quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Beijinhos ao medo



Fiquei com a nona pestana (a contar do canto de cima) presa quando estava a fechar a caixa. As outras todas quiseram ajudar e a sudorese só dificultou mais a situação. A caixa aflita começo a repetir baixinho “pestaninha, pestaninha, vai para o canto que te dou uma sopinha”. Hoje vou dormir com o olho bem aberto... de preferência a sentir a brisa. Mas que o sono demore e não me embale.
As caixas têm medo de pestanas, elas ardem, fazem chorar, não deixam abrir as dobradiças, não deixam soar a música cá fora. Hoje vou dormir com a caixa em cima da cara e com a pestana em cima do gozo de ser uma peste-na que encrava dobradiças. Hoje, (de apelido Futuro) vou sonhar com a manivela que faz a música soar, o olho vai sonhar com o click do estalar da pestana amputada, a caixa vai sonhar com o pincel que a coloriu e… o chão de água salgada vai reflectir o dormir da menina que pensava que podia ser feliz fechada dentro de uma caixa. No amanhã, (de apelido Presente), ela vai compreender que sempre que abrir a caixa deve deixar uma pestana lá dentro… sem lágrimas, sem sopinhas, sem medos. Nunca conheci uma pestana realmente má.
E tu caixa, guarda os toldos que já deram sombra aos olhos que brilham quando o sorriso perde a vergonha.

Eram nove vezes, num olho muito distante, uma menina que morava no canto da sopinha. Um dia a menina deixou de ter medo de pestanas... e de outros medos, porque sim.
- Búúú!!
(risos, sorrisos, risos)
E viveram risentes, até aos presentes.

4 comentários:

  1. À quarta palavra já sabia que era um texto da Inês Isabel
    Acho que isto diz muito

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  2. Tem razão, o Uber... Tens um estilo plenamente definido e identificável.... Muito bom, sinal de maturidade na escrita. Já podes começar a experimentar fora dele porque sabes o caminho de volta....

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  3. Gostei, identifiquei-o...:)

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