O hélio




Os balões eram um dos encantamentos dela. Daqueles que voam, daqueles que têm dentro pozinhos mágicos em vez de ar. Um dos momentos auge era quando o vendedor de balões enlaçava o balão ao seu pequeno pulso, porque isso significava que ele já era mesmo seu. Escolher a cor era fácil, desde que existissem balões azuis, eram sempre esses os escolhidos, ou pelo menos um com qualquer tom azulado. E tinham de ser ovais, nada de lagartas, nem coelhos, nem outro tipo de formato, ovais, balão dito comum.

Balão preso a ela e ela presa ao balão, a ligeira pressão que o fio lhe fazia no pulso era o suficiente para ela saber que ele lá estava.

À noite, para que a separação não fosse muito dolorosa, o balão era amarrado à cama e assim ela podia adormecer a olhar para ele. No dia seguinte, pela manhã, voltavam a ser atados um do outro. Quem assistia a isto perguntava a si próprio como é que um balão podia ser alvo de tamanha adoração.

Ao fim de dois dias, a menina pediu a alguém que lhe desenhasse uns olhos, um nariz e uma boca no balão. Agora tinha necessidade de conversar com ele e também que ele a visse, iam ser amigos para sempre! Já tinha perdido muitos, mas este era especial, ia existir eternamente.

- Desenha uns olhos bonitos! E um nariz redondinho, e uma boca a sorr…

A caneta… não acredito que a caneta tenha feito de propósito, mas… a menina, para além do susto que o barulho lhe provocou, não conseguiu compreender como é que o fio que prendia o balão a ela estava agora direccionado para o chão. Quer dizer, ela entendia porquê, só não compreendia o motivo para que o balão, dela para sempre, estava agora, dela para nunca.

Não chorou. Dela para nunca, não! Ia ser para sempre, ela tinha a certeza, para sempre no ar, a voar, com pozinhos mágicos lá dentro e preso ao pulso dela.

Procurou a árvore mais próxima, e pediu que a outra ponta do fio fosse atada a um dos ramos. Agora o balão estava outra vez a voar porque o fio estava esticado na vertical, e ela nem precisava de olhar para saber que ele lá estava, bastava senti-lo.

Ilusão agradável. Hoje a árvore ainda existe, o fio também, a menina não.

Não creio que tenha abandonado o balão, penso que agora já não precise de sentir fisicamente que ele será dela para sempre.

Comentários

  1. As palavras foram escritas. O elo permanece. Porque aquela parcela de inexplicável que une coisa,pessoas em algum momento da nossa existência, é sempre eterna.Lindo Inês:))

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  2. A menina atada ao balão, o balão atado à menina. "No dia seguinte, pela manhã, voltavam a ser atados um do outro"; "só não compreendia o motivo para que o balão, dela para sempre, estava agora, dela para nunca" – frases geniais, quanto a mim.

    O nosso primeiro contacto com o sentimento de perda é um balão que rebenta. :D E a mensagem final, acima da inocência divertida e da aparente simplicidade (sim, porque escrever simples e intenso, como tu fazes, é muito dificil)– poderosíssima.

    Escrito com enorme sensibilidade e talento, como sempre.

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