Valsa Electróide



É nesse momento que tudo ocorre
É quando a pele se despega da dormente carne
Quando o meu ventre arde e o mundo me abafa
Quando o meu olhar de esperança enfim morre
Deixo que o eu que sente por fim hiberne

E é quando eu sei que estou frio e só
Quando a boca cerrada me sabe a pó
Lanço a mão para te alcançar
A minha voz soa muda, sem ar
Sei que é hora de me entregar

Vago no olhar contemplo a sorte
Beijos secos na pele definham vazios
Anseio que explode, aperta o momento
Agarras a vida e desejas a morte
Relembras teus sonhos distantes e frios

A vida passa pelo estreito da ampulheta
Como areia fina do deserto esquizóide
Procuras consolo no fundo da valeta
Danças perdido a valsa electróide

Passo a passo, degrau a degrau
A cada passo respirar o fedor a pânico
Passas mais um passo, assomes a porta
Já não te interessa se é bom ou mau
Apenas a antecipação do delírio orgânico

O som da mala pesada a cair no chão
Enche a sala de caos e horror
Agora chegou o momento a sós
A cabeça que estala como um trovão
O coração que dispara como um tambor

É quando te sentas e contemplas o horizonte
Assumes o papel de lacaio debilóide
Lá em baixo fervilha sequiosa Sodoma
Rasgada no ventre pelo Aqueronte
Que emana vibrante um fulgor electróide

Os olhos pesados como as plúmbeas vagas
Do turbilhão dos céus que ora nos cobre
As horas perdidas, as horas esventradas
Por nadas que nos rasgam e enchem de chagas
Apodrecemos defuntos das causas mais nobres

Por ti, cederei
Por mim, negarei
Por nós, matarei
Por nada, morrerei

Para ti, meu amor
Serei humanóide
Por mim, meu amor
Não sou matéria nem som
Apenas electróide

Outro dia se apaga sob o cerúleo da abóbada
Outro nascerá radiante de ultra violeta
Como um livro antigo lido e relido
Retiro-me então para outra jogada
Mais uma volta na russa roleta

Trás uma coroa de rosas
Nos bolsos alecrim
Nos lábios belas prosas
Na minha campa jasmim

E assim avança o filme noir
Gravado em película de celulóide
Assim passamos a outra história
Sem ter que lembrar qualquer pormenor
Enquanto perdura na boca um sabor electróide

… e nada mais interessa enquanto outro dia passa

Comentários

  1. "... e nada mais interessa..." Tens razão, mas gosto de ter nos bolsos bocadinhos de prosas que tu tão bem nos ofereces.

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  2. Mais uma vez a dançar com a morte, uma das tuas damas de eleição.... Ainda não é desta que levas um "que diabo".

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  3. Uma dança que conheço bem...mas com belas nuances de quase primavera :-))

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