Boleia

(Nota: texto já publicado n'outra 'encarnação')



De certeza que já vos aconteceu... irem a andar descansados da vossa vida e, subitamente, sentirem um enorme calafrio espinha abaixo. Sabem o que é? Eu também não sabia, ou melhor, julgava que sabia. Seria uma corrente de ar, uma gripezita a pegar, falta de sono, um pressentimento...
Um dia, há já vários anos atrás, descobri tudo, o que queria saber e o que desejava nunca ter conhecido...

Estávamos no primeiro ano da década de 80, num Portugal ignorante e desorientado que não sabia o que fazer com o bebé da democracia que agora lhe berrava aos ouvidos com fome. Eu já tinha experimentado de tudo quanto o PREC tinha para oferecer, desde a aventura fácil com as subalternas da repartição até às novas alternativas para inebriar a mente e confundir os sentidos. Sexo, drogas e rock & roll, yeah, era isso mesmo. Curtir os Stones, Genesis, Floyd, o Zeca e os cantares do Rancho folclórico de Arganil, isso é que era vida. Os russos tinham a sua olimpíada, onde passeavam o fervor soviete pelas pistas e estádios livres de americanos capitalistas. Nesse ano o mundo perderia o Sartre, o Vinícius, o Piaget, o Lennon e o Hitchcock. Nós por cá descobríamos uma nova receita de borrego assado quando o nosso então Primeiro Ministro caia das alturas sobre os céus de Camarate. Também morreria o Caetano, mas não seria a última vez que os Portugueses teriam que aturar um Marcelo com queda para falar na TV. Algures nos mares do sul nascia uma estranha nova nação chamada Vanuatu, e no Brasil nasciam dois monstros do princípio do Séc. XXI: o PT de Lulla da Silva e a Gisele Bündchen. Em Portugal haveria de nascer muita gente da qual eu nunca iria ouvir falar.


Era madrugada de dia 12 de Novembro, e a tenaz da ressaca ainda me recordava uma piela em nome de um general romano que supostamente cortou a capa em dois para abrigar um pedinte. Eram 6 horas da madrugada quando saia da casa de uns amigos lá para os lados de Sesimbra. Esperava-me uma viagem tranquila, umas curvitas para sair da vila e uma longa recta até chegar à ponte rebaptizada que era então a única a atravessar o Tejo dos lisboetas. A cabeça cambaleava e os olhos ameaçavam fechar. Piscava-os numa tentativa vã de comunicar em morse o que a boca já não tinha coragem de proferir: estou morto de sono. Tinha andado poucos quilómetros quando fui surpreendido por uma luz forte que me fez guinar o carro para a berma. Travei a fundo, ao mesmo tempo que o despertar violento da iminência de acidente me lembrava as palavras do filósofo. Eu era de facto mortal.

Recompus-me calmamente. Peguei no volante, dei um toque no acelerador e preparava-me para engatar a marcha quando senti um enorme calafrio e olhei pelo retrovisor. No banco de trás do meu carro, antes deserto, estava agora uma jovem magra e sorridente, tez morena e cabelo liso, que me pedia lume com a maior das tranquilidades.

- Quem é você??!?!? – disse eu num tom apavorado enquanto a garganta secava e me virava apavorado para trás.
- Sou a tua boleia. Deste-me cabo do carro agora levas-me para casa ! Dás-me lume?
- Mas como é que entrou no carro? Não me lembro de ter...-
- ... deixado ninguém entrar? Eu até me espanto que já estejas acordado, tal o bafo a pinga que vai para ai.-
- Mas o que foi que aconteceu afinal? E quem diabo és tu???-
- Sou a tua ‘pendura’, já te disse. Vinhas em contramão e fizeste-me sair da estrada. Bati com o carro num pinheiro e fiquei sem saber o que fazer. Até que reparei que estavas ainda aqui e decidi que me irias levar de volta à casa do meu namorado. Não quero ficar sozinha esta noite depois do que me fizeste.-
- Ok, ok, peço-te imensa desculpa.... mas estás bem? É preciso ir ao hospital ou...-
- Não, não vale a pena irmos para hospital nenhum. Anda lá, e vê lá se te despachas com o bendito lume!-
- Mas não preferes passar para o banco da frente?-
- Não, gosto que sejas o meu chauffer. Tens pinta de ‘marialva’ e não me apetece que te ponhas com tentativas de apalpanços.-
- Mas o que dizes tu? Não sabes nada...-
-... sobre ti? Ah, és tão transparente! Topa-se logo que és do tipo dado a brincadeiras, e por hoje já brincaste o suficiente. Agora guia, e tira-nos daqui.
- Pronto pá, também não é preciso pores-te com tretas e insultos. Mas não queres ir dar uma olhada no carro antes?-
- Não merda, anda lá com isso! E essa porra do isqueiro vem ou não?!?!?
- Calma, ‘tá aqui! Vamos lá então... Como te chamas?
- Maria.
- Simplesmente?
- Isso é alguma das tuas piadinhas? Não, Maria de Jesus.
- Meu Deus – disse com um sorriso idiota e inevitavelmente engatarão – Não sabia que levava aqui a Nossa Senhora! Hehe


Ela inclinou a cabeça para o lado, puxou profundamente por uma passa e libertou o fumo com lânguida lentidão. Olhou para os meus olhos no retrovisor e disse:

- Por acaso vês algum halo?

O mais surpreendente é que vi mesmo uma auréola verde bafienta a cobrir-lhe o alto da cabeça. Mas que bomba, aquela jeropiga....

- Então Maria, também vinhas da festa?
- Se podes chamar festa ao que faço, sim, vinha da festa.
- E o que fazes?
- Sou puta. Mas ‘tás com azar, já acabou a hora de expediente e fechou a loja.
- A sério?!? Isto é, ... desculpa, não queria ser intrometido, mas também não é preciso ‘tares a gozar com a minha cara. Não queres que faça mas conversa eu calo-me, mas respostas dessas dispenso.
- Não acreditas, hein?-
- É pá, deixa lá isso. Levo-te para casa e depois ligas-me amanhã a dizer a que oficina foi parar o teu carro.-
- O tipo não acredita, olha-me só... É uma profissão como qualquer outra. E tu, deves ser menino de escritório, todo ‘boneco’ de gravatinha, a andar a papar dactilógrafas na casa de banho da repartição... És tão puta como eu, só não cobras dinheiro, antes queres fazeres uns favorezitos a promover as tipas do que aceitares uma milena pelos teus serviços de boi de cobertura.-
- Oi, calminha ai com a conversa. Tu não me conheces de lado nenhum!
- Não? Tens a certeza?-
- Que queres dizer com isso???-
- A minha cara não te é familiar?-
- Ah?-
- Olha lá bem! –


Travei a fundo. Aquela brincadeira estava a ir longe de mais! Mas o que vinha a ser aquilo, uma gaja marada enfiou-se à socapa no meu carro enquanto eu recuperava do susto do quase-acidente e agora punha-se com merdas de me conhecer?!?... Virei-me para trás para lhe dizer das boas

- Ouve lá ó cabr...-






Desapareceu!
Sem eu conseguir perceber o que acontecera, ela já não estava lá! Desapertei o cinto e enfiei-me entre os bancos para poder ver melhor. Esfumou-se. Teria sido tudo um sonho? Bem, a pinga estava boa e a noite ia longa. Coisas estranhas acontecem nas nossas cabeças. Volto para o meu posto de condutor e preparo-me para seguir viagem.
Mas está tudo calmo de mais. Não se ouve nada. Nem o barulho do vento a sussurrar na folhagem dos pinheiros. Nada. O meu estômago embrulha-se e a boca encortiça. Os olhos abrem-se desmedidamente e as palmas das mãos suam...

De repente viro-me para a direita, e vejo-a sentada ao meu lado, no ‘lugar do morto’. Esta absolutamente estática. Congelam-me as veias e empalideço de horror. Estendo a mão para lhe tocar no ombro, mas a pele antes morena era agora cinzenta-esverdeada, encarquilhada e coberta de muco. Sem saber o que fazer, toco-lhe no ombro sinto-a fria como pedra. Retrai-o a mão bruscamente e grito. Lentamente, ela vira-se para mim, rodando o pescoço numa sequência de gemidos silenciosos e estalidos secos.

- E agora, já me reconheces? –

Onde antes estavam olhos viam-se cavados buracos que emitiam uma luminosidade verde e demoníaca. Os meus intestinos cederam, e desfiz-me ali mesmo num frémito de pânico e terror.

- O que és?! O que queres de mim!??! –

- Não te preocupaste com isso enquanto me comias na casa de banho. Nem te ralaste quando o meu namorado entrou e me viu de perna aberta a levar contigo. Levantaste as calças e desapareceste como se não fosse nada contigo. Ele levou-me dali calmamente e meteu-me no carro. E ali naquele ponto da estrada onde me apanhaste, levou-me para a mata e espancou-me até à morte.
- Mas o que dizes tu? Isso é mentira, eu... -
- CALA-TE! Hoje é dia de pagares. Hoje é o dia da puta receber o que deve!


Desmaiei. Não sei o que se passou a seguir...




Quando acordei estava sozinho numa cama. Tentei mexer-me mas não consegui. Chamei por ajuda e lá apareceu uma enfermeira.

- Onde estou, onde estou eu?!!?? –
- Ora viva! Que bela surpresa!
- Que surpresa?-
- O Sr. finalmente acordou! Sabe quanto tempo se passou?-
- Tempo? De que fala a Sr.ª... o que é que me está a dizer!??!-
- Há uns 20 anos atrás foi dado como morto num acidente de automóvel. Aparentemente despistou-se sozinho quando vinha de uma festa ou lá o que era –
- Mas isso foi ontem! ‘Tá a gozar com a minha cara!??-
- Não, não estou. Não morreu mas entrou em coma. Infelizmente, sabemos que o acidente o deixou tetraplégico.
- Como assim?? Onde está a minha mulher?-
- O Sr. não tem família conhecida. Aliás, já não há propriamente amigos a aparecerem aos domingos para o ver. Sabe, é o drama dos comas prolongados... é uma tristeza. Agora tenho que sair, mas volto já.-
- Srª enfermeira, não se vá embora, por favor! –
- Tenho que ir avisar os médicos que acordou. Mas se precisar de alguma coisa chame por mim –

- Como se chama? –
- Maria. Simplesmente Maria. –

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Oi Inês, acho que tiveste a mesma reacção que o paciente!... :)

    obrigado pelos teus sempre simpáticos e genuínos comentários

    (agora vou olhar para o chão...)

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  3. Bem, ao longo deste texto passei por várias fases, ri, sorri, fiquei séria, fiz cara de espantada,... Tudo isto para concluir que temos aqui mais um texto "wooow" como tu gostas de dizer. :)
    Mas no fim, "Maria, simplesmente Maria", fiquei sem saber que cara fazer :D V*
    ("Esta mensagem foi removida pelo autor", correcção de palavras :P)

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  4. Uma encarnação mais tarde, continua a arrepiar-me. Master of suspense. Adorei reler. :D

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. encantamento é o que me sai no momento!!! adorei:))

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