quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Medo do Escuro



(Esta tem sub-história :) foi escrita para a minha prima pequena perder o medo do escuro há 5 anos - uma história de embalar feita só para ela)


- Avó! Fica comigo! - gritava aflita Mariana, ao ver a Avó a afastar-se depois de a ter deitado
- Mas porquê, querida? - responde a Avó
- Tenho muito medo do escuro. Fica comigo Avó! Não me deixes sozinha por favor - suplicava Mariana
- Mas não é preciso teres medo! Sabes, antigamente, o escuro também tinha medo de nós. Sossega querida, não há nada que te faça mal no escuro.
- Como? O escuro tinha medo de nós?
- Sim, Mas isso era quando eu tinha a tua idade. Foi há muito tempo.
- Conta Avó, conta! - disse Mariana, curiosa
- Mas não sei se me lembro bem da história.
- Vá lá.
- Está bem.A Avó sentou-se á beira da cama de Mariana. Lentamente, recostou-se ás fofas almofadas e começou
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Tinha eu alguns 7 anos como tu, Mariana. E como tu, todas as noites implorava para que alguém ficasse comigo até que eu adormecesse. Morria de medo do escuro.
- Mãe! Fica comigo! Tenho medo! - gritava, mal ela me deitava e se afastava
- Mas querida, não é preciso. Não há nada que te possa fazer mal. - respondia docemente a minha mãe, tua bisavó- Mas, está bem. Leio-te uma história.
Nisto, dirigiu-se á velha estante de carvalho que estava ao fundo do meu quarto e tirou um livro. "A Polegarzinha" lembro-me bem. E a história começou: "Era uma vez..."Embalada, fui ganhando sono. Sabes, ganhando talvez não. É mais divertido dizer que fui roubando sono ao João Pestana. E embalada, adormeci.
Mas, antes de entrar naquela fase entre o dormir e o estar acordado, penso que ouvi um chorar miudinho junto á janela do meu quarto. Não liguei.No dia seguinte, na escola, o tema da aula foi o medo e os vários medos que existem. Desfiou-se, naquele dia, um sem número de medos:
- De que têm mais medo? - perguntava a professora
- De cobras - gritava um
- De aranhas - acrescentava outro
- De sítios pequenos e fechados - disse, timidamente, a minha colega do lado
Toda a sala ecoou num enorme riso. A minha colega irrompeu num choro convulso, triste.
- Calem-se - gritou a professora, zangada- Não chores Ana. Porque tens esse medo?
- Porque...eu...eu...sofro de Claustrofobia. - disse a Ana, ainda soluçando num choro miudinho.
- Quê? Claus...quê? - gritou logo, de imediato, o arruaceiro da turma.
- Claustrofobia, o medo de estar em lugares pequenos e fechados. - finalizou a professora
Um "Aaannhhh" em uníssono irrompeu por toda a sala.
- Continuem - disse a professora
- Eu tenho medo de alturas, vertigens, como diz a minha mãe.
Chegou a minha vez. Timidamente, disse:
- Eu tenho medo do...do...escuro.
- Apoiado - gritaram uns
- Sim, também eu - gritavam outros
- Porquê? - disse a professora, na esperança que a ideia fosse desenvolvida. Tinha razão.
- Porque o escuro é mau! - começo eu
- E feio. - segue-se outro
- E...e...e...escuro - finaliza alguém
Nesse dia ouvi chorar outra vez. Estranhei, mas voltei a não ligar.Voltei alegremente para casa. Fiz os trabalhos de casa, brinquei, jantei, lavei os dentes e...nova choradeira."Fiquem comigo" pedia eu. "Tinha que perder este medo." respondiam os meus pais. Para piorar, o choro que ouvia continuou e continuou e cada vez a aumentar mais e mais. Continuava aterrorizada cada vez que me ia deitar. Até que um dia, melhor, uma noite, a minha mãe me sugeriu:
- Pega no lampião e procura no teu quarto. Assim verás que não há nada de mal no escuro.
- Está bem.
Peguei no lampião e lá fui. Comecei pelo armário, nada. A estante dos livros, nada. Debaixo da minha cama, nada.De repente comecei a ouvir um melodia suave de uma flauta. Como que hipnotizada dirigi-me á beira da minha janela. Não sabes o que é estar hipnotizada? É estar num transe, como que enfeitiçada. Puxei a cortina para o lado e encontrei um menino sentado no beiral da minha janela. Assustou-se e chegou-se para um canto.
- Porque é que te assustaste? - perguntei
- Tenho medo de ti.
Era um menino bonito. Preto, de olhos e cabelos negros como a noite. A Noite que eu tanto temia.
- Mas, porquê?
- Porque vocês não gostam de mim. - disse ele
- Vocês, quem? - perguntei
- Vocês, os meninos e as meninas.
- Como te chamas? - quis saber
- Sou o Escuro, o filho da noite. E como vocês acham que eu sou mau, não me deixam brincar com vocês. Tenho medo de aproximar-me e vocês quererem fazer-me mal. - disse, e começou a chorar.
Não acreditava nos meus olhos. O escuro, de que eu tinha tanto medo, era apenas um rapazinho pequeno, como eu. Deixei o medo de lado, enchi-me de coragem, olhei-o nos olhos e disse-lhe:
- Amigos? Mas não me assustas mais!Vim um brilho nos seus olhos negros.
- Juras? Posso juntar-me a ti cada vez que estiveres triste ou só. - disse alegremente
- E aquela música tão bonita que te ouvi a tocar. - acrescentei
- Toco-a para ti sempre que quiseres - a alegria já transbordava dos seus olhos
- Olha. Fazemos assim. Todas as noites, para não adormecer assustada, tocas a música. Assim, lembro-me de ti e sei que já não estou sozinha.
- Está bem.E assim fiquei amiga do Escuro. Brinquei com ele muitas vezes em criança. E ainda hoje ele toca para mim todas as noites para eu adormecer
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- Então Mariana, percebes porque não é preciso teres medo do escuro? - perguntou a avó.
Mas Mariana não ouviu. Tinha os olhos fechados, dormia. Mexia os lábios. Sonhava...talvez. A Avó tapou-a com os cobertores. Fechou a luz á saída do quarto, e uma flauta doce fez-se ouvir...
- Boa noite Mariana. E boa noite Escuro. - disse

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