Auto de Fé



Aos 12 anos o meu pai deu-me o que nessa altura chamávamos “uma valente coça". Não foi a primeira e não seria a última, não é por isso que me lembro tão bem dela ao ponto de esquecer todas as outras.

Há 20 anos usava-se de tudo no que tocava aos cânones educativos dos progenitores: começava a dar-se liberdade a mais mas também os havia pidescos e castradores. Os meus pais não cabiam em nenhuma dessas gavetas. Eram estranhos simplesmente. Socializar resumia-se à insistência nas visitas à ranchada de primos e tios e avós e cunhados que havia espalhados pelos arredores de Lisboa, à ideia de que não existe outro clã que não o da família, guardiã dos segredos e fiadora de patifarias mútuas, ao ponto de eu começar a chamar às nossas reuniões ‘Domingos Corleone’. Acho que nunca perceberam a piada, até ao dia em que o meu pai viu uma reposição do Padrinho na televisão e me olhou de lado, sobrolho franzido e bigode à banda, com aquele ar dele de “ó rapaz… chega aqui que temos de conversar os dois…”

Uma das minhas recordações de infância preferidas é o talento inato que tinha para arranjar confusão, sempre que sentia as coisas demasiado paradas no ar inquinado das tardes na velha escola, quando a voz solene dos professores se transformava em prédicas tão compreensíveis como uma língua eslava. O sol lá fora, no pátio, era sempre mais forte, chamava sempre mais alto do que os discursos directos e indirectos, as fracções e os verbos irregulares.

Havia um professor de desenho que me irritava particularmente, um puto de 20 e tal anos, loiro como um ariano imbecil que, por insegurança ou imaturidade, nos tratava com uma arrogância velada. Não me lembro do nome dele mas recordo que era tudo o que eu não queria ser e de como se tornou a minha vítima preferida naquele 7º ano. Tinha um carro desportivo que estacionava à porta do Liceu, azul eléctrico, brilhante como uma afronta e, ao fim da tarde, uma namorada linda como uma actriz de cinema esperava-o sempre ao portão. Mas também me lembro de como se insinuava para as raparigas mais velhas, nos corredores, dos seus fatos caros, do quase nojo com que nos corrigia junto à mesa, como se tivesse medo de apanhar piolhos com aqueles putos sujos a quem fingia ensinar alguma coisa.

Um dia, do nada e a meio de uma aula, atirei-lhe à cabeça uma borracha daquelas verdes e duras, enquanto ele escrevia no quadro. Seguiu-se um momento de pânico nos olhos dele, já cheios de uma ira humilhada, enfrentando todos os 25 pequenos trastes conspirantes.
- Quem foi que se acuse já! Quem foi, que fale agora e evita que toda a turma vá agora mesmo ao Conselho directivo comigo. Fica tudo suspenso, ouviram?!

Poucos me viram naquela fracção de segundos em que o projéctil cruzou, numa curva perfeita, o ar da sala de aula, direito à cabeça angélica. Mas, desses dois ou três bravos, ninguém abriu o bico.
- Estão a ouvir?! – gritou de novo, cortando o silencio sepulcral – Quem fez isto que se acuse ou as consequências serão gerais!

Não sei se por camaradagem, espírito que, até então, me era completamente desconhecido, se por estar farto de manter anónimo o meu crime perfeito e querer brilhar como um rebelde sem causa (inclino-me mais para esta hipótese), confessei num grave, para que a ridícula voz em mudança não me traísse:
- Fui eu, s’tor.
No Conselho Directivo decretaram-me três dias de suspensão e, à hora do jantar, o telefone tocou em minha casa mesmo a tempo da sopa. O meu pai atendeu o director com uma voz solene e consternada, enquanto me olhava de frente com o seu melhor Clint Eastwood.
Foi direito à pilha de livros de quadradinhos que tinha escondida debaixo da cama, dezenas de Homens Aranha comprados no quiosque do Sr. Eduardo a custo de muito choradinho e poupança, e levou-os com ele. Abriu a porta da rua e encaminhou-se com raiva para as traseiras de casa. Eu, numa fúria assustada, a correr atrás dele: - Que é que estás a fazer?

O meu pai seguia em passos lagos e decididos pela alameda de tílias alcatifada de folhas. Junto ao muro do cemitério parou e atirou os livros para o chão. Sacou o isqueiro do bolso, pegou fogo a um dos comics e depois atirou-o com desprezo para a pilha a seus pés. Por esta altura eu tentava salvar o maior número de exemplares que pudesse, debatia-me no meu pânico e deixava cair metade. O meu pai só abriu a boca para dizer: - Pára quieto ou levas a maior sova da tua vida.
Não precisei de muito mais argumentos. Bastou a mão de ferro no meu ombro e o olhar glacial. Fiquei ali, parado ao lado dele, a contemplar a hecatombe dos meus superheróis de papel.


Estive perto de dois meses sem dirigir a palavra ao meu pai. Isso só aconteceu no dia em que ele entrou pelo meu quarto dentro a dizer para eu me arranjar porque ele tinha bilhetes para a bola.
- Não vou contigo a porra de bola nenhuma.
E, ao contrario do que eu estava à espera, a mão dele não voou em direcção à minha cara. Olhou-me apático, virou costas e saiu.
Passados dois minutos encontrei-o na cozinha, inclinado sobre o lava-loiças. Lá dentro ardia a preciosa colecção de selos que ele andava a fazer há quase 20 anos.
Virou-se para mim e atirou:
- Quites?

Nessa tarde fomos à bola.

Comentários

  1. Estava a ler e a recordar a "Fotografia". Gosto da forma como está escrito e descrito. Adoro o final (daqueles que se fica com um sorriso e a pensar na forma interessante como o pai pediu desculpa ao filho, como em dois meses, aquele momento continuava presente para os dois e o que isso significava).
    V* :)

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  2. gostei muito! estou de sorrisão:))) e pensei é bom saber pedir desculpa,aprendi contigo mais alguma coisa hoje:D

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  3. amor e violência de mãos dadas. A dinâmica pai-filho apresentada de um modo quase biblico. JC portou-se mal, mas o velhote perdeu as estribeiras. Mais tarde, o velhote redime-se ao sacrificar um dos seus bens mais preciosos, desta vez não foi o pobre JC...

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  4. Assumir o erro, julgar e executar a sentença ... a sentença foi muito maior que a sua auto-punição, dói muito mais o silêncio e a distancia do filho do que papeis em cinzas ... muito comovente esta redenção.

    Gostei muito, obrigado

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