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A mostrar mensagens de Janeiro, 2011
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Pequena entrada em grande

Chegaste depois de bater a muitas portas. Os nós dos dedos eram já nós da madeira das portas, de tanto encontro. E doíam, gastando-se. Dia após dia, ano após ano, reinvestias empurrando a vontade de ser. Questionavas ser tua, a vontade. Afinal, a tua vontade era a deles. Afinal, eram eles que te pegavam nas mãos e batiam nas portas, todos os dias.

Mas só foi quando quiseste, só tu podias querer. A eles bastava-lhes crer. Só tu podias fazer com que, do lado de lá das portas, se fizesse ouvir a vontade. Só tu podias ser.

A passagem pela porta acabou por não ser uma mera entrada. Foi uma grande saída. Foi um passo definido e não em falso, como todas as outras batidas nas portas. Ainda assim entraste, de rompante, contra os dias deles, e as noites, e todas as horas que lhes restavam. Invadiste-lhes os instantes vagos e preenchidos. A estes, desocupando-os com realeza e mestria, na volta de um choro ou de um sorriso.

Agora atravessada a porta, enches tudo até às abóba…

Pão

Olhei instintivamente para o lado. Percebi que era um mendigo daqueles que carregam sacos e provavelmente não tomava banho há muito tempo. Ele estava ali, olhando para a mesma situação, para os pássaros. Nos olhamos brevemente. Houve um bem-estar de aceitação de um com a presença do outro. Naquela época da minha vida, não havia nenhuma discriminação entre aquelas pombas, aquele homem ou qualquer condição social. Simplesmente olhava para aquela pessoa. Tudo era um momento único,acontecendo sob atenção plena.

De repente, aconteceu algo inesperado. Várias pombas foram bicar o mesmo pedaço de pão e quando uma tocou, e mais duas tocaram, antes de puxarem o pão ao mesmo tempo, elas largaram. Largaram com tanta intensidade - acreditando que as outras iam pegar, imagino eu - que elas deram as costas e deixaram aquele enorme pedaço de pão.

Olhei para o lado e o nosso amigo mendigo abriu um sorriso que depois se transformou numa gargalhada. Aquele pedaço de pão estava ali parado. Nenhuma das pomb…

Correia

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Lamentas?
O tempo a passar corta
Arrasta-se sempre e corta
Mas tu engoles tesouras
Pensas que talhas a giz
E cortas com o estômago
Sempre que te encostas a mim
Dizes que é pelo tracejado
Que não dói
Não?
Mesmo quando os dedos são linhas de alinhavar
E criam nós entre eles
Enleiam-se
Partem-se
(Ninguém tem paciência para os nós)
Mas tu vais direito às bainhas
Rematas pelos pulsos
Espetas a agulha
Casas o padrão do tecido
O tempo a passar corta
E os teus descendentes nascem
São meninos que brincam com carretilhas
Descrevem círculos dentro das minhas pupilas
E sorriem
Eu oiço
Mas não há som que me grite
Só o toque do coágulo lacrimal
Que vês a deslizar sempre e corta
Lamentas?
A correia da máquina há muito que se ausentou.

Caixa

Eu cometi um grande erro: pensei que o coração era meu.
Mas Ele veio e arrebatou me...
Então, eu percebi que eu não era mais meu.
Porque, diante d'ele eu não era coisa alguma.
E o caminho que eu seguia, também nunca foi meu.
Sim, eu estava enganada: tudo era Ele.
Sempre foi assim... Mesmo quando eu pensava estar sozinha.
Ah, quantas vezes Ele me sustentou, sem que eu O percebesse...
E quantas vezes Ele me livrou de situações perigosas...
E, quando eu pensava estar no comando, era Ele que me impulsionava...
E, por mais que eu errasse, Ele sempre me amparava.
Ele veio e encheu o meu coração de flores amarelas e azuis.
E disse me : "Diante dos ventos da maldade, oferece flores.
O coração é um ser espiritual sob o comando da Luz.
Pensa em Mim dentro do teu coração. E abraça o mundo em silêncio.
E deixa o Meu Amor fluir por ti, como a música viajando pelo ar...
Como a brisa suave, Eu levo os males para longe, numa lufada de Ar
E, não te esqueças: o Amor não tem inimigos. E a tudo transforma.
Oferec…

Nariz

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Cheiras-me a água da chuva.
Chuva miudinha.
Tropeças nas Cumulonimbus e ao chegares ao chão deixas espaços secos por onde não quero passar.
E não passo.
Oriento os pés e estico-me tanto que a ponta do meu nariz fica corada com o toque líquido do teu estado.

Ontem choveste-me e isso abalroou a minha pedra abraçada por coronárias. (Pensei que as goteiras só fizessem as delicias dos pinga-amor).
Hoje marcaste o início da vigência do artigo definido “o” em direcção ao que eu achava não ter direito e isso fez-me ficar com cócegas nos sonhos.

Quando o sol voltar a brilhar vou procurar as poças de água.
Vão cheirar a ti…
E ao tocar-lhes vão suspirar ondas de propagação em direcção aos bordos da ferida que deixaste no meu caminho.

O Contrato Social (Parte III de III)

Parte III - Daltonismo (Epílogo)



Verde, amarelo, azul… violeta, castanho, milhões de cores, biliões de interpretações, uma versão para cada uma delas, por cada um de nós. Por isso decidimos, quando ainda dávamos os primeiros passos enquanto espécie que haveria algo fundamental a firmar, se queríamos prosperar e conquistar o mundo. Um contrato. Haveria que estabelecer limites, regras básicas que todos entendêssemos e pudéssemos facilmente cumprir. Fronteiras a respeitar e capacidade para aceitar invasões dessas mesmas fronteiras. Aprender a mentir, a aceitar a mentira, contornar a verdade e selecionar as palavras certas, a viver e construir sobre essas mentiras que se acumulam com a maior naturalidade deste mundo, sobreviver e controlar. Controlar os desejos, os pensamentos, as vontades. Minimizar os conflitos e conciliar o inconciliável quando havia um inimigo comum pela frente, ou filhos para criar, cooperar mesmo com aqueles que sabemos que nos querem derrotar ou nos podem afundar, …

O Contrato Social (Parte II de III)

Parte II: João 8:32



Cena I: Daltonismo
A vida é a cores. Uns vêm verde e suspiram por mudança, outros preferem o amarelo e enfardam gorduras saturadas ao som de rádios popularuchas. Muitos preferem o azul, pois tem miríades de tons, brilhos, nuances, preenche os dias e salpica-nos a imaginação com sonhos e ilusões. Dizem que é a cor preferida dos mágicos e místicos, pois esconde muito mais do que revela. Há também os que preferem que tudo seja cinzento, assim não terão que tomar nenhuma decisão, ao contrário dos que vivem no branco, eternamente ansiosos por preencherem o vazio com mil milhões de pequenas e absurdas tarefas, o quotidiano preenche-os e garante-lhes que o vazio permanece, verdadeiramente, vazio. Negro, tantos há que nada vêem porque tudo o que tocam, sentem ou perspectivam é negro. Não saberão que o negro não existe? É simplesmente a ausência de luz, de algo que não brilha, que não emite energia, de algo vazio, só e inquietante. Escolhem o negro por isso mesmo, é mais fác…

O Contrato Social (Parte I de III)

Parte I: “Minha Senhora, desejo o livro de reclamações”




Acto I - Prelúdio


“Ring-a-ring-a-roses,
A pocket full of posies;
Atch-chew, atch-chew
We’re all tumbled down”

Oh poeta, visionário,
Crente em nada
Teu era o número,
A Europa caiu aos pés do invasor,
666
A doença, a Peste
Levou-os, entre rosas e cinzas



Acto II – A vida como sempre a conhecemos durará para sempre


Cena I

- Minha Senhora, desejo o livro de reclamações!
Tinha chegado ao seu limite, ela, que até era ponderada, calma. Naquele dia simplesmente não aguentou mais aquela afronta, ser tratada como uma cadela e ter que engolir? Chega, chega de ser delicada, polida, civilizada. Aquela gente do café não merecia, eram rudes com ela, não suportavam a sua face deformada pela paralisia infantil e fingiam que não a viam, tardavam em a atender, como se ela tivesse a peste. Mas nesse dia, ela não aguentou mais e sentiu que não deveria de todo engolir e calar. Há coisas que têm que ser ditas!


Cena II
- Senhor Eng.º pode subir ao escr…

Aqui jaz o a minha dança

No dia em que dancei, naquele em que me valsaste (e sim, começa-se sempre pelos pés e pelas mãos) chegaste bem vestida, com uns saltos altos que tiquetavam todos os azulejos do chão do corredor. Visita para mim, pensei assim que te vi à porta do quarto. Já do lado de dentro fechaste a porta à chave e de forma quase ilusionista engoliste-a. Elegantemente olhaste-me e antes de perguntares como me sentia hoje puxaste os lençóis para trás e deixaste à vista o que mais se destacava em mim, ossos. Segredaste-me ao ouvido "tens o corpo dos meus preferidos. Quero-te!"

Enquanto respirava oxigénio misturado com as secreções dos meus pulmões encharcados vi-te a retocar a maquilhagem. Digo-te, não é por isso que ficarás mais bela mas ao menos sempre fica um aroma a pó de arroz no ar. "Agora tu" voltaste a soprar para dentro do meu ouvido. Nunca na vida me deixei ser pintado, ó desgraçada! Inependentemente disso, só sei que o pincel que usavas era suave mas deixava uma sensação …

Beijinhos ao medo

Fiquei com a nona pestana (a contar do canto de cima) presa quando estava a fechar a caixa. As outras todas quiseram ajudar e a sudorese só dificultou mais a situação. A caixa aflita começo a repetir baixinho “pestaninha, pestaninha, vai para o canto que te dou uma sopinha”. Hoje vou dormir com o olho bem aberto... de preferência a sentir a brisa. Mas que o sono demore e não me embale.
As caixas têm medo de pestanas, elas ardem, fazem chorar, não deixam abrir as dobradiças, não deixam soar a música cá fora. Hoje vou dormir com a caixa em cima da cara e com a pestana em cima do gozo de ser uma peste-na que encrava dobradiças. Hoje, (de apelido Futuro) vou sonhar com a manivela que faz a música soar, o olho vai sonhar com o click do estalar da pestana amputada, a caixa vai sonhar com o pincel que a coloriu e… o chão de água salgada vai reflectir o dormir da menina que pensava que podia ser feliz fechada dentro de uma caixa. No amanhã, (de apelido Presente), ela vai compreender que sempre…

Sonata da Meia Noite

Um mocho pia.
Assusta-me.

Noite, noite amiga, por favor, manda-o embora
Traz um rato para que ele o possa perseguir.

O quê? Não podes?

Pois é, um rato não vale um medo...
Está bem, vou tentar pensar noutra coisa sem ser
Em histórias que parecem saídas de um filme de terror.
Sabes? Deve ser do meu coração....anda negro ultimamente.

O quê noite? Que dizes?
Que não és só medo?

É verdade, é verdade...
Olha...podes fazer-me um favor?

Qual?

Acende a Lua.
Cheia se puderes. E traz-me aquele brilho das estrelas.
Sinto a falta delas. Não as vejo desde que amanheceu.

Gostava de ter agora aqui a outra metade do meu coração
Seria perfeito, maravilhoso
Uma verdadeira Sonata.
Ou uma serenata ao luar. Quem sabe?

Podes trazer-ma?

Diferente

Diferente...

Sou o Peregrino das promessas vagas e das Certezas fúnebres...

O Panfleto que reinvidica a génese da Ordem natural das coisas...

A Mágoa que adormece ao amanhecer o Silencio que grita ao acordar...

O Sangue ligado á electricidade que acende o Candeeiro da alma...

A Perpétua prisão da Criação que as palavras Assinam na perfeição...

Sou o Insecto que vive no teu sotão e se alimenta do teu Ser...

O teu Sentimento vespertino que guardas nos preliminares do Desejo...

Sou a Exclamação Divina que professa as tuas Interrogações...

Diferente...

Sou o Lamento amargo de uma desculpa Maldita...

Sou Motorista e Poeta...

Egoísta e Profeta...

Sou o Linho sedoso que veste o teu Corpo de Madrepérola...

Sou a Bandeira da tua nudez e o Túmulo da tua História...

O Peregrino...
O Panfleto...
A Mágoa e o Sangue...

Diferente...

Sou as Lágrimas que Mergulham em Cascata neste Rosto feito de Erosão...

Diferente...

Diferente por Ser Assim...

Sou a Noite adormecida que hiberna na tua Alma...

O Musico e a Musica que navega…

Valsa Electróide

É nesse momento que tudo ocorre
É quando a pele se despega da dormente carne
Quando o meu ventre arde e o mundo me abafa
Quando o meu olhar de esperança enfim morre
Deixo que o eu que sente por fim hiberne

E é quando eu sei que estou frio e só
Quando a boca cerrada me sabe a pó
Lanço a mão para te alcançar
A minha voz soa muda, sem ar
Sei que é hora de me entregar

Vago no olhar contemplo a sorte
Beijos secos na pele definham vazios
Anseio que explode, aperta o momento
Agarras a vida e desejas a morte
Relembras teus sonhos distantes e frios

A vida passa pelo estreito da ampulheta
Como areia fina do deserto esquizóide
Procuras consolo no fundo da valeta
Danças perdido a valsa electróide

Passo a passo, degrau a degrau
A cada passo respirar o fedor a pânico
Passas mais um passo, assomes a porta
Já não te interessa se é bom ou mau
Apenas a antecipação do delírio orgânico

O som da mala pesada a cair no chão
Enche a sala de caos e horror
Agora chegou o momento a sós
A cabeça que estala como…

Vermelho Sangue

Escuro, holofotes vermelhos
Astmosfera tensa de sangue
Os lentos dedilhares da viola
Aceleram, começa a festa

Aparece primeiro a dançarina
Bela, entre os laivos de vermelho
As mãos, as suadas mãos
Marcam o compasso frenético

Vem o homem, negrume da noite
A Bela retrai-se para um canto
Os tacões dos dois ressoam
O sangue aquece ao rubro

Negrume da noite, querendo impressionar
Oferece a Bela uma rosa vermelha
Ela acerca-se lenta, a medo
Aceita o presente e deixa-se ir

A dança aquece, rodopiam
A viola larga notas de fogo
Vermelho e preto misturam-se
Negrume e Bela são só um

Rodopiam nos braços um do outro
A música pára. Ouvem-se palmas.
E vermelho e preto enrolados
Soltam um quente e terno beijo.

1000 Rosas

O meu mundo é a Broadway. Aquela magia dos teatros fascina-me, o cheiro dos perfumes caros que senhoras emproadas não se esqueceram de pôr antes de vir ao teatro, o cheiro dos charutos dos homens que as acompanham, etc. Musicais, dramas, comédias....tudo me fascina.

Quem sou eu? Apenas um solitário viajante das palavras. As pessoas lêem o que eu escrevo, falam comigo na rua, interpelando-me por meros autógrafos, mas não me conhecem. Não conhecem o homem, que viajando ao mais ínfimo dos sonhos, lhes traz histórias, poesia..... O homem solitário que vagueia entre teatros, observando-os. O homem, que apesar de tudo o que pode ser, não deixa de ser homem. O homem que sonha amar um dia e ser correspondido. E até esse dia surgir, continuará a vaguear pelo seu mundo na procura do seu bem mais precioso, imaginação. Continuarei a deambular por aqui, talvez por um breve período de tempo, talvez eternamente.

Mas as minhas deambulações dão-me ensinamentos, histórias... Sobretudo histórias.

Vêem esta…

Uma rosa em forma de rosa

"Tu, que tens sempre tantas ideias, sugere-me lá uma prenda diferente daquelas coisas banais que se encontram nas lojas do costume", disse-me ele enquanto descíamos a avenida. Estremeci. Que fazer? Primeiro que tudo ter uma ideia de como são essas coisas que ele define como coisas banais e coisas diferentes, é subjectivo.
Mas calei-me para não o decepcionar.

Demos uma volta por lojas de objectos para presentes, e numa delas vi uma bota de latão. Boa ideia! Quero um par, digo eu. Só temos uma. Mas então? É que não é uma bota para calçar mas para pôr chapéus de chuva. Fico embaraçada com o meu erro e quase tropeço num gato de mármore decorado com flores que serve para fechar a porta. Percebi tudo. Antes de me afastar da loja dou de caras com uma frigideira de cobre pendurada na parede, não como frigideira, naturalmente, pois tem ponteiros e os números dum relógio. Um relógio em forma de frigideira. Deve ser para a cozinha, não há dúvida. Sei lá.
Ao lado vejo um par de escovas em …

Bilhete

Para uns um barco
Lento,
Para outros avião
Apressado,
Para os demais comboio
Regular,

Não tem porto ou aeroporto
Nem pára na estação

É qualquer coisa sentida
Por vezes perdida
Bilhete? Só de ida.
Sem retorno
A vida.