A Maldição



Não vou chorar. Exorcizo todas as gotas cadentes que abrem caminho na minha cara e morrem num lugar que ninguém conhece. Sou fraca se chorar.
Digo: inspira-as, absorve-as, consome-as, devora-as, recolhe-as, e se for preciso bebe-as antes de saírem. Em frente ao espelho, devolvo o olhar aos meus olhos para ter a certeza que nada vai brotar.
Penso: para onde vão as lágrimas que se escondem? Ora, vão para o lugar de onde nunca deviam ter saído! Pergunta estúpida! Tal como eu serei se chorar.
Sinto: dor. Maldito, que se sente por eu estar a reter estas gotas importunas. Sou capaz de te arrancar à machadada só por estares a viciar o peso da minha consciência. Ela não vai ceder a ti! Vou amaldiçoar-te! Sim, és maldito, mil vezes maldito! Que o sal das minhas lágrimas não nascidas cristalize nas tuas coronárias, que o oxigénio se extinga, que fiques necrosado. Não me importo. Não vou chorar.

Comentários

  1. Bolas, vou guardar esta, para o caso de um dia precisar dela. :D
    Parabéns, adorei. Fez-me lembrar a cena da Glen Close no final das "Ligações Perigosas". Muito bom.

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  2. muito muito bom!e nem que me empurrem do alto do arranha céus depois de te ler, sei voar não vou chorar!!:D

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  3. Senti como se se tivesse passado comigo.

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