Voo HLL 0969

(nota: texto anteriormente publicado no extinto grupo 'Desafio 500'





- Senhores passageiros, bem-vindos a bordo do voo HLL 969 com destino a…-

E por ai fora. É sempre a mesma conversa: “olá, bem-vindos, daqui a ‘xis’ horas aterraremos algures e entretanto mantenha-se sossegado”. Termino de encafuar a mochila no compartimento, não sem antes tirar o leitor de mp3 da bolsa da frente, preciso de companhia para as 6 horas que se seguem. Encolho-me para deixar passar um homenzito carrancudo que olha para mim de soslaio e esgueiro-me para o meu lugar à janela. Não faço questão nenhuma de ir janela, pois embora ache piada a ir vendo a paisagem, irrita-me de sobremaneira ir entalado entre a fuselagem e estranhos.

(…)

Sim, já sei, lá vem o hospedeiro, ou comissário, ou lá como é que eles se chamam agora dizer-me para desligar o telemóvel, nada de contacto com o mundo exterior, vamos levantar voo, faça favor de ficar quieto e permanecer isolado…

(…)

Finalmente. Estava complicado, mas já surgiu o sinal de desapertar o cinto, já posso ligar o mp3 e vogar para onde a playlist me levar. Está uma bela noite para viajar, esquecer o corpo, deixar o sofrimento para trás, olvidar a dor, reforçar a concha em que me aninho e fugir, simplesmente fugir de mim. Primeiro tema da lista: L'Esprit, dos In The Nursery.

(…)

Hum?! Que estranho, nem dei por me levantar, como é que vim parar ao meio do corredor?... onde é o meu lugar? Não o vejo, queres ver que me perdi no meio do avião?!? Mas quem é aquela gente e o que fazem todos ali? Vou lá espreitar… >com licença, COM LICENÇA!<… PORQUE NÃO SE DESVIAM?! Desisto, vou até lá ao fundo, parece que está uma hospedeira, perdão, uma assistente, ou melhor, aeromoça, como dizem os brasileiros, adoro essa expressão, giríssima,… como ela. Está mesmo a acenar-me, querem lá ver? Isto mais parece um sonho, daqueles bons que nos fazem acordar com um sorriso! Bom, vamos lá então, meter conversa e ver o que a sorte nos reserva…

(…)





Sobressaltado, dou um solavanco para a frente e estalo o pescoço. Tenho a boca a saber a ferro, amarga e salgada, como se estivesse a engolir sangue. O mp3 estrilha demasiado alto, rompe-me os ouvidos. Algures no meio do ruído identifico ‘Heresy’ dos Nine Inch Nails. “Your god is dead, and no one cares” grita o Trent Reznor… e se calhar tem razão! Estou nauseado, enjoado, tenho dores horríveis no estômago, sinto a cabeça a andar a roda e a estilhaçar por dentro, parece que alguém me abriu ao meio e me remexe as entranhas, vou vomitar, não aguento, o meu coração parece que vai parar… estou a perder os sentidos, acho que vou desm…


(…)




Estou na casa de banho, com as duas mão sobre o lavatório e frente ao espelho, com o olhar fixo no estranho que se manifesta perante mim.

Pareço eu, mas não sou eu… ou melhor, acho que não. Este tipo está com boa cara, alegre, sorriso desvelado, expressão de quem se sente leve como uma pena, olhos brilhantes, diria mesmo que acredita que tudo de bom lhe vai acontecer, diria mesmo que está com … fé!
Mas quem é ele? Pareço eu, mas nem me reconheço… Pareço eu, mas não o eu que aqui entrou, talvez outro eu, um eu que eu encontrei um dia na rua, disse ‘olá bom dia, como vai o senhor’, virei costas e seguimos caminhos separados. Como eu gostava de ter sido como ele, como eu sonhei um dia, igual a mim mesmo, mas totalmente diferente do que me tornei. Igual a nada. Sinto-me vazio, só comigo mesmo, estamos eu e ele, num cubículo minúsculo a olhar um para o outro. Ele sorri, com fé, alegria e leveza. Eu olho-o aterrorizado, com medo e desconfiança. Final, porque é que eu não sou como … eu?


(…)

Quem é que me está a empurar?! Hum?... Que se passa? Porque estão a olhar para mim com esse ar? Que se passa?!? Digam-me, porque me olham assim, dessa maneira assustada e se movem para trás e para diante, com estranhos objectos reluzentes nas mãos? Que luz forte é esta, porque é que está tanto barulho, oiço máquinas a apitar, campainhas a tocar, gente atabalhoada a mover-se em direcção a mim… e porque não me mexo?! Não me consigo mexer!! Mas o que me estão a fazer? Esperem, ESPEREM, digam-me o que se passa, façam parar este barulho! Porque a miúda do encontro de há bocado está agora de uniforme de enfermeira? Ela está a olhar para mim, mas já não sorri, está aflita, mas concentrada, tem ma seringa na mão e … que sussurra ela? Consigo ler os seus lindos lábios … está a dizer: “vai correr tudo bem, mantenha-se calmo…”. O coração bate mais devagar, a pressão baixa. No olhar de uma estranha encontrei o meu porto de abrigo e nos seus lábios carnudos um aconchego inesperado. No meio do caos, encontrei a sereia que me embalou com o seu canto…

...adormeço.


(…)

Vogo.

Vogo entre as nuvens. Vogo entre o espaço infinito, deslizando por entre o éter. Sou livre como nunca ousei ser. Por medo. Por indecisão. Por excesso de desejo. E por falta dele também. Estou só comigo mesmo, dentro desta barca que é a minha alma, seguem todos os actores com que me apresento ao mundo. Sou o amigo das horas difíceis. O amante desobediente. O pai que ama de forma incondicional. O homem só e nu perante os anjos. Eu. O homem do espelho. Somos o mesmo. Como diamantes, brilhamos, somos eternos e temos dezenas de faces. Todos somos um. Um só passageiro. Uma só alma. Uma só luz perante mim. Devo ir para junto dela?...

(…)




Como um furacão que irrompe pelas águas do Atlântico, um violento fôlego abre-me a traqueia. Estou sentado no meu lugar. Tudo está calmo à minha volta. Os passageiros dormitam ou lêem revistas de ocasião. Alguns ouvem música, como eu. Deve ter passado algum tempo desde que liguei o mp3, pois já vai no 4º andamento. Ah, o coro soa como se os anjos se unissem para nos levar aos céus. A nona de Ludwig Van B., uma das mais perfeitas pérolas do Universo. O apogeu do sábio-louco. Pobre Ludwig. Genial Ludwig! Graças a ti, acredito que um dia possamos todos ser irmãos, algures na eternidade…


(…)

“Senhores passageiros, dentro de momentos iremos aterrar em…”

E por ai fora. Foi o voo mais estranho, inquietante e revelador. Que já alguma vez fiz. Mas, que estranho… não sei onde estou, qual era mesmo o meu destino?






(…)

- A senhora é a esposa? -

- Sou sim. Correu tudo bem doutor? –

- Bem, foram 6 horas complicadas, houve momentos difíceis, mas o nosso homem foi corajoso e no momento certo o seu corpo como que se libertou e o resto da operação foi um sucesso. Ainda pode demorar mais uma meia hora ou mais a recuperar os sentidos, mas estamos em crer que tem o seu marido de volta! –

A mulher respira de alívio, trinca gentilmente os seus lábios carnudos e trémulos e suspira profundamente.

Comentários

  1. Aqui está mais uma daquelas fantásticas viagens, em primeira classe, a que já nos tens vindo a habituar(se bem que aqui acho que há mais do que uma viagem) :)
    Fez-me recordar o teu texto "Avião". Vou já comprar o bilhete para o próximo voo :)

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  2. "God is dead and no one cares"? Bem, acho que o teu homem o ressuscitou. Já comentei noutro espaço mas nunca é demais lembrar: excelente conto, excelente ritmo, excelente banda sonora, excelente mensagem. Tu darias um guionista brilhante, sabes? :D

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  3. Adorei. Parabéns. A sonorização bastante rica também.

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