia de Homero até ás Cinzas de Ângela…
Evadi-me Epicamente pela Sagaz Loucura de Pessoa…
Libertei a Nostalgia Circense do Universo da Fantasia…

Tenho Arquivado na minha Memória Digital…
O Pó dos Livros Amadurecido em Casta de Papel Timbrado…

Consegui Recitar As Palavras que Nunca te Direi…
Consegui Ressuscitar o Herege que na Vida Queimei…
Fui o Caderno Proibido nos Sonhos de Alba de Céspedes...
Fui o Processo e a Extrema Unção de Franz Kafka...

Sou o Espartilho Diluviano que Anoitece na Mágoa da Incerteza...
Sou a Máscara de Monte Cristo aos Olhos da Lua Nova...

Em Casta De Papel Timbrado...
Adormecido num Tempo Arquivado numa Qualquer Memória Digital...

Restou o Dolo...
Imputável...

E o Pó dos Livros...

The tunnel at the end of the Light



Shine shine little star
Never such creature shone so bright
Never disappear although you might
Just fade away out of sight

If someone calls thy shall not reply
Let them gaze onto the sky
Track the blaze in awe and sigh
And feel great joy and can’t say why

For us mortals salute thee oh star
We hope to be right where you are
Live this life in pain and grieve
With the wish to live wherever you live

That here on Earth life goes by
And all that’s certain is to die
With dreams of mercy and God’s good grace
We pray for thee oh star so might

To leave this Earth in you embrace
Forget this dark eternal night
The world is burning and out of pace
Oh take us star from this dreadful place
That is this tunnel at the end of the Light

Loucos de Lisboa


(ok, isto é mais que acompanhamento musical, é a inspiração do conto :P)

Deu-me na cabeça começar a pensar no mundo dos pequenos. Como é bom viver na ignorância. Sem preocupações, sem medo do futuro.Ouvia neste momento a minha amiga Sara que acabava de ser mãe há um mês. Falava-me dos problemas da pequena Carolina (cólicas e outros assim) e eu só me afundava na visão que tinha em miúda da minha Lisboa. Ela não foi minha desde sempre, vivi em Mafra até aos 12 anos mas os meus pais, em busca de melhor trabalho, trouxeram-me com eles. Agora, quinze anos depois, Lisboa é minha e eu sou de Lisboa.Caminho agora com a Sara pelo Chiado. Ela fala-me de problemas e preocupações e eu, fingindo ouvir (com o tempo tornei-me mestra na arte de bem saber fingir ouvir), deixo-me absorver pela inebriante magia que o Chiado emana.Sentamo-nos numa mesa da “Brasileira”, um dos cafés mais emblemáticos de Lisboa. A Sara parou por momentos de falar na pequena Carolina e prendeu a minha atenção.

- Joana, já viste o ar andrajoso daquele homem que está a olhar para nós? – disse, apontando discretamente um homem que estava sentado no muro que ladeava a entrada do estação de metro da Baixa-Chiado.

- Qual é o problema? – respondi.

- Deixa-me desconfortável. – continuou a Sara – Detesto quando gente desconhecida me fixa.

- Ora, não ligues. Deve ser louco. – finalizei.

Enquanto a conversa durava não deixei de divagar em que pensaria o “louco” enquanto olhava para nós. Desenhava indefinidamente num pequeno bloco (perguntava-me o quê). E pensei. Viver sem rumo, sem lugar nem posses é viver em liberdade. Sorri para o “louco”, ele retribuiu o sorriso. “Os loucos dão outro colorido à cidade” pensei “ O que seria de Lisboa sem o senhor do adeus?” O sorriso do “louco” era sincero, via-se. Olhei para a estátua do Fernando Pessoa e pensei, ele foi o louco do tempo dele, agora é celebrado. Mário Viegas foi o louco mais sério e brincalhão que existiu Enfim, Lisboa construi-se com os seus “loucos”. Eles são parte de Lisboa e Lisboa é parte deles.Sara parou a conversa.

- Que é? – perguntei.

- Tenho de ir ter com a avó da Carolina. Deixei a Carolina lá e tenho de ir dar-lhe de mamar. Adeus Joana. Adorei falar contigo. – disse ela.

Saiu apressada em direcção ao metro. Quando me voltei para ver o “louco” ele também se tinha ido embora. Deixou uma folha no lugar onde estava. Paguei a conta, o café e peguei na folha.Surpresa das surpresas, era o meu rosto desenhado na perfeição. Junto estava rabiscado o velho ditado: “De génio e de louco todo o mundo tem um pouco. Para os olhos mais sinceros e curiosos que alguma vez vi. Ass: O Louco”.

Ri, meti o papel na minha mala e segui errante pelo Chiado, cantarolando:



“São os Loucos de Lisboa

que nos fazem duvidar.

A terra gira ao contrário

E os rios nascem no mar.”

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Vermelhoescurobrilhante



Geralmente, acontecia-lhe naquelas alturas em que começava a empurrar o carrinho de compras aos ésses lentos pelos corredores do supermercado, de olhos postos num tempo longe. Aparecia-lhe a imagem antiga de dois pares de peúgas às cores, apoiados na mesa de centro da sala de estar, que a mãe dela lhes dizia para "tiraremdaímediatamente".

Quando ele chegava aos sábados de manhã, por volta das dez, ela já lá estava sentada em frente ao televisor sintonizado num programa qualquer de vida selvagem, olhos ensonados, a mesma lentidão e mau humor matinais que lhe haviam de ser comuns para o resto da vida. Ele sentava-se em silêncio ao lado dela com uma enorme tigela de cereais a que acrescentava quatro insuportáveis colheres de açúcar e mastigava ruidosamente. Ficavam ali, a pastelar ao sol puro das manhãs perfeitas, até a mãe dele vir tocar à porta a chamá-lo para o almoço.

Nesse tempo ele não acreditava em portas ou obstáculos arquitectónicos de qualquer espécie e entrava-lhe em casa, saltando da varanda dele para a dela.

Depois vinha a memória de brincarem no elevador com os outros putos do prédio, de carregarem em todos os botões luminosos do painel, sairem em todos os andares, tocarem às campainhas e fugirem, pararem entre o 5º e o 6º piso, dispararem o alarme. Perceberam que as coisas tinham mudado entre eles quando ficaram fechados lá dentro durante um apagão: olharam-se constrangidos, ele sorriu aquele sorriso perfeito de sacaninha envergonhado e, pela primeira vez na vida, não souberam o que dizer um ao outro, pelo menos até a porteira os tirar de lá, meia hora mais tarde.

Ela cresceu depressa demais, de um mês para o outro, lábios-peito-coxas e outras arquitecturas feitas de suavidade, os ossos finos da clavícula e o seu côncavo, electricidade por lhes tocar, electricidade nas pontas dos dedos dele. "Estásolharpraonde, paspalho?" Tinham passado 15 anos desde então - tanto tempo?...

Às vezes, aos ésses por corredores de supermercado ou em marcha lenta pela faixa direita da auto-estrada, a caminho de casa, pergunta-se quando é que ela terá perdido aquela vontade férrea e silenciosa que lhe blindava o olhar e a impedia de se desmoronar, quando todos esperavam que o fizesse (os punhos cerrados e o sangue vermelhoescurobrilhante, as lágrimas a correrem-lhe, duas a duas pela cara, ele a limpar-lhe o joelho ainda cheio de areia e pedrinhas - "Doi muito?")

Desde que estava fora, ia sempre visitá-la quando vinha a casa, nas férias. Há três verões, saltou pela varanda dele para a dela, como dantes; ela reconheceu o estrondo adolescente da aterragem a pés juntos na tijoleira. Ficaram ali, a rir um para outro como reflexos.
O mês passado, ela contou-lhe num longo e-mail como se tinha separado recentemente - os punhos cerrados e o sangue vermelhoescurobrilhante, as lágrimas a correrem-lhe, duas a duas pela cara, ele a limpar-lhe o coração ainda cheio de areia e pedrinhas: "Dói muito?"


Ontem, às 2.30h da manhã, o telemóvel deu sinal de mensagem na cozinha. "Estás acordada?" Mas ela tinha acabado de se deitar.
E hoje, enquanto a lê, decide com pena que já é tarde demais para responder.
A dois mil quilómetros e 10 horas mais tarde, ele repete: "Estás acordada?" E murmura, só para si: "Abre os olhos. Estou mesmo à tua frente..."

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

JAZZ



Vou Obsequiar de Branco...
O Branco Silvestre...
Que de Incolor Te Veste...

Ser Transversal no Arco-Íris Celeste...
Que de Azevinho Te Despe...

Retratar de Jazz...
O Crepúsculo da Dormência...
Que os Teus Lábios Rastreiam...

Ser a Equidade e o Pêndulo...
Os Versos que Estas Simples Palavras Semeiam...

Vou Obsequiar de Branco...
O Branco Silvestre...
Que de Incolor Te Veste...

Colonoscopiar de Esbranquiçado...
Este Fado Dissimulado em Tons Magia...

Cantar Vagas Canções de Rebeldia...
Por Entre Lágrimas Púrpuras neste Dia...

Agarrar os Veios Rochosos...
Que Cruzam o Guião desta Prisão...

Beijar os Teus Seios Voluptuosos...
Com a Volúpia Carnal da Solidão...

Retratar de Jazz...
O Crepúsculo da Dormência...
Que os Teus Lábios Rastreiam...

Ser Redundante...Ser Sensorial...
Quando Grito Causa e Efeito por Defeito...

Ser Transversal no Arco-Íris Celeste...
Que de Azevinho Te Despe...

Palavrosa Lucidez Eterna...
Conceptuosa Timidez Materna...

Colonoscopiar de Esbranquiçado...
Este Fado Dissimulado em Tons Magia...

Dá-me...Jazz...
Leva o Vazio Assertivo e Redutor...

O Menino da Lua e o Pastor de Estrelas




- Mãe, olha a lua tão bonita! Posso ir lá ter?
- Não, meu querido. Só quem tem muito dinheiro. - respondia logo minha mãe
- Oh Mãe! Olha que lindo poema eu fiz para a lua!
- Estuda. Não faças essas parvoíces! - já era a resposta de minha mãe nos meus tempos de primária.
- Mãe! Vê a nota que a "stôra" de português me deu pela composição sobre a lua!
- Devias estar a estudar matemática. Não sejas cabeça-na-lua, cai na realidade. Estuda! - desesperava já minha mãe, vendo-me a escrever poemas e contos em vez de equações e gráficos, já no secundário.

Mas não conseguia evitar. Letras, palavras, frases, parágrafos, textos...uma pequena ribeira, depois um rio, a seguir um mar e por fim um oceano. Um oceano de mundos , cores, lugares, pessoas...um oceano de sonhos. Gostava de imaginar, de sonhar...E assim fui crescendo.
Nos meus quinze anos encontrei, uma noite, um velho sentado num banco de jardim. Silencioso, olhava as estrelas e mexia os lábios como se lhes falasse. Curioso, aproximei-me dele e, a medo, perguntei:
- Que está a fazer?
- Estou a juntar as estrelas. - calmamente respondeu
- Como é isso possível? - a curiosidade tinha-se apoderado de mim.
- Chamo-as pelo nome - continuou o velho
- Elas conhecem-me, sou o seu pastor.
- Quê?
- Sou pastor de estrelas. - afirmou o velho
Parte de mim dizia-me que ele era um louco e que me devia afastar. Já a outra parte, (quase de certeza a de menino sonhador) lá no fundo, acreditava nele e queria continuar a conversa. A segunda ganhou.
- Mas essa profissão não existe. E as estrelas não são como ovelhas... - disse eu, ainda mais curioso
- São-o no teu mundo mais precioso se assim o quiseres. - sossegava-me o velho - Basta quereres.
- Mas que mundo?
- O da tua imaginação, o dos teus sonhos.
- Mas é um mundo irreal, não existe. Minha mãe diz-me que devo ter sempre os pés bem assentes na terra e não andar a imaginar coisas. - disse, muito desconsolado pois era precisamente o que eu não queria admitir. Gostava do mundo dos sonhos. Gostava muito de sonhar, ainda que tudo o que sonhava não fosse verdade.
- Sabes, fui guarda nocturno por muitos anos. É dura a realidade de estar sozinho durante longas horas, a meio da noite. Foi aí que saí do duro e frio mundo da realidade para partir á descoberta do doce mundo da imaginação. E foi aí que achei a minha segunda profissão, a de pastor de estrelas. - contou-me o velho que , vislumbrando o céu, murmurou mais algumas palavras.
- Mas ninguém, nas pessoas que conheço, quer admitir esse mundo , só eu! - ripostei
- Nesse caso sonha para ti. Escrever ajuda um pouco a deixares a tua imaginação voar. Mas sobretudo sonha. - disse-me o velho - Não deixes de sonhar!
Já interessado ganhei confiança e perguntei-lhe:
- Há alguém a vigiar a lua?
- Olha que não. Gostarias de o fazer? - respondeu-me
- Pois sim. Ela sempre me fascinou! Parece uma bolacha a flutuar no meio do céu. É mágica, penso eu.
- Então, todas as noites, da janela do teu quarto, olha para a lua e fala com ela. Precisa de companhia....

E assim passei a menino da lua. Sem falta, todas as noites, olhava para a lua e falava-lhe. Contava-lhe histórias que ia inventando, recitava-lhe poesia, fazia-lhe confidências...a lua era a minha amiga. Não sei bem como, gradualmente as contas de matemática e outras ciências desapareceram do meu mundo. Restaram as disciplinas dos sonhos como o Português. Dediquei à lua poemas, textos banais que escrevia ou histórias saídas da minha imaginação fértil alimentada constantemente pelas mais diversas situações. Tudo me inspirava e inspira. O meu mundo expandiu-se, agora grita fortemente pelo direito à afirmação de um mundo que é das crianças por excelência. O mundo dos sonhos e da imaginação. Aquele mundo em que não se sabe distinguir entre o que é real e o que é fantasia pois a linha que separa os dois reinos é ténue, fraca. Não sinto vergonha alguma de viver neste mundo. Afinal, que mal tem ser sonhador? Sentado nesta secretária, olho as pilhas de escritos meus. Abro a janela e miro a minha lua, é de noite. Sou um fazedor de sonhos, sou o menino da lua e sobretudo sou....escritor.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Arrepio





Pára! Não leias nada e desliza rapidamente para outro lugar. O perigo espreita-te. Não permaneças aqui. Foge, corre depressa e esquece o arrepio percorrido no teu corpo. Esconde-te, senão ficarás como eu, sem retorno. Não acreditas? Não? NÃO? Ah…sorris? Por acaso julgas que enlouqueci ou sou uma mentecapta bipolar? Não creias nisso, aviso-te.
PÁRA! Ainda tens tempo, mas o tempo esgota-se na ampulheta do destino e o teu cérebro será uma bola de ping pong a empilhar-se na minha colecção de cérebros vazios e de mentes transmutadas.
Ahhhh…continuaste a ler, desprezaste avisos, achas-te um ser superior, não é?
Então toma atenção aos sinais, ao rictus sinistro surgindo aos poucos na tua boca, às mãos enclavinhadas como garras, aos olhos olhando noutra dimensão, à transformação do teu corpo noutro corpo que eternamente será o teu.
Continuas aqui? Ah Ah Ah !!
Eu dantes tinha flores no cabelo e estrelas nos olhos e partilhava o amor e a vida lançando-os às carradas como confetis coloridos.
Eu dantes acreditava em dias de glória e de alegrias, de dores e angústias, de sorrisos e choros.
Eu dantes era uma pessoa como tu e os outros, com sonhos e saudades lidando com o Bem e o Mal na arena do mundo.
A curiosidade mantém-te aqui? Não aproveitas a última oportunidade que te dou?
Então dir-te-ei quem sou e em breve serás como eu.
Sou o teu ser às avessas, sou aquilo que não és, tenho o que nunca desejarás ter, vejo o que jamais quererás ver, sinto o que não terás vontade de sentir.
Sou a Sombra da tua Luz, sou o Mal do teu Bem, sou a tua antítese de ser, sou a tua alma que fugiu cá para fora. Sou o teu medo, a tua raiva, a tua fealdade, a tua jarra de urtigas, o teu riso falso e demoníaco.
Sou tu e os outros quando deixam escapar a alma que vos suporta. E quando isso acontece como agora, sugo-te a alma que alimenta a minha carne, que me mata a fome.
Chegou a tua vez.

Vem.
Prometo que não dói, bem, dói um pouco na verdade. Na verdade, costuma doer bastante.
É sempre difícil desistir de nós próprios.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Beleza



Época de Natal, os locais públicos enfeitados, luzes que brilham e sonhos que despertam nossa imaginação. Sim! Com certeza é uma época mágica e deliciosa, uma época de fantasia e beleza. Beleza que encontramos em cada enfeite colocado, beleza que encontramos no brilho do olhar de uma criança que faz o seu pedido ao Pai Natal... mas o que vem de facto a ser beleza?

Ontem estive com uma amiga que considero muito,este ano resolvemos que não havia troca de prendas mas sim cada uma secretamente escreveria uma palavra que definiria a outra.

Quando abri o meu postal li: "beleza" fiquei a pensar que...


A beleza que se encontra em cada detalhe da natureza, no pulsar do ritmo da vida dos animais, que nada acumulam por ganância e têm sempre a certeza que o amanhã lhes será provido.

A beleza que se encontra nos pássaros que vivem em bando e que, quando um tem algum problema, alguns deles se deslocam e dão apoio, na busca solidária da cura.

A beleza que se encontra na função de cada ser vivo na natureza, que mesmo fazendo parte de uma cadeia alimentar, tem a função de dar continuidade ao desenvolvimento e manutenção do ecossistema. Está ainda nos rios e mares que tem a função da manutenção da vida do ser humano e dos animais na Terra.

A natureza é realmente bela e sábia e observando-a temos a plena certeza que por trás de tudo isso existe, sim, um Ser maior que planeou e concretizou cada detalhe com plena e absoluta sabedoria.

Nós, seres humanos, observamos a beleza muitas vezes medindo-a por padrões estéticos pré-definidos,em cada ser humano existe um ser essencialmente belo que pode ser despertado a qualquer momento.

Ter beleza significa ter equilíbrio!

Ser belo é trazer ao seu exterior todos os valores positivos e os sentimentos nobres que existem dentro de cada um de nós, é fazer renascer em permanência um novo você! Que frase estranha, mas por que não decidir hoje começar a viver de uma forma diferente...

Vida, beleza e prazer são uma coisa só! Viver assim significa a cada instante sentir a presença de um Ser superior que nos guia rumo aos nossos anseios maiores, rumo à concretização de nossa missão, da nossa expressão maior como seres humanos.

A beleza, portanto, se traduz na ética, na ajuda ao próximo,na solidariedade, no amor incondicional e, acima de tudo, na confiança plena em um amanhã melhor.


Foi a coisa mais bonita que alguém me disse.

Beleza és tu. Tu sim.Beleza tu sim Natureza.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Anjo Destruidor (em III actos)

Parte III



Cena I – Este

Quando eu olho em direcção a nascente pela manhã e vejo o Sol erguer-se lentamente em todo o seu esplendor sei que o novo dia existe, que não é um mito nem um conto de fadas. Sinto-o na luz ténue da aurora de Inverno que me retrai as pupilas, assustadas com o negro da noite que parece nunca acabar, ansiosas por saber o que se esconde entre sobras e murmúrios. Oiço-o no chilrear das aves e no restolhar das folhas, animadas pela expectativa de um novo dia. E nada é mais valioso que um novo dia.

A não ser que nos encontremos num canto escondido, esquecido e perdido entre as horas e os dias que não passam. Ai, não existe um novo dia e o Sol… o Sol é apenas uma ilusão.



Cena II – Sul

Ela chegou hoje e a primeira impressão que teve foi de medo. Medo por falhar, medo por não saber e ser apanhada. Medo que lhe façam mal e medo de lhes fazer mal. Mas quando passa pela porta não mostra medo, oh não… Mas também não mostra segurança, hesita. Pensa e repensa cada passo, cada gesto e hesita. Hesita quando lhe pedem o nome e ao que vem.

- Viviane I., sou enfermeira e começo hoje aqui na Instituição. Venho do Hospital de Santa Maria, onde terminei na passada semana o internado de especialidade e…
- Muito bem menina I. siga directa para o 3 piso e procure o gabinete do Dr. Nathaniel N., leve estes papéis e pode dar início ao seu processo aqui na Instituição. Não se esqueça, piso 3, ala de Psiquiatria.


Viviane sorriu, abriu os olhos em sinal de excitação pelo novo futuro que se ia começar a desenhar passo a passo, à medida que subiria aquelas escadas.


Cena III – Norte

Onde está o meu menino? O meu querido menino… ele estava aqui à minha beira, brincava com os seus bonequinhos, sorria para eles, fazia jogos e teatros que eu nunca percebia, mas eu sei que ele gosta de mim, como eu o amo a ele, nunca lhe faria mal. Aliás, que mãe é que pode desejar mal ao seu menino? Só uma mamã muito má, uma mãe horrível, um monstro!

Ele é o meu anjo, Deus que mo deu e ama-me muito, como eu a ele. É por isso que me está sempre a chamar… mamã, mamã, MAMÃ! Não me deixa dormir, nem me permite descansar, porque me ama e me quer perto dele, a velar por ele, a brincar com ele, mesmo que ele chore é porque sente a minha falta. Por isso me chama, mamã, mamã…

Mas onde está o meu menino? Estou desorientada, desnorteada, pensei que ele estivesse sozinho, mas oiço a rir e a falar, espreito pela porta entreaberta e vejo-o, pequenino, a passar as páginas dos seus livrinhos e a murmurar, murmurar… e quando me vê irrita-se, grita, chora, eu incomodo-o, sou má mãe… eu pego nele, como uma mãe deve pegar, com força, muita força… amo tanto o meu menino…


Onde está o meu menino, o anjo que Deus me deu e que me veio destruir…

Porque me sinto tão só?



Cena IV – Oeste

- Enfermeira I., seja bem-vinda à Instituição.

- Obrigado Dr N., como pode ver pelo meu processo e carta de referências, é com muita confiança e vontade de trabalhar que chego a esta equipe, saiba o Dr. que estarei sempre disponível para dar o meu máximo e ajudar como ach…

- Sra. Enfermeira, não vale a pena estar com esse discurso, aqui de nada lhe vai valer estar disponível ou indisponível, a Instituição não quer saber de si em boa verdade, quer vê-la a fazer o que tiver que fazer. Escolheu a ala ocidental, a ala Psiquiátrica, tem noção do que isso significa? Não tem, seguramente, ou então pensa que o seu lugar é aqui pelas piores razões possíveis.

- Dr. N., asseguro-lhe que…

- A menina não me assegura coisa nenhuma. Cheira a medo, tresanda. Consigo ver para além desses seus olhos ansiosos e agora gelados. Menina I., sei que não está preparada, ninguém está, nunca. Tenho mais anos de Instituição do que a menina de vida e continuo a sentir-me desamparado e perdido, não há dois casos iguais, cada paciente é uma história de vida e cada um tem segredos que a Enfermeira poderá não aguentar quando descobrir.

- Dr. N., com o devido respeito, está a subestimar-me. Sei o que sou, quem sou e sei que nada sei, tenho um mundo por descobrir, mas esta é a minha missão: servir os outros, pois só assim serei livre.

- Muito bem, muito bem. Então por onde quer começar a sua primeira ronda: pelo agorafóbico que ficou 16 anos sem sair de casa, pela anoréctica com comportamentos de cutting ou pela mãe catatónica que a única coisa que sabe dizer é que ouve e sente que o filho que ela própria sufocou está por todo o lado mas que nunca sabe onde ele está?