Felizes juntos


(Die Form - Inhuman)



Ela é como ácido, corrói-me por dentro. Revira-me as entranhas com garras de ferro e vidro. É implacável comigo, odeia-me, despreza-me, esmaga-me com violência contra a parede. E faz amor comigo.


Eu sou um mero espectador, vejo-me a mim mesmo, só e abandonado à minha sorte. Vejo. Observo. Gesticulo no ar com arpégios suaves, como se o seu corpo fosse um piano inalcançável, que eu quero tocar. Tocar. Mas não me é permitido. Não até ela dizer que sim. E fazer amor comigo.


Ela é doce, cândida, amável, paciente e delicada. Obediente. Ciente do que a espera. Ciente da besta que há em mim. Fomenta a besta que há em mim. Alimenta-a. Adorna-a com os pedaços rasgados de roupa que ainda a cobrem. Despe-se. Oferece-se. Submete-se. E faz amor comigo.


Eu sou cruel. Não amo, só desejo. Não temo o que ela tem para oferecer. Finjo ser cruel, mas sou um cobarde, vivo no terror dela. Vivo na agonia que ela me deixe. Nos deixe. Nos abandone. E não façamos mais amor. Juntos.


Ela. Ela. O espelho e o seu reflexo. A Diva e a Serva. A Cerva e a floresta que a rodeia, as árvores onde me escondo, com medo e desejo. A ninfa do lago onde me banho, na água que fica conspurcada pela minha insensatez. A mulher perfeita. A mulher delirante. Eu olho. Toco. E fazemos amor.


Eu sou louco, inquieto, ansioso e metódico. Meço as horas que me faltam até chegar a casa. Meço as palavras para que não me oiçam. Meço a distância dos meus passos, para saber onde estão os outros, aqueles que nos invejam, aqueles que nos desejam mas que dizem nos odiar. Que somos uma vergonha, um nojo, uma desgraça. Que não vivemos numa casa, mas sim num antro demoníaco, num covil de sevícia. De delícia. Dizemos nós. Olhamos para eles. Desprezamo-los. Enquanto fazemos amor.


O princípio da feminilidade, da verdade absoluta, da divindade manifestada, da imaterialidade do ser, do perfume inebriante, da maldade dos teus olhos, da vontade do teu corpo, da beleza do teu rosto, do brilho dos teus olhos, da marca dos teus dentes na minha pele, da marca dos meus dedos nas tuas costas, do aroma do teu cabelo, do sabor da tua boca, do frenesi que fazemos, quando fazemos amor.


Eu sou um pedinte, um poeta falido, um cão desobediente, um homem de extremos.
Ela é vedeta, estrela de cinema, primadonna, dona, imperatriz, meretriz, actriz, cicatriz.

Ela é mel que escorre, palavra que morre, água em que me afogo, fôlego em que sufoco.

Assim somos.
Felizes juntos.

Os três.


(repescado do extinto grupo 'Desafio 500')

Comentários

  1. Certamente são mesmo felizes juntos :)
    Um texto cheio de contrastes, muito bom Nuno!
    (contei quatro :))

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  2. podes esperar muito se esperares pouco, essa tua sede mata a fonte e seca o rio. no momento em que perceberes mesmo o pouco que determinas verás que na tua direcção surge não o que queres mas o que necessitas, nuance pertinente, horizonte em branco .

    acho que me repito.

    somatório psicossomático resumido :

    tu tu tu tu tu tu

    tinha saudades do que não conhecera, no rasgo vislumbre enorme a sombra infinita, iluminada, lá estás tu, lá estás tu, lá estás tu .

    só quem fuma pode falar do fumo, e ainda assim quase sempre pouco ...

    :))) vê se atinges.

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  3. Eu gosto da inesperada subversão deste texto. Da primeira vez que o li estive o tempo todo a pensar num homem apaixonado por uma mulher cheia de contradições – ou pelas contradições que eles acham que há em todas as mulheres.
    Mas o final é muito bom.
    Três... terá sido mesmo a conta que Deus fez? :D

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  4. e certamente seram mesmo felizes independente do nº...gostei:))

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  5. ... a ideia foi precisamente provocar essa dúvida: quantas pessoas é que estão realmente envolvidas neste texto? E quantas personalidades?

    nem eu tenho a certeza....

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  6. lindo,saboreei cada palavra, cada sentimento!
    Não interessa quantos somos, mas sim a busca pela felicidade!
    Quando comecei a ler pensei num amor entre um homem e uma mulher e em duvidas e contradições, só no fim percebi que é muito mais que isso!!!!
    DELICIOSO!

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  7. ...ou não Sandra, até para mim, a dúvida se mantém...

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