segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Postal de férias



José,

Sempre disse que precisava de férias e agora, que as tirei de vez, fico instalada num lugar com vista para casa. Só estou a uma légua de distância por isso podes vir visitar-me sempre que te acabar a lenha para a fogueira ou o passado te encher a órbita dos olhos de moscas e fantasmas, à noite, quando enrolares o teu último cigarro. Ou se o gado se tresmalhar nos montes, arrastando-te o tino com ele. Ou quando os lobos descerem da serra e te chegar um frio ao coração, só de os ouvir a rondar ao longe – não vale a pena fazeres-te de forte; sempre te senti gelar, de repente, do teu lado da cama.

Os vizinhos aqui são sossegados. Vêm ter comigo com vozes de sopro, para falar dos filhos que não os visitam e das guerras de partilhas que agora os envergonham, inconformados com os campos por amanhar e os palheiros ao abandono. Muitos não perceberam ainda por que estão aqui e o que lhes aconteceu. Alguns ainda voltam a casa todas as noites, ensinados pelos próprios pés como as ovelhas, mas não está lá ninguém para acender o lume ou pôr um copo de vinho na mesa e, se está, ninguém lhes consegue ouvir as queixas e gemidos.

Eu não. Sei bem como vim aqui parar e, se queres saber, estou bem melhor. Mais descansada. Não é que não gostasse de ti, homem, mas quando me apercebi dos grilhões nos pés já era tarde demais para te querer. Sempre estive mais presa à casa que o pobre cão que acorrentaste no quintal, mas que nos dias de festa ainda tinha licença para vadiar pelas ruas da aldeia. Os 12 filhos que te pari também não me ajudaram a soltar os nós.

Agora que aqui estou, tenho o dia só para mim. Descanso muito mas às vezes é um bocado aborrecido. Sabes bem que sempre tive bicho-carpinteiro. Agora, a esse juntaram-se outros que me fazem cócegas na laringe e nas falanges.

No Verão a terra é toda um pó quente e nem a sombra dos ciprestes me refresca os ossos. Ouço as cigarras à minha volta, no caldo da tarde, o seu coro temperado pelo cheiro da urze – às vezes lembram-me de quando me vinhas achar ao monte, às escondidas do meu pai, e ficávamos toda a tarde deitados na cama áspera do feno recém-cortado, a fazer renda na pele um do outro com as mãos sôfregas, enquanto as vacas fugiam para os lameiros dos vizinhos.

(Mas depois também me lembro do estalar da madeira nas minhas costas e do perfume do couro do teu cinto e passa-me a vontade de te lembrar.)

Mas, de vez em quando, para passar o tempo, deito os olhos uma légua em frente, na direcção do alpendre com a janela partida onde te vejo fumar ao final do dia, os olhos de repente vazios do brilho de raiva e algazarra que te ficava tão bem e a voz subitamente calada – estás espantado? Agora vejo tudo com muito mais clareza, curei-me, finalmente, das teias de aranha das cataratas. Também é estranho não te ouvir a berrar com ninguém, homem... nem pareces o mesmo. Mas agora já não resta por aí ninguém a quem berrar.

Deves te sentir sozinho.

Para ser sincera, esse é também parte do motivo deste postal. Prepara uma muda de roupa, pode ser aquele fato preto que levas à missa e a casamentos, porque vais precisar dela para vir ter comigo. Mas desta vez vais te calar e sou eu quem sai do seu lado do sono para se montar em cima de ti, a cicatrizar-te a pele de remorsos e a uivar-te como os lobos.

E se, até lá, precisares de dinheiro, guardei algum por baixo da pedra solta junto ao forno do pão... e não te esqueças de regar a horta ao fim da tarde – o cebolo já deve estar deitado, arranja quem to venha apanhar por que não vais ter tempo, acredita...

A tua esposa, que te aguarda ansiosamente;

Maria da Anunciação

Talhão do fundo,
Cemitério do Outeiro Bravo

6 comentários:

  1. a minha Aquilina Ribeiro from Hell, estás em grande forma!

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  2. Escreve mais por favor (vou ler outra vez).

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  3. Imagens reais...excelente descrição.

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  4. Gosto mesmo muito do que escreves. Crias emoção e interessa crescente nas pequenas narrativas que constróis. Adoro esta personagem que mostra a realidade comum a tantas muheres.

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  5. Adorei a capacidade escritiva que nos leva para lá, dentro do sítio onde estás a ver o que tu estás a ver... Adorei, também, porque adoro pequenas surpresas como cerejas dentro do bolo!

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