quarta-feira, 10 de agosto de 2011

pés presos aos pés da mesa (parcas palavras 1)

Quando o Bruno acordou Maria estava a sorrir genuinamente. Tinha numa mão dois copos e na outra um garrafa.

"- Para que é isso?"

"- Quero que passes um bom dia. Este dia é especial para ti, e quero-te feliz, mesmo que não seja na minha companhia."

"- mas..."

"- Aceita antes que o arrependimento..."

"- Obrigado."

O dia seria passado com o passado. Dói, numa dor fina, como um corte de uma folha de papel por entre os dedos, mas preferia sentir a dor do que contrariar uma vontade, mesmo que isso implicasse nunca mais o ver.

Já dias antes mediante.

"-Este livro é o preferido dela, nunca o li."

"-Gostavas de o ler"

"-Sim"

Ofereceu-o com uma dedicatória de quem o quer ao seu lado, mas que o corpo presente parece marcar ainda mais a sua ausência.

Nunca mais o viu, ou o Bruno entrou na fantasia do livro ou se afogou no vinho dentro de um dos copos.

in "guardanapo de papel numa esplanada, 2004"

3 comentários:

  1. Belíssimo apontamento.
    Mas ficou um sabor a pouco, um desejo de saber mais.

    Anamar

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  2. Obrigada AnaMar. É de facto um apontamento de uma longa história.

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  3. Queremos a história, para conhecer-mos melhor a Maria e o Bruno :)

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