Uma rosa em forma de rosa





"Tu, que tens sempre tantas ideias, sugere-me lá uma prenda diferente daquelas coisas banais que se encontram nas lojas do costume", disse-me ele enquanto descíamos a avenida. Estremeci. Que fazer? Primeiro que tudo ter uma ideia de como são essas coisas que ele define como coisas banais e coisas diferentes, é subjectivo.
Mas calei-me para não o decepcionar.

Demos uma volta por lojas de objectos para presentes, e numa delas vi uma bota de latão. Boa ideia! Quero um par, digo eu. Só temos uma. Mas então? É que não é uma bota para calçar mas para pôr chapéus de chuva. Fico embaraçada com o meu erro e quase tropeço num gato de mármore decorado com flores que serve para fechar a porta. Percebi tudo. Antes de me afastar da loja dou de caras com uma frigideira de cobre pendurada na parede, não como frigideira, naturalmente, pois tem ponteiros e os números dum relógio. Um relógio em forma de frigideira. Deve ser para a cozinha, não há dúvida. Sei lá.
Ao lado vejo um par de escovas em forma de gato, um cinzeiro em forma de mão de mulher, um ferro de engomar decorado no estilo "não te esqueças de mim", e uns ferros a carvão para pôr bombons, uma tábua para cortar o paio em forma de porco, um candeeiro em forma de ramo de flores e uma lâmpada como um cacho de uvas - deve ser para o Outono.
Já bastante confundida, pensando numa súbita doença qualquer, vejo uma moldura em forma de relógio, um martelo em forma de peixe, um peixe em forma de martelo, uma queijeira em forma de galinha.

Nesse universo paralelo, quase em delírio visionário, vi um abrelatas em forma de espada, um barómetro em forma de leme, um livro-garrafa, uma garrafa-candeeiro, um barco numa garrafa, um vinho numa garrafa com luzes dentro, uma casca de noz para pôr nozes. Cambaleando, enfrento uma garrafa em forma de arquitectura e uma vivenda em forma de garrafa, e um cinzeiro em forma de casa por cuja chaminé sai o fumo do cigarro pousado à porta de entrada.
Dou voltas à cabeça, já não sei se o que vejo é real, já não sei se hei-de deitar a cinza do cigarro na mão ou na terrina da sopa.

Saio espavorida e entro numa loja de flores num estado de semi inconsciência, e olho para o mar de rosas sem cheiro,de matizes vivos, quentes, observo desesperadamente as pétalas de arredondado elegante, a disposição das folhas dentadas, os espinhos. Que é isto? Para quê espinhos? Para criar um certo suspense entre a sua agressividade e a suavidade do perfume? O meu amigo observa-me com ar preocupado enquanto lhe digo sarcasticamente não, não leves uma rosa, um objecto que só serve para ser olhado ou quando muito para cheirar? Um objecto sem justificação e que convida a pensamentos fúteis?
Objecto inclusivamente imoral!!! Que ideia essa, a de oferecer uma rosa? Ele calou-se , compadecido. Coitada, é natal e ela não tem jeito para isto.
Por mim digo, é melhor comprar um isqueiro que seja isqueiro, um candeeiro que seja candeeiro, e uma bandeja que seja uma bandeja.
E sobre uma mesa que seja uma mesa, sentados numa cadeira que seja uma cadeira, estará uma rosa que será rosa, e um livro que será mesmo um livro.
Sento-me finalmente a beber um café. Respiro mais calmamente.E penso.
Hei-de comer uma francesinha à beira do Douro, pela primeira vez.
Tinha sido um fracasso, na ajuda ao meu amigo. Olhei-o de soslaio.
Ele sorriu. Eu já sabia , disse-me. A prenda era para ti. Mas em vez de prendas banais, vou mostrar-te o Porto como deve ser. O dia todo. A noite toda. Ri-me. Que prenda bonita que eu tive nesse dia.
E mais logo hei-de ir ver o pôr do sol na sua foz, pela primeira vez.

Comentários

  1. Um texto presente presente, como gosto de dizer.
    Com letras que são letras e palavras que são palavras e frases que são... ramos de rosas.

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  2. O caminho das rosas no milagre da escrita.
    Belo.

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  3. Porque por vezes somos máquinas em forma de gente, ou bestas com formas doces... Porque por vezes o invólucro (ou a carcaça como gosto de dizer) é mais do que realmente é, ou é o que não quer ser. Gosto sempre do teu mundo paralelo em forma de palavras. (hoje decidi dizer-te)

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  4. Gostei muito da cacofonia visual do bazar, o seu ambiente quase de Alice no País das Maravilhas, da certeza final de que os prazeres simples prevalecem. Um texto onde cada palavra é bem pesada e está no seu lugar certo, com um belo e cinematográfico final. Muito bom.

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