segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O tempo passou por nós, não vês?

Crescemos, tornámo-nos tristes.

No fundo, crescemos.

Perdemos as brincadeiras,

Os sentimentos sem sentido.

Perdemos a inocência,

A leveza das palavras

Que teimámos tantas vezes

Em esconder.

Não existem culpados,

Mas sentimos no nosso corpo

O ardor dos cactos,

Quando as lágrimas,

Queimando o rosto,

Caem desamparadas no chão.

Não há súplica que ecoe

Nos tempos de vidro,

Nas noites de metal,

Que nos ferem o peito.

Venho para dizer-te,

Que já não tenho endereço,

Que já não tenho idade,

Que este já não é o corpo

Onde tantas vezes te escondias.


Paulo Eduardo Campos, in "Na serenidade dos rios que enlouquecem", Amores Perfeitos, 2005

12 comentários:

  1. Paulo, como sempre brilhante.
    Posso dizer que já li alguns dos teus textos e adorei cada um!
    Excelente estreia :)

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  2. A aridez fria que fica depois da plenitude. Muito bom, Paulo. Gosto particularmente da forma como as palavras transmitem a ideia de uma dor cruciante, quase uma lâmina.

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  3. @Sandra Nunes & Sandra Monteiro: Obrigado pelas vossas palavras

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  4. tudo vai mudando, menos o amor...muito bom, Paulo!!

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  5. Obrigado Natália. É bom que o amor não mude :)

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  6. "Nos tempos de vidro, / Nas noites de metal" Bem-vindo, Paulo Eduardo Campos. Poesia que se reflecte no vidro e marca a metal as folhas de papel.

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  7. Obrigado Tiil. Gostei bastante do que li no "fumo azul"

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  8. Sim, há noites de metal que nos ferem o peito, de tal modo que o nosso corpo deixa de servir para esconderijo.
    Em seguida vou em busca do teu blogue que não tenho a certeza de conhecer.
    Gostei da tua escrita.

    Anamar(pseudónimo)

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  9. Obrigado Anamar pelas tuas palavras.
    Eu não tenho nenhum blog :)
    O "fumo azul" é do(a) Tiil

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  10. "Não existem culpados mas sentimos no nosso corpo o ardor dos cactos..." Belíssimo poema, muito bem finalizado. Queremos mais. :)

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