segunda-feira, 31 de janeiro de 2011



Pequena entrada em grande

Chegaste depois de bater a muitas portas. Os nós dos dedos eram já nós da madeira das portas, de tanto encontro. E doíam, gastando-se. Dia após dia, ano após ano, reinvestias empurrando a vontade de ser. Questionavas ser tua, a vontade. Afinal, a tua vontade era a deles. Afinal, eram eles que te pegavam nas mãos e batiam nas portas, todos os dias.

Mas só foi quando quiseste, só tu podias querer. A eles bastava-lhes crer. Só tu podias fazer com que, do lado de lá das portas, se fizesse ouvir a vontade. Só tu podias ser.

A passagem pela porta acabou por não ser uma mera entrada. Foi uma grande saída. Foi um passo definido e não em falso, como todas as outras batidas nas portas. Ainda assim entraste, de rompante, contra os dias deles, e as noites, e todas as horas que lhes restavam. Invadiste-lhes os instantes vagos e preenchidos. A estes, desocupando-os com realeza e mestria, na volta de um choro ou de um sorriso.

Agora atravessada a porta, enches tudo até às abóbadas mais altas. As paredes e cantos do coração. E iluminas, dia e noite, o casebre daqueles que te pegaram nas mãos no dia em que bateste à porta e finalmente entraste.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Pão



Olhei instintivamente para o lado. Percebi que era um mendigo daqueles que carregam sacos e provavelmente não tomava banho há muito tempo. Ele estava ali, olhando para a mesma situação, para os pássaros. Nos olhamos brevemente. Houve um bem-estar de aceitação de um com a presença do outro. Naquela época da minha vida, não havia nenhuma discriminação entre aquelas pombas, aquele homem ou qualquer condição social. Simplesmente olhava para aquela pessoa. Tudo era um momento único,acontecendo sob atenção plena.

De repente, aconteceu algo inesperado. Várias pombas foram bicar o mesmo pedaço de pão e quando uma tocou, e mais duas tocaram, antes de puxarem o pão ao mesmo tempo, elas largaram. Largaram com tanta intensidade - acreditando que as outras iam pegar, imagino eu - que elas deram as costas e deixaram aquele enorme pedaço de pão.

Olhei para o lado e o nosso amigo mendigo abriu um sorriso que depois se transformou numa gargalhada. Aquele pedaço de pão estava ali parado. Nenhuma das pombas chegou mais perto dele. Olhei com surpresa, o mendigo levantou se, agarrou aquele pedaço de pão -o maior deles- sorriu, olhou para mim e falou:

- Acho que elas me deram. é servido?
- Não, muito obrigado... Respondi.

Fiquei a olhar a cena, a enorme felicidade daquele homem comendo aquele pão seco do chão que era, na verdade, o resto das pombas. Ele era muito feliz, com a mão suja, encardida, os dentes partidos que dava pra ver de longe, e um forte odor de falta de limpeza. Ele sentou se com a satisfação de uma pessoa que se senta num restaurante para comer o melhor prato. Olhava pra mim, sorria e falava:

- Obrigado! Obrigado! Obrigado.

Talvez ele não comece naquele dia, mas a humildade dele era tão grande -porque se ele fosse uma pessoa movida pela fome ele teria simplesmente espantado as pombas e recolhido os pães- que ele esperou para ver se sobrava.A gratidão dele era imensa, como se tivesse ganhado a loteria ou conseguido fechar o negócio da sua vida. E era só um pedaço de pão velho, esquecido. Esquecido até pelos animais...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Correia



Lamentas?
O tempo a passar corta
Arrasta-se sempre e corta
Mas tu engoles tesouras
Pensas que talhas a giz
E cortas com o estômago
Sempre que te encostas a mim
Dizes que é pelo tracejado
Que não dói
Não?
Mesmo quando os dedos são linhas de alinhavar
E criam nós entre eles
Enleiam-se
Partem-se
(Ninguém tem paciência para os nós)
Mas tu vais direito às bainhas
Rematas pelos pulsos
Espetas a agulha
Casas o padrão do tecido
O tempo a passar corta
E os teus descendentes nascem
São meninos que brincam com carretilhas
Descrevem círculos dentro das minhas pupilas
E sorriem
Eu oiço
Mas não há som que me grite
Só o toque do coágulo lacrimal
Que vês a deslizar sempre e corta
Lamentas?
A correia da máquina há muito que se ausentou.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Caixa



Eu cometi um grande erro: pensei que o coração era meu.
Mas Ele veio e arrebatou me...
Então, eu percebi que eu não era mais meu.
Porque, diante d'ele eu não era coisa alguma.
E o caminho que eu seguia, também nunca foi meu.
Sim, eu estava enganada: tudo era Ele.
Sempre foi assim... Mesmo quando eu pensava estar sozinha.
Ah, quantas vezes Ele me sustentou, sem que eu O percebesse...
E quantas vezes Ele me livrou de situações perigosas...
E, quando eu pensava estar no comando, era Ele que me impulsionava...
E, por mais que eu errasse, Ele sempre me amparava.
Ele veio e encheu o meu coração de flores amarelas e azuis.
E disse me : "Diante dos ventos da maldade, oferece flores.
O coração é um ser espiritual sob o comando da Luz.
Pensa em Mim dentro do teu coração. E abraça o mundo em silêncio.
E deixa o Meu Amor fluir por ti, como a música viajando pelo ar...
Como a brisa suave, Eu levo os males para longe, numa lufada de Ar
E, não te esqueças: o Amor não tem inimigos. E a tudo transforma.
Oferece flores invisivelmente... Aos homens da Terra e aos espíritos tristes.
Ah, Ele partiu e deixou me uma caixa e um perfume no ar...
E arrebatou me nas ondas de um Grande Amor...

Conto esta história, que não é minha. Enquanto a escrevo olho para uma caixa.Ela encerra partes deste amor. Lá dentro está um livro de poemas, nunca o li. Basta-me lembrar de quando ele mo lia, baixinho.

Um dia passarei esta caixa para as mão de alguém será a guardiã, tal como eu também fui.
Escolherei aquela que viver com o coração mais cheio...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Nariz



Cheiras-me a água da chuva.
Chuva miudinha.
Tropeças nas Cumulonimbus e ao chegares ao chão deixas espaços secos por onde não quero passar.
E não passo.
Oriento os pés e estico-me tanto que a ponta do meu nariz fica corada com o toque líquido do teu estado.

Ontem choveste-me e isso abalroou a minha pedra abraçada por coronárias. (Pensei que as goteiras só fizessem as delicias dos pinga-amor).
Hoje marcaste o início da vigência do artigo definido “o” em direcção ao que eu achava não ter direito e isso fez-me ficar com cócegas nos sonhos.

Quando o sol voltar a brilhar vou procurar as poças de água.
Vão cheirar a ti…
E ao tocar-lhes vão suspirar ondas de propagação em direcção aos bordos da ferida que deixaste no meu caminho.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Contrato Social (Parte III de III)

Parte III - Daltonismo (Epílogo)



Verde, amarelo, azul… violeta, castanho, milhões de cores, biliões de interpretações, uma versão para cada uma delas, por cada um de nós. Por isso decidimos, quando ainda dávamos os primeiros passos enquanto espécie que haveria algo fundamental a firmar, se queríamos prosperar e conquistar o mundo. Um contrato. Haveria que estabelecer limites, regras básicas que todos entendêssemos e pudéssemos facilmente cumprir. Fronteiras a respeitar e capacidade para aceitar invasões dessas mesmas fronteiras. Aprender a mentir, a aceitar a mentira, contornar a verdade e selecionar as palavras certas, a viver e construir sobre essas mentiras que se acumulam com a maior naturalidade deste mundo, sobreviver e controlar. Controlar os desejos, os pensamentos, as vontades. Minimizar os conflitos e conciliar o inconciliável quando havia um inimigo comum pela frente, ou filhos para criar, cooperar mesmo com aqueles que sabemos que nos querem derrotar ou nos podem afundar, respeitar os limites mesmo sabendo que vamos enlouquecer, abraçar o grande desígnio da rede social.

Então, aprendemos a contar pequenas mentiras como “juro que não fui eu mamã”, “só tenho olhos para ti meu amor”, “é um prazer ouvir-te, podia fazê-lo durante horas”, “por favor, quero fazer parte da equipa”, “é um privilégio tê-lo cá connosco chefe”, “claro que é teu filho”, “sim querido, fazes-me vir sempre” e ”já estava morta quando eu cheguei”…

Aprendemos a preencher os espaços em branco e a dominar o negro, onde realmente existimos, fora dos olhares e do contrato social que assinámos com a multidão que nos rodeia…



Aliás, o que seria de nós se um dia esse contrato expirasse?


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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Contrato Social (Parte II de III)

Parte II: João 8:32



Cena I: Daltonismo
A vida é a cores. Uns vêm verde e suspiram por mudança, outros preferem o amarelo e enfardam gorduras saturadas ao som de rádios popularuchas. Muitos preferem o azul, pois tem miríades de tons, brilhos, nuances, preenche os dias e salpica-nos a imaginação com sonhos e ilusões. Dizem que é a cor preferida dos mágicos e místicos, pois esconde muito mais do que revela. Há também os que preferem que tudo seja cinzento, assim não terão que tomar nenhuma decisão, ao contrário dos que vivem no branco, eternamente ansiosos por preencherem o vazio com mil milhões de pequenas e absurdas tarefas, o quotidiano preenche-os e garante-lhes que o vazio permanece, verdadeiramente, vazio. Negro, tantos há que nada vêem porque tudo o que tocam, sentem ou perspectivam é negro. Não saberão que o negro não existe? É simplesmente a ausência de luz, de algo que não brilha, que não emite energia, de algo vazio, só e inquietante. Escolhem o negro por isso mesmo, é mais fácil ser-se vazio do que preencher a vida com experiências e sentimentos dolorosos. É melhor estar só do que partilhar o que somos, pois quando o que somos não é nada, nada haverá a partilhar se nada tivermos para oferecer. E isso inquieta-os, deixa-os à beira do colapso e exorcizam toda a cor que deveriam usar para comunicar com os demais, perdidos entre o colapso do branco e o devaneio do vermelho. Mas ainda não vos falei do vermelho, é a cor da violência, do descontrolo, do frémito impaciente que trepa pela espinha e gera um pensamento absurdo, que nos leva a cometer crimes e a ser sôfregos pela carne, sôfregos pelo dinheiro, sôfregos por tudo o que não temos mas certamente merecemos. Vermelho, sangue, fogo, luxúria.
Um erro clássico, contudo, pois tudo depende do olhar de quem contempla… As cores não são mais do que referenciais, ícones de aquiescência consensual, redigidas por maioria qualificada e intransigente. Entre o branco e o negro não haverá grande discussão, mas se para mim não for assim? Se para mim for o vermelho que me enche de esperança e me faz sonhar com um admirável mundo novo? Que tipo de homem serei eu?

Onde está a verdade então?



Cena II: Eva
E Deus disse: “blah, blah, blah…”. De facto, não disse nada, ou se disse não interessa, porque não estava lá ninguém para O ouvir. Mas algo aconteceu. A génese não é um mito, ou onde estaríamos nós sem Deus, Criador, Universo, gerador de tudo, o bom e o mau, o eterno e o dissolvente, o saber e o mortal. Do Homem, Deus criou o Homem, imagine-se para quê, até porque é sabido que o Senhor do Infinito tem os seus caprichos, aniquila a sua criação de quando em vês e reinicia o jogo, com novas peças e regras, novos cenários. Para isso, basta-Lhe criar um acidente, uma causalidade, um “ups…" cósmico e lá vamos nós, mais um click-click-click-click na roleta russa e, de olhos bem fechados, rezamos para que não se oiça um grande grande BANG!

De todos os Nobres que regem o Universo Infinito, aquele que governa a parte do espaço que nos diz respeito, a quem damos o nome de Deus, seja em que idioma for, é considerado como um dos mais competentes, criativos e interventivos. Os outros Nobres, que nós desconhecemos inteiramente por vivermos na profunda ignorância que o Mundo não vai para além do que os nossos miseráveis sentidos e pueril mente conseguem projectar, variam bastante em forma e feitio, alguns são fortemente interventivos e jogam com a Criação como se fossem peças de xadrez. Outros são simplesmente ausentes, foram comprar cigarros a uma qualquer tabacaria cósmica e deixaram os filhos à espera de um retorno que tarde ou nunca acontecerá. Os seus Mundos giram descontrolados e fora de compasso, colidindo entre si e gerando o caos que dará forma à nova matéria, que se transformará em novos mundos, com nova Criação e assim por diante. Mas o nosso Senhor é de outra estirpe, mais do que o Criador, é um Criativo. Gosta de intervir, criar cenários e situações estranhas e observar como se comportam as criaturas. Mas, lá está, aqui é imbatível, não gosta que O detectem, está e não está, é com uma onda de calor, todos a sentem mas ninguém a consegue agarrar, tocar, guardar junto de si. Mas inunda as criaturas, deixa-as presas à crença de que o Pai as salvará mas, se não o fizer, era porque seria então essa a Sua vontade. Cheque e Mate, não há como perder este jogo.

De vez em quando, Deus franze a testa, rói a unha do polegar esquerdo enquanto reposiciona as peças e tenta deste modo relembra as criaturas de que ele está ali, o Imanifestado Omnipresente, ora absorto ora obcecado.

O Senhor dos Tempos olha para uma pequena e bela criatura, formosa e doce e chama-lhe Eva. Ela irá gerar uma nova vaga por entre o mar revolto da Humanidade. Eva trás um presente para todos nós.

O Todo-Poderoso decidiu, o jogo vai começar. Aliás, é um jogo bem curioso, não adivinham qual é? Por mais incrível que pareça, não foi Deus que o inventou mas sim… o Homem. É divertido, arrebatador e gera as reacções mais genuínas nos pequenos seres que fermentam como leveduras por toda a Terra.
O nome do jogo? “Verdade ou Consequência”

 Eva, você é concorrente, venha jogar…



Cena III – O início da Sequência
…actgatcatatcacgataaaaaaagggaggagggagtagatagtatcggtagagtcggtaggcttggacccagtatttaaagggagggacgcacccacggccagtatatgatagtagatgagtcttcgcgtcggatagg…


Ninguém sabia de onde tinha vindo. Um casal de idosos ia a caminho do supermercado e vira-a deitada à beira da estrada, nua mas, aparentemente, intocada. Estava inconsciente e trouxeram-na para o hospital. A equipa de urgências apressou-se a prestar-lhe auxílio e a tentar diagnosticar o que se passava com a jovem, mas, por inacreditável que parecesse, nada detectaram a não ser que estaria… a dormir!

Levaram-na para um quarto de recobro e esperaram que despertasse. Em tom de gozo apelidaram-na de ‘Bela Adormecida’ e houve mesmo um grupo de enfermeiros mais jovens que cometeu a imprudência de a fotografar com os seus telemóveis e colocar fotos dela nas redes sociais, a perguntar se haveria por ai um príncipe que lhe quisesse dar um beijo suficientemente forte para a despertar. Isso só serviu para atrair um bando de imbecis, sociopatas e pedófilos, dado o ar muito jovem e formoso da frágil Bela.

Mas finalmente, ao 7º dia ela acordou, abriu os olhos sorrateiramente, ergueu primeiro a cabeça, depois o torso, com o apoio dos braços e, já na posição de tronco elevado ergueu os braços sobre a cabeça e espreguiçou-se com demora. Quando olhou à sua volta já era observada por dois enfermeiros, um sénior e um dos rapazolas que a tinha fotografado e ainda um auxiliar que congelara agarrado ao cabo da esfregona, paralisado pelo inesperado despertar. De pronto chamaram a médica de serviço para vir aferir do estado da paciente. “Olá menina, sente-se bem, sabe onde está?”. Mas ela não respondia, sorria e com os olhos verde-mar, enormes e resplandecentes mirava-os a todos, em sereno silêncio, de como quem bebe água para se refrescar. Fitou-os um a um, com um olhar penetrante, que parecia trespassar a carne para melhor ver a alma. Ao mesmo tempo, parecia que procurava algo. Quando chegou a vez de cruzar o olhar com a médica subitamente parou de sorrir. Ficou séria e começou a semicerrar os olhos, que agora pareciam cinzento-pérola. “A menina está bem? Como se sente? Sabe-nos dizer quem é?”. E eis que a ‘Bela Adormecida’ mexeu os seus lábios, meio trémulos e suspirantes e diz:

“Eu trago a verdade e venho para vos libertar”

Repentinamente lança a sua mão sobre o braço da médica que se assusta e deixa cair a ficha em sobressalto.

“Sou Eva, venho das estrelas e trago-vos uma mensagem do Divino”

A sala gelou e encheu-se de luz branca, cada vez mais forte e mais forte, cegando a todos num clarão violento que subitamente coalesceu sobre si próprio num único ponto de luz azul metálico brilhante rodeado de negrume e laivos de vermelho. E… nada. Quando voltou a normalidade a cama estava vazia, perfeitamente arrumada e aparentemente intocada. Em pânico silencioso as quatro testemunhas trocaram olhares, sem conseguirem sequer exalar um sopro.
Ninguém disse uma única palavra durante alguns minutos, até que o auxiliar murmurou algo, que ninguém percebeu. O enfermeiro mais velho moveu finalmente a cabeça na sua direcção e pediu-lhe que repetisse o que dissera.

- Eu…. eu… roubo medicamentos e vendo-os a outros doentes fora do hospital. -
- O que está a dizer? Do que está a falar? -
- Eu não suporto este trabalho, desprezo-vos a todos, por inveja e desespero, roubo os stocks de calmantes e psicotrópicos e vendo-os nas ruas.-
O rapaz mais novo suava em bica e olhava aterrorizado para a médica.
- Calma – Dizia ela. – Temos que tentar perceber o que se passa aqui, certamente que haverá uma explicação científica e lógica para o que vimos, ou melhor, não vimos, quem sabe, estamos todos cansados, terá sido uma alucinação colectiva, ficámos temporariamente ausentes, algo se passou –
- Algo certamente se passou, Doutora – Afirmava com estranha solenidade o enfermeiro mais velho – O que se passou é o que sempre se passa, a mania das grandezas dos médicos, convencidos que só eles sabem explicar as coisas, que são mais que os outros, que são uns iluminados! Sabe a Doutora, que tem menos uns 20 anos que eu, quantas médicas e médicos já aturei na minha vida? Sabe quantas vezes tive que ouvir e aceitar opiniões idiotas e completamente despropositadas só porque estou abaixo de si e daqueles como você? –

- Eu copiei nos exames. – Disse o jovem enfermeiro, no meio do clima de tensão crescente.
- Mas o que é que isso interessa agora? Estão loucos, o que vos deu? – Gritou a médica, no meio de um ataque de pânico que lhe fazia desabotoar a bata com nervosismo. – Eu quero sair daqui, eu tenho que sair daqui e já! –

Em menos de 10 minutos todo o hospital estava sob enorme agitação, havia gente a correr, gente a gritar coisas estranhíssimas, desconexas, sem sentido. Um paciente agarrado a um suporte com soro gritava a plenos pulmões “Eu trai a minha mulher, eu trai a minha mulher que tudo me deu, tantas vezes, oh meu Deus, o que fiz eu?”. Uma jovem enfermeira chorava acocorada a um canto e soluçava: “Quero sair daqui, quero sair deste hospital, desta terra, quero ir-me embora, tirem-me daqui!”. Ao fundo do corredor um polícia disparou dois tiros para o tecto, o que fez com que todos parassem assustados e gritou: “ Exijo que parem já! Todos quietos! Se alguém se mexer leva um tiro, garanto-vos que leva um tiro! Não seria a primeira vez que mataria alguém só porque me sentia ameaçado e inseguro, portanto calem-se, fiquem quietos e não se mexam!”

Um quarto de hora depois, quando finalmente chegou o auxílio dos bombeiros bem como um esquadrão da polícia de intervenção para tentar controlar a situação e perceber o que se passava, já o cenário era dantesco. Havia gente a matar-se uns aos outros com as próprias mãos, enfermeiros a chorar e a asfixiar doentes terminais com almofadas ou a dar-lhes sobredosagem de morfina, outros gritavam insultos e ameaças aos médicos que se escondiam atrás dos equipamentos e móveis, havia quem se suicidasse com objectos cortantes ou se atirasse da janela em gritos de desespero, havia até gente que fornicava em grupo, entre consensos e óbvias violações, ninguém se parecia importar, não havia limites. De imediato, as forças da segurança tentaram fechar o perímetro e conter a situação infernal que ali se desenrolava, em menos de 10 minutos o hospital estava fechado e sob controlo. Felizmente era um pequeno hospital de província e afastado da povoação, com sorte, com muita sorte, a situação seria gerida de modo a não espalhar o pânico e logo se haveria de ver como lidar com os media que não tardariam a chegar.


Cena IV - "Limpeza ao corredor das frutas e vegetais, temos um incidente"
A meio do corredor das frutas e vegetais, o velho homem vira-se para a sua mulher e diz:

- Se tu não estivesses comigo tinha-a montado. –
- Que dizes homem? Que disparate é esse, de que falas? –
- Não percebes o quê? Sou um homem ou não sou? Há muitos anos que não me interessas, percebes, para me satisfazer. Mas o desejo está cá. Quando vi aquela rapariga, nua e inconsciente, se estivesse só tinha encostado o carro, pegado nela e leva-la um pouco mais para dentro da mata e, ah por certo, tirar prazer daquele corpo de anjo. Eu não iria aguentar, preciso de sexo, com uma mulher a sério, não com uma pobre velhota como tu. Quero satisfazer os meus desejos, preciso dos meus desejos satisfeitos!
- Cala-te já, mas que dizes tu, enlouqueceste? Mas que te deu?

De imediato formou-se um círculo de pessoas em volta do casal de idosos que discutia com crescente inflamação. Era hora de almoço e o supermercado estava cheio. Entre os assistentes havia um jovem rapaz que olhava para o relógio com ar de quem tem que voltar rapidamente para o emprego mas que não consegue evitar a curiosidade. Ao seu lado, uma mulher pequena e de cara deformada perguntava-lhe “Menino, diga-me o que se passa, eu não me consigo endireitar para ver”. “Minha senhora, é só escabeche entre um casal de velhos, coisas de gente casada e sem paciência para se aturarem”, dizia uma mulher muito bem vestida, excessivamente bem vestida para aquela hora do dia e para estar num supermercado. “Ainda aparecem lá no meu tribunal”, falava um homem alto, seco e severo, com ar de autoridade. “É melhor ligar para a central, cá para mim isto ainda vai dar notícia para o jornal das 6”, dizia entre dentes um homem visivelmente excitado com os acontecimentos.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Contrato Social (Parte I de III)

Parte I: “Minha Senhora, desejo o livro de reclamações”




Acto I - Prelúdio


“Ring-a-ring-a-roses,
A pocket full of posies;
Atch-chew, atch-chew
We’re all tumbled down”

Oh poeta, visionário,
Crente em nada
Teu era o número,
A Europa caiu aos pés do invasor,
666
A doença, a Peste
Levou-os, entre rosas e cinzas



Acto II – A vida como sempre a conhecemos durará para sempre


Cena I

- Minha Senhora, desejo o livro de reclamações!
Tinha chegado ao seu limite, ela, que até era ponderada, calma. Naquele dia simplesmente não aguentou mais aquela afronta, ser tratada como uma cadela e ter que engolir? Chega, chega de ser delicada, polida, civilizada. Aquela gente do café não merecia, eram rudes com ela, não suportavam a sua face deformada pela paralisia infantil e fingiam que não a viam, tardavam em a atender, como se ela tivesse a peste. Mas nesse dia, ela não aguentou mais e sentiu que não deveria de todo engolir e calar. Há coisas que têm que ser ditas!


Cena II
- Senhor Eng.º pode subir ao escritório do Director? Ele está à sua espera, de imediato se não se importa.
O jovem homem, certo que nada bom o esperava, subia as escadas ao compasso do desassossego que caracteriza a rês que trespassa a porta do matadouro. Estava ali há três meses, era o seu primeiro trabalho, um estágio profissional numa empresa de despachantes. Despachado ia ele ser hoje, disso tinha a certeza, pois a altura é de crise, o terror paira no ar e ele sabe que é descartável, é apenas um miúdo. Um miúdo que sobreviveu nas ruas à sua custa, que trabalhou como servente nas obras, empregado de café, segurança de bar de alterne, tudo para pagar os estudos que os pais, pobres agricultores desamparados das berças nunca poderiam pagar. Ele que viu a irmã cair na teia da prostituição, primeiro por dar-se com quem não se deveria de dar, como era o caso do “amigo” com que trabalhara na segurança do clube de diversão para empresários, era assim que o intitulavam. Ao princípio era tratada como uma menina fina, depois, com os copos e o pó, foi-se deixando abater sobre o solo que lhe fugia dos pés, começou por servir às mesas e pouco depois servia aos quartos. Agora, serve-se quando pode do cocktail de comprimidos para o tratamento da infecção retro-viral…
O jovem homem engolira tanta coisa, humilhações, privações, desilusões… tinha mil anos e cada passo das escadas pesava-lhe uma tonelada, as pernas vergavam sobre a fúria cega de ter que aceitar mais este castigo, estalava o chicote do algoz e a rês permanecia muda, mas o sangue fervia, o fel escorria e a garganta secava de ansiedade, Ele não ia subir ao cadafalso e simplesmente tombar, estava saturado de tanto abuso, de tanto se vergar.
Entrou, sentou-se e ouviu. Ouvia com atenção e subserviência, as mentiras enleadas em fios de seda para parecerem reais, não no sentido de representarem uma realidade, mas sim o tom de realeza, o Senhor agia, gesticulava e seguia num sentido solilóquio enquanto mostrava ao cordeiro que ele iria salvar os pecados da empresa com o seu sacrifício.
Afinal de contas, era demasiado para aceitar. Ele merecia aquele lugar, não era certamente culpa sua que a empresa estivesse a afundar. Muito teria contribuído para isso a vida de despudor feudal do Director, sempre em altas andanças e putaria. Quem sabe se até não andou pelo antigo clube por onde ele trabalhou? Quem sabe não foi um dos vermes que se enrolou na sua irmã? Mas porque ter que aguentar isto tudo? Era como se uma febre louca se apoderasse dele, perdia o controlo e queria ceder ao impulso que urgia satisfazer.
O jovem homem não suportava a ideia de ter que se vergar aquele senhor e tudo o que ele representava e, em boa verdade, não achava que teria realmente que o fazer. Levantou-se e interrompeu a verborreia que já se alongara demasiado. Olhou o director nos olhos, pegou na lâmina de abrir correspondência e disse-lhe, sem hesitar:
- Agora basta. Chegou o momento de alguém lhe mostrar quem você de verdade!


Cena III
Hoje não lhe apetecia fumar um cigarro. Hoje nem lhe apetecia fazer sexo mas lá lhe acedeu. Hoje não se veio nem fez de conta que se vinha. Quando ele saiu de cima dela e se deitou de barriga para o ar ela esperou dois minutos e disse-lhe ao ouvido:
- Eu nunca te amei. Case contigo por dinheiro, por segurança, pelo luxo e vida social.
- Não te percebo… porque me dizes isso agora, dessa forma?
- Não sei, tive que o fazer.


Cena IV
O tribunal emudeceu. O que tinha sucedido era inenarrável, impensável. As pessoas olhavam à sua volta incrédulas, mudas e assustadas. A meio do julgamento de um caso sem qualquer interesse, uma ridícula burla empresarial mal ensaiada, uma entre tantas, o juiz interrompeu e perante todos assumiu que era corrupto e que manipulava os processos conforme lhe fosse mais favorável ou proveitoso. E de seguida dera um tiro na têmpora com uma arma que havia escondido dentro do bolso da batina…


Cena V
A meio do noticiário o pivot congela. A única frase que sai dos seus lábios ao fim de mais de um minuto de silêncio aterrador foi: “É tudo mentira, tudo uma ilusão”.
A emissão caiu, entra no ar um fundo patriótico com a seguinte frase em destaque:
“A emissão segue dentro de momentos”


Cena VI
Lá fora, o mundo estremece e por todo o lado as pessoas começam a dizer tudo o que lhes vem à cabeça, sem qualquer filtro, medo, respeito ou pudor, tudo porque não conseguem mais mentir, esconder ou evitar as palavras. Aqui e ali ouvem-se tiros e sons de destruição. Pelas ruas correm pessoas assustadas e outras estacam catatónicas.



Cena VII
A noite avança e definha. O Sol irrompe no horizonte desfeito.
O dia amanhece vermelho...

Aqui jaz o a minha dança



No dia em que dancei, naquele em que me valsaste (e sim, começa-se sempre pelos pés e pelas mãos) chegaste bem vestida, com uns saltos altos que tiquetavam todos os azulejos do chão do corredor. Visita para mim, pensei assim que te vi à porta do quarto. Já do lado de dentro fechaste a porta à chave e de forma quase ilusionista engoliste-a. Elegantemente olhaste-me e antes de perguntares como me sentia hoje puxaste os lençóis para trás e deixaste à vista o que mais se destacava em mim, ossos. Segredaste-me ao ouvido "tens o corpo dos meus preferidos. Quero-te!"

Enquanto respirava oxigénio misturado com as secreções dos meus pulmões encharcados vi-te a retocar a maquilhagem. Digo-te, não é por isso que ficarás mais bela mas ao menos sempre fica um aroma a pó de arroz no ar. "Agora tu" voltaste a soprar para dentro do meu ouvido. Nunca na vida me deixei ser pintado, ó desgraçada! Inependentemente disso, só sei que o pincel que usavas era suave mas deixava uma sensação de substância pegajosa na cara, o batom parecia areia a deslizar nos meus lábios e o rímel pesava toneladas nas pestanas. Tentei manter os olhos abertos dentro das covas. Por essa altura, respirar parecia um gesto suavizado e sabia bem... sabia tão bem não sentir as costelas contra o colchão de pressão alterna. Encostaste a cabeça ao meu peito e como se o teu pensamento tivesse deslizado para dentro do meu coração ele bombeou "sabes dançar?" Digamos que a resposta nunca poderia ser negativa pois os teus braços já estavam à minha volta.

"Já te deixei com aquela cor, nem cinzenta, nem branca, nem amarela, simplesmente aquela cor" e sorriste. Pela primeira vez, desde há muitos anos, os meus olhos ganharam brilho, tanto que tiveste de fechar as tuas pálpebras antes de encostares os teus lábios aos meus.
Sempre disse que havia de morrer sozinho, sem ninguém a segredar em alto "coitadinho, é um penar".
Pois bem, naquele dia, nem a morte me viu a morrer.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Beijinhos ao medo



Fiquei com a nona pestana (a contar do canto de cima) presa quando estava a fechar a caixa. As outras todas quiseram ajudar e a sudorese só dificultou mais a situação. A caixa aflita começo a repetir baixinho “pestaninha, pestaninha, vai para o canto que te dou uma sopinha”. Hoje vou dormir com o olho bem aberto... de preferência a sentir a brisa. Mas que o sono demore e não me embale.
As caixas têm medo de pestanas, elas ardem, fazem chorar, não deixam abrir as dobradiças, não deixam soar a música cá fora. Hoje vou dormir com a caixa em cima da cara e com a pestana em cima do gozo de ser uma peste-na que encrava dobradiças. Hoje, (de apelido Futuro) vou sonhar com a manivela que faz a música soar, o olho vai sonhar com o click do estalar da pestana amputada, a caixa vai sonhar com o pincel que a coloriu e… o chão de água salgada vai reflectir o dormir da menina que pensava que podia ser feliz fechada dentro de uma caixa. No amanhã, (de apelido Presente), ela vai compreender que sempre que abrir a caixa deve deixar uma pestana lá dentro… sem lágrimas, sem sopinhas, sem medos. Nunca conheci uma pestana realmente má.
E tu caixa, guarda os toldos que já deram sombra aos olhos que brilham quando o sorriso perde a vergonha.

Eram nove vezes, num olho muito distante, uma menina que morava no canto da sopinha. Um dia a menina deixou de ter medo de pestanas... e de outros medos, porque sim.
- Búúú!!
(risos, sorrisos, risos)
E viveram risentes, até aos presentes.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sonata da Meia Noite



Um mocho pia.
Assusta-me.

Noite, noite amiga, por favor, manda-o embora
Traz um rato para que ele o possa perseguir.

O quê? Não podes?

Pois é, um rato não vale um medo...
Está bem, vou tentar pensar noutra coisa sem ser
Em histórias que parecem saídas de um filme de terror.
Sabes? Deve ser do meu coração....anda negro ultimamente.

O quê noite? Que dizes?
Que não és só medo?

É verdade, é verdade...
Olha...podes fazer-me um favor?

Qual?

Acende a Lua.
Cheia se puderes. E traz-me aquele brilho das estrelas.
Sinto a falta delas. Não as vejo desde que amanheceu.

Gostava de ter agora aqui a outra metade do meu coração
Seria perfeito, maravilhoso
Uma verdadeira Sonata.
Ou uma serenata ao luar. Quem sabe?

Podes trazer-ma?

Diferente



Diferente...

Sou o Peregrino das promessas vagas e das Certezas fúnebres...

O Panfleto que reinvidica a génese da Ordem natural das coisas...

A Mágoa que adormece ao amanhecer o Silencio que grita ao acordar...

O Sangue ligado á electricidade que acende o Candeeiro da alma...

A Perpétua prisão da Criação que as palavras Assinam na perfeição...

Sou o Insecto que vive no teu sotão e se alimenta do teu Ser...

O teu Sentimento vespertino que guardas nos preliminares do Desejo...

Sou a Exclamação Divina que professa as tuas Interrogações...

Diferente...

Sou o Lamento amargo de uma desculpa Maldita...

Sou Motorista e Poeta...

Egoísta e Profeta...

Sou o Linho sedoso que veste o teu Corpo de Madrepérola...

Sou a Bandeira da tua nudez e o Túmulo da tua História...

O Peregrino...
O Panfleto...
A Mágoa e o Sangue...

Diferente...

Sou as Lágrimas que Mergulham em Cascata neste Rosto feito de Erosão...

Diferente...

Diferente por Ser Assim...

Sou a Noite adormecida que hiberna na tua Alma...

O Musico e a Musica que navega nas ondas da tua Mente...

A Serpente assassina que o teu receio não Abomina...

O Paladar rústico que o teu Útero inala e Exala...

Um Rumúrio Bastardo...

A Flecha de Cardos que remove das tuas costas o peso dos Fardos...

O Fado Vadio que a Guitarra ecoa espacial no Frio...

O Bairro Alto de Miscelânias Quentes e Incandescentes...

Diferente...

A Certeza Inacabada de uma certeza historiada Continuamente...

Gente circunspectra que se assoma á janela Dias Afim...

Rios Crispados de Rimas Soltas...E Revoltas...

Mares Salpicados e Prosas Sonoras...

Magnético Magnetismo que o Fogo Queima em Mim...

Antecâmara do Silêncio...

Quero Lamber o teu Bronze com o Suor do meu Desejo...

Diferente...

Diferente por Ser Assim...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Valsa Electróide



É nesse momento que tudo ocorre
É quando a pele se despega da dormente carne
Quando o meu ventre arde e o mundo me abafa
Quando o meu olhar de esperança enfim morre
Deixo que o eu que sente por fim hiberne

E é quando eu sei que estou frio e só
Quando a boca cerrada me sabe a pó
Lanço a mão para te alcançar
A minha voz soa muda, sem ar
Sei que é hora de me entregar

Vago no olhar contemplo a sorte
Beijos secos na pele definham vazios
Anseio que explode, aperta o momento
Agarras a vida e desejas a morte
Relembras teus sonhos distantes e frios

A vida passa pelo estreito da ampulheta
Como areia fina do deserto esquizóide
Procuras consolo no fundo da valeta
Danças perdido a valsa electróide

Passo a passo, degrau a degrau
A cada passo respirar o fedor a pânico
Passas mais um passo, assomes a porta
Já não te interessa se é bom ou mau
Apenas a antecipação do delírio orgânico

O som da mala pesada a cair no chão
Enche a sala de caos e horror
Agora chegou o momento a sós
A cabeça que estala como um trovão
O coração que dispara como um tambor

É quando te sentas e contemplas o horizonte
Assumes o papel de lacaio debilóide
Lá em baixo fervilha sequiosa Sodoma
Rasgada no ventre pelo Aqueronte
Que emana vibrante um fulgor electróide

Os olhos pesados como as plúmbeas vagas
Do turbilhão dos céus que ora nos cobre
As horas perdidas, as horas esventradas
Por nadas que nos rasgam e enchem de chagas
Apodrecemos defuntos das causas mais nobres

Por ti, cederei
Por mim, negarei
Por nós, matarei
Por nada, morrerei

Para ti, meu amor
Serei humanóide
Por mim, meu amor
Não sou matéria nem som
Apenas electróide

Outro dia se apaga sob o cerúleo da abóbada
Outro nascerá radiante de ultra violeta
Como um livro antigo lido e relido
Retiro-me então para outra jogada
Mais uma volta na russa roleta

Trás uma coroa de rosas
Nos bolsos alecrim
Nos lábios belas prosas
Na minha campa jasmim

E assim avança o filme noir
Gravado em película de celulóide
Assim passamos a outra história
Sem ter que lembrar qualquer pormenor
Enquanto perdura na boca um sabor electróide

… e nada mais interessa enquanto outro dia passa

Vermelho Sangue



Escuro, holofotes vermelhos
Astmosfera tensa de sangue
Os lentos dedilhares da viola
Aceleram, começa a festa

Aparece primeiro a dançarina
Bela, entre os laivos de vermelho
As mãos, as suadas mãos
Marcam o compasso frenético

Vem o homem, negrume da noite
A Bela retrai-se para um canto
Os tacões dos dois ressoam
O sangue aquece ao rubro

Negrume da noite, querendo impressionar
Oferece a Bela uma rosa vermelha
Ela acerca-se lenta, a medo
Aceita o presente e deixa-se ir

A dança aquece, rodopiam
A viola larga notas de fogo
Vermelho e preto misturam-se
Negrume e Bela são só um

Rodopiam nos braços um do outro
A música pára. Ouvem-se palmas.
E vermelho e preto enrolados
Soltam um quente e terno beijo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

1000 Rosas




O meu mundo é a Broadway. Aquela magia dos teatros fascina-me, o cheiro dos perfumes caros que senhoras emproadas não se esqueceram de pôr antes de vir ao teatro, o cheiro dos charutos dos homens que as acompanham, etc. Musicais, dramas, comédias....tudo me fascina.

Quem sou eu? Apenas um solitário viajante das palavras. As pessoas lêem o que eu escrevo, falam comigo na rua, interpelando-me por meros autógrafos, mas não me conhecem. Não conhecem o homem, que viajando ao mais ínfimo dos sonhos, lhes traz histórias, poesia..... O homem solitário que vagueia entre teatros, observando-os. O homem, que apesar de tudo o que pode ser, não deixa de ser homem. O homem que sonha amar um dia e ser correspondido. E até esse dia surgir, continuará a vaguear pelo seu mundo na procura do seu bem mais precioso, imaginação. Continuarei a deambular por aqui, talvez por um breve período de tempo, talvez eternamente.

Mas as minhas deambulações dão-me ensinamentos, histórias... Sobretudo histórias.

Vêem esta rosa no meu bolso? Está seca, eu sei, mas guardo-a como recordação da maior prova de amor a que alguma vez assisti.

Nas minhas rondas pela zona dos hotéis, estava eu conversando com o meu amigo James Monroe defronte de um grande hotel, quando vejo um rapaz dos seus dezoito anos carregando uma grande mala escada acima. Notava-se a dificuldade com que ele a carregava. Nisto, um senhor embate contra a mala e ela cai no chão, abrindo-se. Dentro dela estavam cem rosas vermelhas, talvez mil... O rapaz, desconsolado, apressa-se a tentar apanhar as rosas mas as pessoas que por ali passavam já as tinham pisado. Conseguiu salvar duas. Aproximei-me dele e perguntei:

- Para que queres tu, rapazito, tantas rosas?

Ele respondeu-me que eram para a rapariga dos seus sonhos, a Elizabeth. Que iria declarar-se nessa noite e as rosas eram uma ajuda.

Ofereceu-me uma. Atónito, perguntei-lhe porquê. E foi então que deu a resposta mais impressionante que eu alguma vez ouvi:

- Não se preocupe. Fique com essa para si como recordação. Uma basta-me para demonstrar-lhe o que sinto.

Pediu-me também que imortalizasse o seu amor nas minhas palavras. Chamou-lhes sopro de magia, mas não sei, talvez tenha sido o melhor dos elogios que recebi. Mas a rosa, continuo a mantê-la comigo...talvez apareça alguém a quem a possa dar.



quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Uma rosa em forma de rosa





"Tu, que tens sempre tantas ideias, sugere-me lá uma prenda diferente daquelas coisas banais que se encontram nas lojas do costume", disse-me ele enquanto descíamos a avenida. Estremeci. Que fazer? Primeiro que tudo ter uma ideia de como são essas coisas que ele define como coisas banais e coisas diferentes, é subjectivo.
Mas calei-me para não o decepcionar.

Demos uma volta por lojas de objectos para presentes, e numa delas vi uma bota de latão. Boa ideia! Quero um par, digo eu. Só temos uma. Mas então? É que não é uma bota para calçar mas para pôr chapéus de chuva. Fico embaraçada com o meu erro e quase tropeço num gato de mármore decorado com flores que serve para fechar a porta. Percebi tudo. Antes de me afastar da loja dou de caras com uma frigideira de cobre pendurada na parede, não como frigideira, naturalmente, pois tem ponteiros e os números dum relógio. Um relógio em forma de frigideira. Deve ser para a cozinha, não há dúvida. Sei lá.
Ao lado vejo um par de escovas em forma de gato, um cinzeiro em forma de mão de mulher, um ferro de engomar decorado no estilo "não te esqueças de mim", e uns ferros a carvão para pôr bombons, uma tábua para cortar o paio em forma de porco, um candeeiro em forma de ramo de flores e uma lâmpada como um cacho de uvas - deve ser para o Outono.
Já bastante confundida, pensando numa súbita doença qualquer, vejo uma moldura em forma de relógio, um martelo em forma de peixe, um peixe em forma de martelo, uma queijeira em forma de galinha.

Nesse universo paralelo, quase em delírio visionário, vi um abrelatas em forma de espada, um barómetro em forma de leme, um livro-garrafa, uma garrafa-candeeiro, um barco numa garrafa, um vinho numa garrafa com luzes dentro, uma casca de noz para pôr nozes. Cambaleando, enfrento uma garrafa em forma de arquitectura e uma vivenda em forma de garrafa, e um cinzeiro em forma de casa por cuja chaminé sai o fumo do cigarro pousado à porta de entrada.
Dou voltas à cabeça, já não sei se o que vejo é real, já não sei se hei-de deitar a cinza do cigarro na mão ou na terrina da sopa.

Saio espavorida e entro numa loja de flores num estado de semi inconsciência, e olho para o mar de rosas sem cheiro,de matizes vivos, quentes, observo desesperadamente as pétalas de arredondado elegante, a disposição das folhas dentadas, os espinhos. Que é isto? Para quê espinhos? Para criar um certo suspense entre a sua agressividade e a suavidade do perfume? O meu amigo observa-me com ar preocupado enquanto lhe digo sarcasticamente não, não leves uma rosa, um objecto que só serve para ser olhado ou quando muito para cheirar? Um objecto sem justificação e que convida a pensamentos fúteis?
Objecto inclusivamente imoral!!! Que ideia essa, a de oferecer uma rosa? Ele calou-se , compadecido. Coitada, é natal e ela não tem jeito para isto.
Por mim digo, é melhor comprar um isqueiro que seja isqueiro, um candeeiro que seja candeeiro, e uma bandeja que seja uma bandeja.
E sobre uma mesa que seja uma mesa, sentados numa cadeira que seja uma cadeira, estará uma rosa que será rosa, e um livro que será mesmo um livro.
Sento-me finalmente a beber um café. Respiro mais calmamente.E penso.
Hei-de comer uma francesinha à beira do Douro, pela primeira vez.
Tinha sido um fracasso, na ajuda ao meu amigo. Olhei-o de soslaio.
Ele sorriu. Eu já sabia , disse-me. A prenda era para ti. Mas em vez de prendas banais, vou mostrar-te o Porto como deve ser. O dia todo. A noite toda. Ri-me. Que prenda bonita que eu tive nesse dia.
E mais logo hei-de ir ver o pôr do sol na sua foz, pela primeira vez.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Bilhete


Para uns um barco
Lento,
Para outros avião
Apressado,
Para os demais comboio
Regular,

Não tem porto ou aeroporto
Nem pára na estação

É qualquer coisa sentida
Por vezes perdida
Bilhete? Só de ida.
Sem retorno
A vida.