O Chão



Nos dias de não inspiração, ele atiravas os pincéis pela janela do 3º andar. E pela quantidade de pincéis que existiam no chão, esses dias já tinham sido muitos. Ninguém tinha a coragem de apanhar os pincéis, onde caiam aí ficavam. Só o vento os conseguia mudar de lugar e quando o fazia desenhava no chão um rasto de tinta.

Era engraçado ver as pessoas, que passavam naquela rua, a saltitar de espaço em espaço, para não pisar ou escorregar em algum dos pincéis. As crianças apontavam para as pinceladas secas que já existiam no chão e os adultos respondiam sempre “isso não tem nada para ver”.

Nos dias de não inspiração, ele bebia sumo de limão. Arrumava as tintas por aquela ordem que vem nas caixas de lápis de cor. Lavava a paleta e era ver um rio multicolor a ir pelo cano abaixo. Encostava o cavalete à parede da estante. Bebia mais sumo de limão. Ia à caixa que tinha escondida no armário, tirava de lá novos pincéis e colocava-os dentro do copo vazio do sumo. Tudo pronto e arrumado para um novo dia. Sentava-se na cadeira de baloiço que tinha em frente à janela e ai baloiçava até o corpo não aguentar mais. Adormecia.

Numa manhã seguinte a um desses dias, bebeu sumo de limão. Quando ia arrumar as tintas viu que estas já estavam arrumadas e aí reparou em algo que nunca tinha acontecido: dois dias seguidos de não. De não! "Alguma coisa está mal" pensou. Montou o cavalete, encheu a paleta de tintas, pegou num dos pincéis e… descobriu o que nunca pensou descobrir, não tinha nenhuma tela em branco. Dramático com sempre foi a vida toda e em mais um acto de raiva, foi até à janela e atirou o único pincel que ia usar naquele dia, mais a mão que segurava o pincel, mais o braço que segurava a mão, mais o corpo que era dono do braço e…

Era engraçado ver as pessoas, que passavam naquela rua, a saltitar de espaço em espaço, para não pisar ou escorregar em algum dos pincéis, ou no pintor. As crianças apontavam para as pinceladas secas que já existiam no chão e queriam ir ver o pintor mais de perto, mas os adultos respondiam sempre “isso não tem nada para ver”. O pintor olhava para elas e sorria. Ao fim de tantos anos, a verdadeira obra tinha resultado dos dias de não inspiração. Todo ele feito de vento, mão de vento, braço de vento, corpo de vento, tinha como objectivo terminar, ou talvez não, a obra há muito tempo iniciada. A verdadeira inspiração estava três andares abaixo dele.

Às vezes subimos tanto que esquecemos do que está em terra firme, do que pertence ao nosso chão. Depois, precisamos de uma pequena queda para acordar e voltar a ver todas as cores. Tão simples quanto isto. Alguém quer beber sumo de limão?

Comentários

  1. adorei...
    está tão simples, sincero, desprovido de enredos e adjectivos desnecessários, limpo, belo e emocionante


    tens art / heart :)

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  2. Palavras para quê? Genial. os teus dois últimos parágrafos então são brilhantes. Sou tua fã oficial! :D

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  3. espetaculo, tão sobrio tão envolvente e tens outra fã oficial!!:))

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