Postal de Férias II



De profundis clamo ad te

Cheguei bem, não te preocupes. Aqui todos são extremamente cordiais e diligentes, de pronto trataram da minha bagagem e me conduziram aos aposentos, vividamente perfumados a amarelo e púrpura, com paredes ornadas de peste e almofadas tingidas a angústia escura com motivos florais de violações e sepulcros.

Sinto-me em casa, oiço o canto dos dependurados e o coro de enfermos que se dissolvem entre os seus próprios gritos de agonia e rugidos de terror, assomo à janela e contemplo toda a beleza desta paisagem, desde o prado onde apodrecem lentamente os cadáveres de nado-mortos por reclamar, as montanhas de ossadas e uniformes de soldados desconhecidos, florestas de membros decepados de prostitutas e os rios de pus onde nadam usurários e chantagistas, que se empurram delicadamente no desespero de se manterem a flutuar, ainda que tal ilusão de salvamento implique os ataques repetidos de corvos vorazes que se banqueteiam com as suas faces destorcidas.

De dia, um sol verde e negro irradia com violência e cresta toda a semente que ouse brotar entre o sal que cobre as feridas abertas que emergem das areias sulfurosas, enquanto bestas hediondas cobertas de escamas e cornos devoram os incautos que foram apanhados pelo amanhecer selvagem, pequenos animais com dentes serrilhados chafurdam com os focinhos entre as entranhas das vítimas que, sem pálpebras, são obrigadas a testemunhar a derradeira violação dos seus corpos abandonados pela sorte.
De noite, levanta-se frequentemente um sufocante nevoeiro carmim com sabor a sangue azedo, porventura dos escravos que são fustigados sem piedade pelos mestres negros que os pões a girar e puxar alavancas das pesadas máquinas que levam a água ácida e pungente até aos castelos flamejantes onde os duques e marqueses deste abismo se banqueteiam com as almas dos pedófilos e dos juízes que os deixaram por condenar, assim como das mães autistas que, perante o medo de ficarem sós e mal-amadas, preferiram defender os amantes molestadores que com perfídia e luxúria se serviam alarvemente dos corpos de seus filhos e filhas.

Agora vou desfazer as malas e dar uma voltinha, já tenho a trela estranguladora, adorno impreterível para qualquer vaidoso que se preze e eu não quero ser visto por aqui como mais um verme peçonhento. Leve o corpo coberto de peles de cabras invejosas e o cabelo preso por fios ténues dos atilhos que prendem preguiçosos aos seus rituais de autocomiseração.

Enfim, estúpida e fraca como és, vejo-te em breve, sem mim por perto para te adular em troco do conforto de teu quinhão de ouro, terás tempo de sobra para de acobardares pelo frasco de comprimidos adentro e fazer a viagem até aqui.

Se achas que a vida ai é um tormento vais adorar isto aqui,
exspectat inferi,
Y.

Comentários

  1. Ainda mesmo diante do inferno que nós criamos na consciência com os nossos erros deliberados, ei-lo, bondoso,com o seu amor...transformando-o em lixívia que lhe cura as mazelas da alma...

    estou de queixo caido!!!

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  2. Acho que o autor deste texto tem sérios problemas por resolver, é melhor ir-se tratar!!!!!

    ... ou então escrever mais ;)*

    beijos doces ^^

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  3. Raios!!!
    Quando acho que a tua escrita não me pode surpreender mais...
    D e l i c i o s o!!

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  4. Dante ao cubo. Talk about a postcard from hell... :) Adoro o final. Que descida deliciosa ao submundo.

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  5. LOL! E a até agora, tens 2 "que diabos!" no currículo. Acho que já merece um brinde... :) Tens que admitir que, para este texto, é uma reacção genial, hehehe.

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