segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011





Porque trajas de tão negras vestes?
Porque jejuas a vida e te curvas na imensidão do vazio?
Porque te escondes atrás do abismo,
esperando a noite que nunca chega?

O que haverá, para além da tal besta sadia que já nem procria?

Porque te entregas como cordeiro às mãos do desconhecido?

domingo, 27 de fevereiro de 2011

5.1

1.


Dorme, dorme, meu pequeno
Que a noite está a chegar
Fica perto da tua mamã
Para a escuridão não te levar


E se uma luz de madrugada vires
Do outro lado a piscar
Não a queiras seguir, meu querido
Que de onde vem a luz
Não há mamã para te amar

A criança dorme na paz dos anjos, embalada na cantilena de sua mãe, entre versos e murmúrios entra no submundo dos sonhos e perde-se na sua memória por formar. Vai explorando os recantos onde fotogramas do dia-a-dia se confundem com os sons flutuantes que escutava quando ainda submerso no ventre, seguro, longe muito longe do alto da montanha…

Todos os grandes carvalhos nascem de uma pequena bolota. Todos os grandes homens foram antes néscias crianças. Mas nem sempre a luz desses homens vem para nos guiar, inspirar, fazer crescer. Por vezes a luz, de tão forte que nos cega, afasta-nos do caminho e desesperamos por um lugar escuro, a salvo, salvos, esquecidos, sem que a luz nos detecte, nos projecte a sombra e nos assuste com vultos dançantes e que nos segredam: “nós somos o teu espelho, o prolongamento dos teus medos, as tuas falhas, oh mortal, somos o que sobra quando toda a luz é detida, somos a penumbra, a noite da alma”.

O homem-espelho ascende entre os seus iguais, discreto e benévolo, envolto em beneplácito acordo de que ele somos nós e nós sou ele. Ele está entre nós. Ele está dentro de nós. Não conhecemos limites à nossa própria descontinuidade, pois isso seria auto-destrutivo, a contemplação do fim do eu, o abismo para o inominável devir das coisas, um desígnio de morte em vida, os restos pungentes de um cadáver por descobrir, escondido na carne falante e andante que sorri quando está entre pares, que cogita quando só perante a parede, onde nada vê para além da sombra do seu ser, tal é o seu tamanho, enorme como Deus, minúsculo como um grão de nada, um pingo de coisa nenhuma, um suspiro vazio emerso pelo peso indizível dos dias que já nada nos dizem. Iguais. Entre os seus pares. O homem-espelho é vazio, porque está cheio de tudo o que temos dentro de nós para oferecer, que é nada, pois nada queremos oferecer, só sugar, como quando fincávamos as gengivas na teta de nossa mãe, que nos alimentava de sonhos e expectativas. Uma mãe-espelho. Um pai-espelho, que em nós se revê, que em nós projecta as suas memórias de fantasia do que não foi, do que queria ser, da menina que não beijou e que agora nos transforma em cobardes porque não a beijamos, nunca da forma como ele a beijaria. Do poder que não teve e sempre impôs, cruel pai-todo-poderoso que castiga os seus filhos para que eles brilhem sobre o fogo duro da autoridade cega. O pai dono da decisão que não tomou, porque se a tomasse aqui não estaríamos. Somos espelhos da frustração, da acção, das sombras dos nossos pais, projectadas sobre o infinito que agora é a nossa memória para o futuro, onde as sombras são raios de luz que nos assustam e nos cegam. Temos medo, muito medo, muito medo…


O homem-espelho é a criança-espelho que brilha entre seus pares, pois é o zénite de seus desejos, sem nada ser, sem nada ter para oferecer tem contudo dentro de si um universo infinito de pequenos nadas. Nós somos esses pequenos nadas que iluminam o espelho, refulgem sobre a sua superfície prateada, infinita, lisa, perfeita, zero de erro, zero de paralaxe, zero de sujidade, zero. Zero. Perante a criança-espelho somos zero, um enorme zero, porque quando nos vemos ao espelho vemos tudo o que somos, a superfície irregular, mortal, com defeitos inaceitáveis, zero de segurança, zero de confiança. Zero. Anulamo-nos quando comparados com ele, porque de imediato percebemos que ele e eu e tu somos o mesmo, somos reflexos de reflexos de luzes que nascem das trevas, das trevas em que somos concebidos e nos desenvolvemos, quentes e inseguros, no ventre de nossa mãe. Temos medo porque não temos limites, somos seres sociais, projectamo-nos uns nos outros, nos nossos pais, nos nossos filhos, dos nossos desejos, anseios, ansiosos por desejos que nos façam sentir menos nada, menos que nada.


Vivemos no outro lado do espelho, porque é mais confortável, não é real, nada é real e podemos ser o epicentro da nossa própria ascensão e autodestruição. Porque nos esquecemos dos limites e porque temos medo da luz que destrói as sombras elegemos o homem-espelho como ícone, líder, como Príncipe e nosso Salvador.

Por isso adorámos a criança-espelho, a ignorámos quando cresceu e aprendeu a ser homem-próprio. E porque nos falou dos limites e do fim das sombras, porque projectou a luz que nos fez perceber que não estávamos no lado de lá do espelho, porque nos falou de amor, como o oposto de zero. Porque somos zero partimos o espelho e crucificámos o Homem.



Este foi o primeiro dia da nossa gloriosa Civilização, refulgente, sem erros de paralaxe porque para sempre tínhamos um zénite para nos compararmos e para sempre sermos zeros felizes, em profunda miséria e desconfiança, com medo, muito medo, crentes no grande espelho da religião, fieis ao reflexo distorcido de um Messias que nos deixou perdidos no lado de cá do espelho.


Todos os grandes homens foram antes sábias crianças. E, muito raramente, a luz desses Homens vem para nos guiar, inspirar, fazer crescer.



Por vezes a luz é de tão forte que nos cega…

5.

0.


Um, só um de nós viverá para contar
Dois homens que subiram à montanha
Três versões para cada história, a minha, a tua e a verdade
Quatro dias bastarão para tudo revelar
Cinco passos para a viagem terminar
…e o Mundo para sempre mudar

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Briófita em sol maior



No primeiro degrau de baixo
quando faltavam três colcheias para a hora
bebias chá de rizóide
e eu, de pensamentos pianíssimos
fazia soar o desequilíbrio
(mas o teu modo fixo não te deixava cambiar o olhar).
No primeiro degrau de cima
muitas pulsações antes da hora
ao paladar da brisa matinal
doei a minha fotossíntese à escada
mas, quando o sol aconteceu
sorveste chá de filóide
perfuraste as gotas de orvalho
e eu, olhando para cima
de pensamentos fortíssimos
soube que não podia acompanhar-te.
Esperei.
No degrau do meio
antes de ouvir o acorde da primeira gota
aqueci entre as mãos chá de caulóide
“Queres?”

Quando as escadas tinham musgo
e os pés eram de orvalho
a troca de olhares fazia parte da queda
a nódoa negra era entendida
e eu via-te através do acumular de sangue.
Doía o levantar
o fingir a ofensa
sacudir a clorofila e dizer indiferenças à desculpa.
Na verdade
o molde do degrau do meio fazia parte do beijinho
(aquele que corta os pulsos à mágoa aguda).

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O preço do amor

(poema da autoria de Joaquina Vieira)


Minha vida entreguei
Numa feira, a mercadores
Com eles negociei
O custo dos meus amores

O preço era tão alto
Que hesitei, por momentos
Teria que deixar no asfalto
Desilusões, sofrimentos

Nada tinha a perder
Tudo era novidade
Queria com meus olhos ver
Se era amada, de verdade

Minhas armas depositei
Quando encontrei o amor
Tão desarmada, fiquei
Que esqueci até a dor

Apareceu perante mim
Outro anjo sofredor
Trazia um ramo de alecrim
Para a vida inteira, um amor

Cansados, abri meus braços
Entreguei-me com paixão
Numa noite de abraços
Ele encheu meu coração

E nada me prometeu
Mas persiste preso a mim
Ele está, no mundo meu
E nos meus lençóis de cetim

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Grito mudo


Quedam-se as mentes dormentes na esteira
Volve-se a quente a gente esterqueira.
Falta-nos alma
na calma a pesar
Sobra-nos mágoa
de água a gelar.
Povo sem veias, não creias que sim!
Povo em teias de um nome ruim.
Basta-te o pouco
de um louco rufião
Clamas por nada
sem voz ou razão.
Céus incolores com dores de mudez
Ouvem as vozes dos burros talvez…
Mas outras em grito
não rasgam o céu.
Abram gargantas!
Levantem o véu!
Cesse a vontade do homem tirano
E vença a justiça deitada pelo cano!
Vivam-se os dias
Em digna bonança
Ilumine-se a noite
Conquiste-se a esperança.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

FÓRMULA



Quis provar-te a mecânica dos seres
Quando em mim provaste a fórmula do entendimento
Confirmámos os dogmas da química improvável
De nós dois
Para depois
Testarmos a dinâmica inegável


Apostas na certeza do que somos
Apostas na memória do que fomos
E dizes-me
Ao ouvido
Meu querido
A soma de um mais um faz sentido


Simetria de dois corpos encontrados
União elevada ao quadrado
Não percebes? Eu explico.

E eu fico...

Pões-me doido

[Uma do fundo do baú.]

Espreito pelo buraco na lona
e vejo-te nua e lânguida,
parada e mexida.
Vou e mordo de raiva os teus lábios,
e perco-me a endireitar linhas
quando ergo as tuas mãos que são minhas.
Toco os teus lábios encerados,
e absorvo o perfume leitoso
enquanto olho o teu queixo charmoso.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Instantes seguintes




II

Ou não se foge, ou se esquece.

Esquecer?

(continuo a fuga)

de repente
os espelhos desabaram
apressados
intactos
e sem ruído

a musica desfolha as pétalas
o sol inunda o meu quarto
a claridade evidencia a dor

navego num lago
sem fundo

a montanha reclama-me
o sal no olhar
verde
azul
castanho-terra
as lágrimas
deslizam dentro do peito.

Uma árvore despida de medo
em dias cinzentos
as flores misturam-se
numa desordem
de aromas
pueris
os gestos
a(c)tos de uma
representação
ímpar
a apologia da loucura?

Ou o abandono
nos prados
percorrendo os sentidos
portas fechadas
tranco-me por dentro
até mim
a dor chega
insinua-se
no respirar

o orvalho
refresca
o tentar esquecer

quem fica comigo?

calor impuro
d
e
s
c
o
n
h
e
c
i
d
o
no Verão
as cerejas
são o fruto
proibido
o medo nas ondas
o mar
nas carícias
de areia e sal

segredos do vento

não fujas
permanece
esquece.

Murmúrios
estranho pe(n)sar.

The end.


Regressa o arco-íris o ruído da cidade as imagens poeirentas o desejo sem nome o momento sem data música esquecer

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Xadrez



Neste Jogo de Palavras Cruzadas...
Jogo o Xadrez das Incógnitas...

Neste Cruzamento de Palavras Soltas...
Faço Xeque Mate á Coerência...

Rasurar uma Frase com Ideias Anacrónicas...
Romper o Poema com Letrinhas Antagónicas...

Assassinar um Esteriótipo com Perfume e Glória...
Silenciar Vozes com Falsetes Embriagados de Vitória...

Sou o Poeta Naïf que se Esconde do Escuro na Escuridão...
O Escritor que Mente na Mente da Solidão...

O Redactor de Histórias que faz Historinhas por entre Linhas...
O Interlocutor Demente que Sorri Amiúde Felizmente...

Não tenho Credibilidade nos Resquícios dos meus Indícios...
Não tenho Atitude por Desconhecer a Senhora Virtude...

Neste Jogo de Palavras Cruzadas...
Jogo o Xadrez das Incógnitas...

Neste Cruzamento de Palavras Soltas...
Faço Xeque Mate á Coerência...

Faço Vénias quando Dobro o Estigma da Compreensão...
Assumo Mea Culpa quando a Memória me Projecta a Desilusão...

Não Sou meu Aliado...
Estou demasiado Cansado...

Sinto-me Circunspecto e Rarefeito...
Rarefeito e simplesmente Mortificado...

Sou a Canção que Embala o Trilho Errante...
O Fazedor de Sonhos que Vagueia na Estratosfera...

Sou a Glória Incógnita...
O teu Perfume Anacrónico...

O Xadrez Direccional do Desencontro...
O Xeque Mate Vestido de Victoria...

O Peão que Subornou a Rainha...
Fim do Jogo...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Magnificat




Ainda deve ser um exímio dançarino apesar da idade e da doença, não bailarino como dantes era numa conhecida companhia, nota-se na leveza dos passos e nos suaves movimentos do corpo, naquele sentar-se como uma anémona nas rochas costeiras, nos braços fortes ondulando formas, nas mãos delicadas em gestos do quotidiano. Sei que foste um dos melhores, o corpo suado abraçando os aplausos, o nome nos cartazes, o homónimo da beleza, e olho as paredes vazias da tua sala, não, não há fotografias por aqui, nem troféus, nem louvores, minha amiga, fui um homem a gostar do que fazia, voando na música, tenho orgulho, aquele orgulho guardado cá dentro do prazer e da alegria que dei. Ele sorri, sabes que não gosto de exibir grandezas inexistentes, nem glórias efémeras, tudo é esquecido, a grandeza são os afectos, não é isto, ela anda por aí sentada nos bancos dos autocarros e nas ruas de gente comum, nos cafés onde ao teu lado está alguém a beber uma bica ou outra coisa qualquer, a grandeza está ali, repara naquela mulher velha que por aqui passou com a vida nos olhos, subindo escadas cinco vezes por dia pelo menos a tratar do filho, a amá-lo, a pentear-lhe os restos de cabelo, isto é um exemplo.
São esses os heróis, os grandes desconhecidos, os que oferecem o seu amor, os que nasceram sem o estigma da maldade. Não é bem assim, digo-lhe, vou fingir que me esqueço que foste famoso e vejo-te aqui nesta casa isolada onde vives só, com uma reforma miserável, sem os amigos que te abandonaram porque, como tu dizes, “têm a sua vida”, não há tempo, há pouco tempo para olhar o amor, embora tu fales deles com carinho, às vezes telefonas mas é tudo muito rápido, estás melhor, pá? Epá, cá se vai andando, desculpa, pá, tenho umas coisas a tratar, mas já sabes quando quiseres aparece, apareces onde? E sorris, não ligues, estou óptimo, inscrevi-me via internet num curso de Matemática, estudo muito, tenho os meus livros, a música, o computador, há ali ao lado um talho com uns hamburgers bestiais, 50 cêntimos cada um, por vezes faço uma sopinha, só preciso por vezes de conversar, gostava tanto, às vezes ligo-te e à Florbela também, era bom repetirmos aquele encontro na esplanada de Belém de há 4 meses, conversávamos um bocadinho, olha, queres que te leve uns livros de história? Sei que gostas, ficas com eles, tenho aqui tanto livro. Olha, também tenho aqui um telefone absolutamente novo que não uso, eu dou-to, ficas com 2 até pode dar jeito, o teu filho instala-te isso num instante.
Olha, se quiseres podemos ir beber uma imperial na próxima semana, tenho que ir à consulta e ainda demoro, vais ver que estou muito mais magro, pareço um jovem e ri-se, sim vamos, liga-me quando estiveres despachado.
Pousei o auscultador, fiquei sentada imóvel . Nessa noite o sono não veio. Nessa noite estive ocupada a pensar na urgência dos meus afectos.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Instantes

(Re)começar...

O tempo insinua-se no murmúrio da noite

a musica envolve o sonho

ruas perdidas de sono nu

o mar o céu o sol nos desejos

as florestas virgens desvaneceram-se

as cores do mundo

os cavalos selvagens

e as madrugadas tardias

nas manhãs calmas

em dias de desespero

o pão na mesa

vazia a corrida

para o lugar

de imagens soltas

assim o vento selvagem

sangue estival morno de medo

uma papoila e um vestir de

negro

n

ã

o

luto

a vontade arrefece

a dor ímpia reclama

o suave e cálido

perfume

de um morango esquecido.

As maçãs

espumam de vermelho

enquanto os corações ardem nas fogueiras que não fizemos.

O gelo derrete-se

nos beijos pe(r)didos

nos acordes de guitarra do

tentar esquecer

então

um mar de laranjas geladas

um chão sem tecto

no olhar de vidro transparente

(e o nevoeiro esconde os barcos)

(o) rio

um riso sem nome

as gaivotas limitam o meu horizonte

nada se liga

onde está o querer?

O sol põe-se quando eu tiver partido.

O regresso

e o desencontro

num olhar

que não sei.

Os regatos exigem frescura.

Quem me abandonou?

Candeeiros vermelhos

um quarto perdido

mãos sem prisões

o apelo da vida

um grito rouco

NÃO RECUAR

SER

um pássaro livre

um sorriso diferente

o amanhecer

um rio sem tréguas

o princípio

a corrida

a noite tranquila

no momento

agora

os espelhos partidos

não reflectem as imagens cansadas.

O sol encheu a cidade de alegria

e as crianças partiram em busca dos jardins líquidos

há sons no ar

viajar

pelo sentir

ir de encontro ao muro

e continuar

(todos os muros são destruíveis)

quebra-se o (en)canto

as gargalhadas encontram

o eco no silêncio

calado

da escuridão tardia.

Os cabelos

esquecem-me

os amigos

castanho-dourados

esvoaçam

sem fronteiras

ultrapassam

limites

(que eu criei?)

A resposta está no Outono

nas folhas caídas

no amarelo

das flores.

A tempestade destrói os caminhos.

Um olhar de mel

olhos castanho-avelã

sangue nos telhados

luz nas espadas cintilantes

caiu uma estrela

rebentou uma nuvem

liberdadeliberdadeliberdade

um aspirar fundo

duma violeta em água

luar res-plan-des-cen-te

o inverno tem todas as estações do ano

a musica reabre a ferida

resfolga o cavalo alado

pela

mutilação das asas

borboletas

em

festa

os salgueiros dão-me paz

num viver exaustivo

de confusão e sal

a chuva não vem

o sol desertou

tremores febris...

Amanhã

o momento é importante

uno

principal

pensamentos translúcidos

agitam-se

num acenar de adeus

definitivo

a fuga parece a solução

(a guerra continua)

PER-MA-NE-CER

não se esqueçam do frio

dos vagabundos

e dos artistas.

Lentamente, o azul confunde-me:

misturo-me com a noite

e parto com a musica.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Nem sempre



NOTA: Texto da autoria partilhada de Rui Barroso e Inês Isabel





A pequena folha presa ao ramo da árvore abanava com a brisa. Não era um vento forte, ela é que já fora mais jovem. Quando era verdinha e carnuda suportava desde brisas destas até ventos dos que viram os guarda-chuva ao contrário. Agora estava amarelecida. A seiva já não circulava nela com fluidez e os raios de sol tinham deixado de ter aquele efeito revitalizante que durante tantas manhãs lhe tinham provocado sensações deliciosas.
Nessa altura entendeu que a separação estaria prestes a acontecer. Soube que a quebra do atilho que a unia à mãe poderia dar-se a qualquer momento. Iria ter saudades daquela vida preguiçosa e confortável? Não tinha dúvidas que sim. Afinal de contas em grande parte dos seres vivos o rompimento dos laços com os progenitores é marcante. Ainda por cima não dependia de si mas sim da força do vento, aleatória como sempre. Ou do vento ou do homem que podava as árvores mas como era tão raro este aparecer...
Virou-se para dentro, para dentro de si mesma. Estaria preparada? Sabia que estando ou não, aquilo iria acontecer mas queria saber-se, ter um mínimo de certezas. Até onde foi capaz de chegar na sua auto análise, achou-se dividida. Por um lado, o conforto. Por outro, o...
Não conseguiu acabar o raciocínio. Uma brusca ventania agitou toda a árvore. Ouviram-se vários plics. Percebeu que os raminhos de muitas irmãs se haviam partido.
Depois ouviu um plic muito próximo de si. Demasiado próximo! Percebeu-o. Fora o ramo dela que se tinha soltado.
Ao contrário do que os humanos pensam, a vida duma folha não acaba quando se solta da árvore. Ou melhor, termina essa etapa de vida mas começa outra. A da aventura!
Sentiu-se às voltas pelo ar. Aquele rebolar soube-lhe tão bem...

Aquela brisa soube-lhe tão bem na cara. Hoje ela pisou uma folha, aliás, pisou um vasto tapete de folhas secas mas, uma delas sofreu uma crepitação diferente das outras. Em vez do som normal, seco e oco, ouviu o som de um cristal. Sentiu o quente do corte na planta dos pés. Reparou que ficaram marcas vermelhas no chão, mas principalmente tomou consciência do erro que cometeu.

(Tomei consciência do erro que ela cometeu. E reparei que ela, a pisadora, também teve essa percepção. No chão, todas sabemos do corredor da desmembração; umas conseguem ser levadas pelo vento, as preferidas, mas a maioria cai direitinha no chão e daí o berço é alto. Não tenho pena dela, nem da planta dos pés dela… Ironia… Nós, parte de plantas somos pisadas por outras plantas.)

Voltou para casa com restos da folha dentro do bolso. Não sabe como a meteu lá dentro, sem sabe como a vai tirar de lá. Tem um cristal no pé esquerdo e um cadáver dentro do bolso, entre os dedos da mão direita. Começou a sentir o quente do corte na palma da mão. Rubor. Definitivamente começou hoje outra etapa.

O senhor Augusto Antunes era o último de várias gerações de ourives. Não tendo filhos a sua arte morreria com ele. Esse era certamente o maior desgosto da sua vida.
No entanto, naquela manhã, naquele momento, não havia nada no senhor Augusto Antunes, nenhuma sensação, nenhuma dor, nem sequer a da ciática que o atormentava permanentemente, que se conseguisse sobrepor ao fascínio, ao encantamento que aquilo que os seus olhos viam lhe transmitiam. Já tinha quase 70 anos e pela primeira vez na vida olhava algo que apenas sabia existir devido às histórias que a sua avó lhe contara. Mesmo tendo confiança na avó a certa altura deu por ele a desacreditar. Desacreditara ao ponto de reunir os muito antigos livros que ela lhe confiara e pô-los numa mala a um canto do sótão. Afinal, percebia-o agora, estava errado. Tinha à sua frente a prova de que pelo menos uma de várias entidades que ela lhe falara existia realmente.
Tudo isto e muito mais lhe passava pela cabeça num turbilhão que há muito não existia em si. Que fazer? A moça tinha-lhe apenas pedido: – Por favor conserte-a. – e saíra porta fora a coxear deixando-lhe nas mãos um lenço com algo lá dentro. Ao abri-lo deparou-se com a folha partida em vários pedaços. Num deles havia aquilo que lhe pareceu ser sangue. O senhor Augusto Antunes decidiu que a primeira coisa a fazer seria limpar. Tudo a brilhar era o seu lema. Retirou duma prateleira um líquido suave e pegando num pano de linho executou a tarefa. Lentamente, muito lentamente. Depois limpou também os restantes pedaços. Oh! Como brilhava! Sentiu um enorme privilégio pela benesse de poder ver algo assim.
Agora faltava a última parte, aquela que imaginava ser a mais complexa pois não tinha noção nenhuma de como a realizar: juntar as partes. Novamente pensou nos livros da avó, em especial num. Como se chamava? Qualquer coisa como “Os seres de que ninguém fala”. Levantou-se, fechou a porta da loja e subiu até ao sótão. Abriu o baú e, envolto numa nuvem de pó, vasculhou até encontrar o livro.
Trouxe-o para baixo e com a ajuda dum espanador de penas, limpou-o até que se tornasse legível. Tossiu imenso durante o processo. Depois percorreu o índice. Na letra C encontrou um capítulo inteiro dedicado a “como colar seres vivos”. Leu-o e descobriu. Lá estava o que precisava. E era tão simples…
Dormiu mal nessa noite pois sabia que tinha de se levantar antes do sol nascer e tinha receio de deixar passar a hora. Tal não aconteceu. Desceu e saiu para o quintal envolto em mantas. O livro era bem explícito: as primeiras gotas de orvalho matinal. Viu-as formarem-se e com toda a delicadeza fê-las escorrerem para dentro do recipiente que esterilizara na noite anterior.
A seguir, em passo acelerado e largando mantas pelo caminho, voltou para dentro, para junto do seu balcão. Principiou a tarefa. Pegou num pequeno pano de algodão puro, molhou-o nas gotas de orvalho e passou-o nos lados quebrados. Fez isto uma e outra e mais outras vezes. De cada vez que o fazia e juntava os lados, o líquido atraia-os e unia-os sem que ficasse marca.
Estava deslumbrado por aquilo mas nada que se aproximasse do que sentiu quando uniu o último pedaço. Percebeu que contemplava a coisa mais bonita que os seus olhos viram. Ele já tinha visto muitos cristais. Cristais de todas as formas e feitios mas nunca pensou… até porque a determinada altura o catalogara como uma das lendas que a sua avó contava…, nunca pensou ver um cristal daqueles. Em forma de folha de árvore, um Cristal Vivo.
Ficou um tempo indefinível a olhá-lo, como que em estado hipnótico. Em transe. Quando “acordou” uma pergunta martelou-lhe o cérebro: que fazer com ele?

(Por favor, sei perfeitamente o valor que tenho, de cristal, frágil, mas desta vez unificada pelas mãos de um homem que se segue por receitas de livros. Não consigo aceitar que não sou uma folha daquelas que brinca ao vento. Tenho peso, não voo, se cair morro outra vez, se…
Guarda-me! Sim, tu. Guarda-me. Dentro.)

Augusto Antunes estava… sem cor, cristal até, por ouvir aquelas palavras. Sim, pensava guardá-la, mas como? Todos os sítios deste mundo são ridículos para aquela folha. Onde queres ficar?

(Tretas!! Só tretas, custa-te muito teres-me? Simplesmente, sem pensares, sem fazeres raciocínio de gente anti-coração. Sabes, gosto de ti, como dos teus livros, gosto do toque das tuas mãos curativas… Guarda-me aqui! Aqui, lugar, sítio, com tempo e ar, mas que nem todos vêem. É fácil.)

Para quem está fechado muito tempo, afinal, não é fácil. Augusto não tem capacidade nem sentido de oportunidade para dar resposta a uma vida de trabalho. Pelo sim, pelo não, pegou no cristal-folha e colocou-o dentro do relógio de parede. Vai ali ficar, até ao badalar das nove da noite…

Nunca passou pela cabeça do Sr. Antunes que mais alguém soubesse do que tinha acontecido na sua loja desde que trouxera as gotas de orvalho. Um par de olhos, do lado de fora da montra e agachado a canto desta, tinha seguido atentamente todos os tudo o que se tinha passado.
André tinha apenas 11 anos mas desde que se lembrava de si sempre tivera um fascínio desmesurado por coisas que brilham. Arranjara alguns problemas aos pais devido a ter muita dificuldade em conter-se, em resistir ao apelo de levar consigo pequenos objectos reflectores de luz. Por experiência própria sabia duas coisas: uma era que, em todo o seu bairro aquela era a loja que mais o cativava. A outra, que, em todo o seu bairro aquela era a loja que lhe estava mais interdita. O pai dissera-lhe uma vez que até podia ser preso se tirasse brilhantes daquela loja pois eram demasiado valiosos.
O André sabia disto e embora passasse assiduamente pela montra da ourivesaria conseguira sempre resistir a “adquirir” algumas das coisas tão bonitas que lá havia.
Aquele dia, no entanto, não estava a ser um dia como os outros e o que ele vira, muito menos. O pai explicara-lhe em tempos o motivo duns objectos brilharem mais do que os outros e dissera-lhe também que sem luz nada brilha a não ser aquilo que tem brilho próprio. Nunca, até então ele tinha visto algo que tivesse essa característica: brilho próprio. Apercebeu-se que tinha estado tanto tempo de boca aberta que já lhe doía o maxilar. Aquilo era lindo. Demasiado lindo!
Viu o Sr. Augusto Antunes arrumar o objecto dentro do relógio antigo e entrar para uma divisão interior. A loja estava aberta mas a sua porta, como sempre, fechada pois as constipações do seu dono eram famosas. André mudou de posição e empoleirou-se no degrau da porta para conseguir continuar a olhar para aquilo que ele chamou de pequena estrela. Não a via directamente mas via o brilho que emanava.
André sentiu-se desgostoso. Tantos pensamentos e todos eles tristes. Nunca iria conseguir ter algo assim para ele e provavelmente o Sr. Augusto Antunes nem sequer o iria deixar chegar-se perto e observar a “pequena estrela”. A fama de André no bairro levava muita gente a tomar precauções. A tristeza aumentou. Os seus olhos encheram-se de água salgada.

(Se prometeres que me tratas bem, que não me partes nem deixas que me partam, digo-te como me podes tirar daqui. Este homem é bondoso mas tem o espírito gasto. A idade devorou-lho. Eu sou nova e quero viver. Tu poderás ser uma boa companhia se me fizeres estas duas promessas.)

Com esta voz na cabeça, André encheu-se do ar adocicado que circulava por ali e, antes de expelir dióxido de carbono agridoce dos seus pulmões, empurrou a porta da ourivesaria, que, ao abrir-se, fez soar o sininho pendurado por cima. Os olhos do Sr. Augusto fixaram-se no rapaz. Nesse mesmo instante desfilaram dentro da sua cabeça muitas palavras.

(Não consigo aceitar que não sou uma folha daquelas que brinca ao vento. Tenho peso, não voo, se cair morro outra vez, se… Dá-me ao rapaz, sim, estende a mão e dá-me. Ele é muito melhor do que tu. És uma desilusão. Detesto-te, ourives! Simplesmente… dá-me! Já!)

André saboreou toda a conversa através do olhar petrificado do Sr. Augusto e antes de estender a mão revirou os cantos dos lábios para cima, em direcção aos seus olhos de cristal.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Ca.ri.cato



Saia de Pinças sempre foi muito prendada, nasceu já com um bastidor a prender-lhe o pano coração onde borda desde então as iniciais “CV” rodeadas de flores e feitios bonitos. E porque assim tem de ser, no mês em que completou a idade, foi apresentada ao Calças Vincadas, um janota, por natureza e por impregnação hereditária.
Não foi aquilo à primeira vista mas, foi um faz de conta que é aquilo à vista última de um dia de Primavera.

Com a Xaile Pelas Costas e o Botas de Trabalho sentados no sofá, ao meio dos dois, foi dado o primeiro contacto labial mútuo, asséptico, mas mesmo assim merecedor de abrir oficialmente a época dos passarinhos verdes e dos sorrisos parvos e das borboletas na barriga e dos para sempre.
Numa manhã, Saia de Pinças com a idade e mais um mês depois da idade foi com a Saia Traçada Mais Velha ao que se chama “lugar onde vendem vestidos de dar o nó considerando que o nó é dado entre dois novelos, um cor-de-rosa de lã virgem e o outro cor-de-azul de lã corriqueira”.
E assim foi. Tal e qual.

Passados seis meses nasceu o prematuro de termo, Fralda de Pano, que segundo a sua mãe teve origem através de geração espontânea entre as suas vísceras e as borboletas (não biológicas) que andavam pela barriga.
Fralda de Pano Pinças Vincadas há-de vir a ser um grande homem, de bochechas pinçadas pelos mimos por parte da mãe, com vincos sedosos nas mãos de mandrião por parte do pai, com paninhos quentes nas costas estreitas por parte da avó, com um trabalho de manteiga derretida por parte do avô e com a vida traçada de algodão doce por parte da tia...

O açucarado protótipo de.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O abraço





O suor escorria-lhe nos olhos em neblinas brancas de cegueira. As mãos molhadas da cascata tactearam o corpo encontrando o vazio, não havia nada do seu corpo, sabia onde ficava o tronco, os braços, as pernas, mas nada estava lá, não tinha corpo, nada, só a sua mente desperta, e aquela torrente de suor, tentou andar e andou e tentou correr e correu, e tocava-se e era tudo vazio, nem pernas com que andar e correr é o suor nos olhos a razão deste não ser, pensou, não, não deve ser suor, é outra coisa qualquer que escorre, que escorre, o suor não é assim, e ainda por cima só nos olhos,não é normal, deve ser uma anomalia estranha, um vírus desses que andam sempre na sombra e nem os médicos sabem deles, ou um problema psicossomático como já ouvi dizer, como é possível isto, estarem assim os meus olhos, como é possível ter perdido o corpo, e esta coisa que não descola dos olhos, sinto ruídos e por isso tenho ouvidos mas apalpei e não senti orelhas.
Posso até ser atropelado e por isso é melhor não sair daqui, mas se não tenho corpo não posso ser atropelado, se calhar posso e fico sem mente, ou talvez se for atropelado isso não tenha importância e continue a ter mente, os pensamentos não podem ser atropelados, isto é realmente confuso, que desespero, que raiva, que impotência.
O melhor é andar, quero lá saber se morro e ando, e corro, e de repente parece que vejo luzes, terei morrido e isto é o purgatório? Talvez me purguem os olhos. Sim, são luzes, e começo a ver vultos, estarei numa nave, numa nuvem, numa ilusão? Terei enlouquecido?
Uma criança de cabelos louros encaracolados grita senhor! senhor! Olho-a,espanto-me, é mesmo uma criança, e uma mulher muito velha grita não chore! Não chore! E agarra-me, sacode-me o corpo todo. E vejo a luz do sol, será verdade? sinto as lágrimas secando lentamente não chore! Não chore, por favor!Nunca vi coisa igual! alguém ter tantas lágrimas para chorar como o senhor! Mas isso passa, vai ver que passa, apoie-se a mim, o meu neto ajuda, tem força,sai ao pai que Deus tenha, vá, levante-se, força, não o deixo aqui sozinho. A minha casa é mesmo ali venha descansar, fica o tempo que quiser, e faço-lhe um chazinho que é de uma pessoa chorar por mais.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Penso em ti



Os homens acolhem as ilusões nos seus corações e depois choram com as consequências desastrosas das acções fantasiosas.
Suas acções são tão equivocadas que mais parecem simulacros de acção.
São fantasmas de si mesmas.
São vestidos o tempo inteiro pelo próprio ego, que as aprisiona às ilusões sensoriais e as esmaga de encontro a vida
Os homens transitam pela existência cheios de sonhos e quimeras distantes, deixando, com isso, de perceber a clara realidade da vida, que os chama a todo instante...
Passam várias vidas assim, permeados pela ilusão do sentir com o falso amor açoitando-lhes os caminhos.
Buscam a fantasia, mas acabam encontrando a dor.
Consomem o tempo com futilidades e acabam perdendo o tempo certo de viver e aprender, escravos das sensações.

E disse:

Quero

Uma terra de flores sem espinhos
Que não sejam permitidas as florestas do medo
Nem se semeia jamais a Dor.

Nos rios corra amor sem cessar,
E visões celestiais consolem a terra
Enquanto torrentes imemoriais alegram os olhos.

Ninguém regateara dádivas,
A vida séria feita de Verdade,
E desconheceremos a máscara da ilusão.

Proscrito será o egoísmo,
Será um mundo de amor e êxtase
Senhor algum governara, servo algum obedecera.


Espero apenas ser descoberto em cada coração...

Continuo pensando em ti...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Mãe d'água



É o frio do vento salgado
e a espuma das maçãs
que reencontra lentamente
a minha voz.

São
os morangos silvestres
e
a música italiana
que me põem o vermelho na boca.

É a terra de cor quente
que pertence às árvores,
à água
e às pedras cor de vidro.

São os silêncios
dos meus cabelos esvoaçantes
porque
o leite dos figos
faz feridas
no coração
e
subir às árvores
é
tentar ver-te
por entre os telhados de música viva.
1982; Julho; Diário Prateado

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Ornatos Violeta



Quero Transformar este Coração de Pedra...
Numa selva de Ornatos Violeta...

Quero Sucumbir nas Lágrimas que Derramas...
E Decapitar o Monstro que Petrifica o Meu Olhar...

Lutar contra o Inimigo que Levita no Meu Peito...
Ser uma Criatura Híbrida que Voa nas Asas do Clímax...

Quero ser o Oráculo Trágico da Imortalidade Bíblica...
Um Espigão de Ferro Cravado nos Vícios da Tua Visão...

Quero Transformar este Coração de Pedra...
Numa selva de Ornatos Violeta...

Votar-me a um Exílio Cego de Identidade e Cometimento...
Devorar Viajantes do Tempo Iluminando Resquícios da Ilusão...

Ser a Profecia do Desespero que Hipnotizas ao Acordar...
Ser Ornado e Moldado pelos Contornos da Lua Cheia...

Quero Morrer ao Nascer nos Braços com que Me Abraças...

Escolher Assim Ser para te Ter Violentada em Jasmim...

Quero transformar este Coração de Pedra...
Numa selva de Ornatos Violeta...

Parco Consolo Ambíguo...
Que me Levas na Ganância da Soberba...

Longa se Torna a Espera neste Banquete Templário de Sedução...

Atira-me Pedras...
Ofereço-te Ornatos Violeta...

Não, não é um sonho!

(A música é para ouvir APENAS no fim. Obrigado!)

Ele estava a lavar a loiça. Como sempre, uma pilha dela. Tinha por hábito deixar juntar muita loiça.

A certa altura levou com um pingo na cabeça. Pensou tratar-se dum salpico motivado pela impaciência que começava a invadi-lo. Era já demasiado tempo a lavar, a lavar…

Passados instantes, outro pingo sensivelmente no mesmo sítio. Teria de ter mais cuidado caso contrário, a seguir seria ele quem precisaria de um duche.

Alguns momentos se passaram e um terceiro pingo, fotocopia dos anteriores. Mau, agora já era demais. Demasiadas coincidências. Secou a mão direita e esfregou a cabeça no local pingado. Quando viu a mão, nela havia vestígios duma cor próxima do vermelho. Que diabo é isto, pensou? A primeira coisa que lhe veio ao espírito: sangue? Não se lembrava de ter batido em lado algum embora tivesse um sono muito agitado. Aquilo não era dele.

Olhou para o tecto e no preciso momento que o fez, plim!, novo pingo, desta vez em cheio na testa. Pestanejou, limpou e, novamente, mão vermelha. Desviou-se do local alvo e voltou a olhar para cima. Viu então uma mancha no tecto, mancha essa que se concentrava no meio e de lá expelia os malfadados pingos. Raios partam isto, uma infiltração! Era só o que lhe faltava.

Tirou o avental e foi ao andar de cima. Havia que chamar à responsabilidade exactamente quem tivesse a responsabilidade.

A porta das duas brasileiras que moravam por cima dele estava entreaberta. Lá de dentro vinha o som estridente de… pagode, nordestina, forró ou qualquer coisa do género. Não era versado naquele tipo de música e não sabia distinguir. Tentou bater à porta mas o melhor que conseguiu foi que esta se abrisse mais. Chamou, ó de casa!, mas ninguém respondeu. Berrou mais alto e novamente apenas o interprete da canção se fez ouvir. Entrou.

Aquilo com que deparou fez que exclamasse algo que não é de bom tom constar neste texto. Uma palavra começada pela letra Éfe, para logo se seguida ir para outra começada por Cê. Entre uma e outra, ena cum.

O chão estava coberto por aquela substancia líquida, espessa e… vermelha. Inundado seria o termo mais correcto. Se houvesse alguém que ponderasse a possibilidade daquilo ser groselha em vez de sangue, depressa tiraria daí a ideia. A não ser que nas veias das brasileiras corresse a dita groselha.

Uma delas jazia pouco depois da porta, ainda no corredor. Esparramachada no chão, e… bem, conseguia-se perceber quem era mas a moça tinha sido cortada e disposta tal qual como quem tivesse juntado as peças dum puzzle. Ah, com uma excepção: a parte do estômago e intestinos não existia.
Perguntou a si próprio se o autor da façanha era um incompetente que, depois de baralhar, não tivesse novamente sabido juntar aquelas peças mas logo a seguir teve a resposta. De facto quem houvera feito aquilo tinha resolvido dar outro destino ao intestino, passe a rima que não é para aqui chamada. Estava meticulosamente pendurado, preso aqui e ali, dando o efeito de fita decorativa pelas paredes fora. Ora agora percebera também de onde vinha o peculiar cheiro que lhe impregnara as narinas e não só, deste que tinha transposto a porta de entrada.

Por isto e também por se ter apercebido que ao caminhar naquela superfície molhada o chlap-chlap tinha salpicado a sua roupa, amaldiçoou tudo. Teria de tomar banho e mudar de pijama. Que chatice!

Quando passou o cadáver puzzle, espreitou para a porta da sala. Bingo! Dentro desta mais uma enorme quantidade de sangue a fazer a vez de alcatifa. Agora já não importava: mais sujo ou menos sujo, iria ter de ir ao duche, por isso tanto fazia.

Lá estava a segunda moça. Sentada, ou melhor, encostada ao móvel. Em comparação com a outra, estava relativamente inteira. Faltavam-lhe algumas partes mas pelo menos não era o outro exagero. Esta não se tinha tornado num puzzle brasileiro.

É certo que o móvel onde tinha sido encostada estava decorado com “coisas” que lhe pertenciam. Numa apreciação rápida pode constatar que tal-qual árvore de Natal, presos por pioneses, havia dois globos oculares, parte da língua (grande, por sinal), os dois mamilos, dedos (muitos dedos, talvez os 10), uns bocados de pele aqui e ali e tudo isto muito bem disposto com tufos de cabelo. Dois pensamentos lhe ocorreram: por um lado arrepiou-se ao imaginar quanto deveria ter doído o corte de cabelo; por outro lado, pensou que se em vez duma brasileira tivesse sido um brasileiro, haveria outras peças de decoração.

Depois lembou-se: e a miúda? Onde raio pára a miúda?

Andou pela casa até que por fim a encontrou. Estava aninhada a um canto do seu quarto.

Se o olhar dela era aparentemente normal, o mesmo já não se poderia dizer dos olhos do aspirador que estava a seu lado pois estes assumiam uma postura agressiva. Arrepiante, até.

Pensou que o aspirador devia estar de guarda à criança para que nenhum mal lhe acontecesse e teve a certeza disso, pois assim que deu um passo em frente ele ligou-se e começou a aspirar a toda a força. Muito perigoso!

Recuou, olhou em volta e apercebeu-se que numa estante havia uma quantidade significativa de pó. Decididamente eram brasileiras, não japonesas. Pegou num livro e com cuidado, passou o pó da estante para lá. O livro ficou porco.

Então agiu. Enviou o livro e respectivo pó para o pé do aspirador. Este não resistiu e tentou imediatamente aspirá-lo! Nesse instante, avançou e pegou na criança, resgatando-a das ventosas e braço do electrodoméstico.

Saiu do quarto.

Olhou para a catraia. Estava demasiado suja! Que raio de mãe era aquela?! Está bem que muito do sujo era sangue, sangue este derramado post mortem mas mesmo assim as crianças devem ser instruídas pelos pais para situações como aquelas.

Levou-a para a banheira. Havia que dar um bom banho àquela criaturinha.

Abriu a água quente e pôs-se a esfregá-la com uma esponja. Muito trabalho o esperava.

A certa altura caiu-lhe um pingo na cabeça. Desta vez não pensou duas vezes e olhou para o tecto. Ambos olharam e viram a pequena mancha que se principiava a formar. Logo a seguir ouviu a criança dizer:

- Mas como é possível? Nóis ainda não fomos lá cima!


Lamentos





Lamentos
que ocorrem do fundo de mim
Lamentos
que imploram por mim
Lamentos
que recordam tempos de paragem
Lamentos
que velam tempos de passagem
Lamentos
que evocam tempos passados
Lamentos
que levam a tempos futuros
Lamentos
que irrompem da dor reprimida
Lamentos
que rasgam a sombra da minha existência
Lamentos
que cobrem a luz da minha inocência
Lamentos
que se transformam em apelos
Apelos
que ecoam uma nostalgia incontida
Lamentos
que se volvem alegria
no ponto visto como imóvel,
no instante de incessante movimento,
de caos e ordem,
de silêncio e clamor,
de tremendo esplendor,
de abandono e entrega,
em que a morte abraça a vida
e a Vida anuncia a Eternidade.
Lamentos
deixem-me comigo!
Gáudios
levem-Me comigo!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Medo do Escuro



(Esta tem sub-história :) foi escrita para a minha prima pequena perder o medo do escuro há 5 anos - uma história de embalar feita só para ela)


- Avó! Fica comigo! - gritava aflita Mariana, ao ver a Avó a afastar-se depois de a ter deitado
- Mas porquê, querida? - responde a Avó
- Tenho muito medo do escuro. Fica comigo Avó! Não me deixes sozinha por favor - suplicava Mariana
- Mas não é preciso teres medo! Sabes, antigamente, o escuro também tinha medo de nós. Sossega querida, não há nada que te faça mal no escuro.
- Como? O escuro tinha medo de nós?
- Sim, Mas isso era quando eu tinha a tua idade. Foi há muito tempo.
- Conta Avó, conta! - disse Mariana, curiosa
- Mas não sei se me lembro bem da história.
- Vá lá.
- Está bem.A Avó sentou-se á beira da cama de Mariana. Lentamente, recostou-se ás fofas almofadas e começou
......................................................................
Tinha eu alguns 7 anos como tu, Mariana. E como tu, todas as noites implorava para que alguém ficasse comigo até que eu adormecesse. Morria de medo do escuro.
- Mãe! Fica comigo! Tenho medo! - gritava, mal ela me deitava e se afastava
- Mas querida, não é preciso. Não há nada que te possa fazer mal. - respondia docemente a minha mãe, tua bisavó- Mas, está bem. Leio-te uma história.
Nisto, dirigiu-se á velha estante de carvalho que estava ao fundo do meu quarto e tirou um livro. "A Polegarzinha" lembro-me bem. E a história começou: "Era uma vez..."Embalada, fui ganhando sono. Sabes, ganhando talvez não. É mais divertido dizer que fui roubando sono ao João Pestana. E embalada, adormeci.
Mas, antes de entrar naquela fase entre o dormir e o estar acordado, penso que ouvi um chorar miudinho junto á janela do meu quarto. Não liguei.No dia seguinte, na escola, o tema da aula foi o medo e os vários medos que existem. Desfiou-se, naquele dia, um sem número de medos:
- De que têm mais medo? - perguntava a professora
- De cobras - gritava um
- De aranhas - acrescentava outro
- De sítios pequenos e fechados - disse, timidamente, a minha colega do lado
Toda a sala ecoou num enorme riso. A minha colega irrompeu num choro convulso, triste.
- Calem-se - gritou a professora, zangada- Não chores Ana. Porque tens esse medo?
- Porque...eu...eu...sofro de Claustrofobia. - disse a Ana, ainda soluçando num choro miudinho.
- Quê? Claus...quê? - gritou logo, de imediato, o arruaceiro da turma.
- Claustrofobia, o medo de estar em lugares pequenos e fechados. - finalizou a professora
Um "Aaannhhh" em uníssono irrompeu por toda a sala.
- Continuem - disse a professora
- Eu tenho medo de alturas, vertigens, como diz a minha mãe.
Chegou a minha vez. Timidamente, disse:
- Eu tenho medo do...do...escuro.
- Apoiado - gritaram uns
- Sim, também eu - gritavam outros
- Porquê? - disse a professora, na esperança que a ideia fosse desenvolvida. Tinha razão.
- Porque o escuro é mau! - começo eu
- E feio. - segue-se outro
- E...e...e...escuro - finaliza alguém
Nesse dia ouvi chorar outra vez. Estranhei, mas voltei a não ligar.Voltei alegremente para casa. Fiz os trabalhos de casa, brinquei, jantei, lavei os dentes e...nova choradeira."Fiquem comigo" pedia eu. "Tinha que perder este medo." respondiam os meus pais. Para piorar, o choro que ouvia continuou e continuou e cada vez a aumentar mais e mais. Continuava aterrorizada cada vez que me ia deitar. Até que um dia, melhor, uma noite, a minha mãe me sugeriu:
- Pega no lampião e procura no teu quarto. Assim verás que não há nada de mal no escuro.
- Está bem.
Peguei no lampião e lá fui. Comecei pelo armário, nada. A estante dos livros, nada. Debaixo da minha cama, nada.De repente comecei a ouvir um melodia suave de uma flauta. Como que hipnotizada dirigi-me á beira da minha janela. Não sabes o que é estar hipnotizada? É estar num transe, como que enfeitiçada. Puxei a cortina para o lado e encontrei um menino sentado no beiral da minha janela. Assustou-se e chegou-se para um canto.
- Porque é que te assustaste? - perguntei
- Tenho medo de ti.
Era um menino bonito. Preto, de olhos e cabelos negros como a noite. A Noite que eu tanto temia.
- Mas, porquê?
- Porque vocês não gostam de mim. - disse ele
- Vocês, quem? - perguntei
- Vocês, os meninos e as meninas.
- Como te chamas? - quis saber
- Sou o Escuro, o filho da noite. E como vocês acham que eu sou mau, não me deixam brincar com vocês. Tenho medo de aproximar-me e vocês quererem fazer-me mal. - disse, e começou a chorar.
Não acreditava nos meus olhos. O escuro, de que eu tinha tanto medo, era apenas um rapazinho pequeno, como eu. Deixei o medo de lado, enchi-me de coragem, olhei-o nos olhos e disse-lhe:
- Amigos? Mas não me assustas mais!Vim um brilho nos seus olhos negros.
- Juras? Posso juntar-me a ti cada vez que estiveres triste ou só. - disse alegremente
- E aquela música tão bonita que te ouvi a tocar. - acrescentei
- Toco-a para ti sempre que quiseres - a alegria já transbordava dos seus olhos
- Olha. Fazemos assim. Todas as noites, para não adormecer assustada, tocas a música. Assim, lembro-me de ti e sei que já não estou sozinha.
- Está bem.E assim fiquei amiga do Escuro. Brinquei com ele muitas vezes em criança. E ainda hoje ele toca para mim todas as noites para eu adormecer
...............................................................
- Então Mariana, percebes porque não é preciso teres medo do escuro? - perguntou a avó.
Mas Mariana não ouviu. Tinha os olhos fechados, dormia. Mexia os lábios. Sonhava...talvez. A Avó tapou-a com os cobertores. Fechou a luz á saída do quarto, e uma flauta doce fez-se ouvir...
- Boa noite Mariana. E boa noite Escuro. - disse

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Suburbia





Lá fora
Onde os anjos passam desapercebidos, entre reflexos escondidos
Onde o sabor das laranjas é acre e sonolento
Onde quietos ficam entre suspiros, agoirentos
Ladrões de fome e sentimentos
Inquietos, pedantes e firmemente indiferentes
No chão prostrados, entre correntes e gotas de mel
Fria, grisalha, entre penas e suaves desejos
Estamos longe de tudo e de tudo apartados
Desligados, em apneia mergulhados
Enquistados no asfalto quente das tardes de verão
Surdos, entre estranhos braços enleados
Por nada que somos agora
Quando estamos
Cá fora

Não mais nos esqueceremos do afã com que morríamos
Todas as noites entre esquissos indizíveis sobre virgem linho
As páginas insolúveis lavrámos com beijos e tormentos
Derradeiros pensamentos, despertos para depois desaparecer
Em volúpias, vórtices e vertigens memoráveis de areia fina
Deixei que te perdesses entre os dedos dos meus sonhos, escapasses
Desaparecer na esquina da madrugada, um espectro feito de nada
Que tudo de mim levou, libertou, um nada nu
Despido de carícias e aromas quentes

Soçobrei
Cai longe do centro da cidade do teu Eu
Pelas luzes trémulas apagado de sombra
Não mais aqui
Tristes, tristes
Estes dias sem ti